Reportagem Projetos

Protagonistas com o pé no chão

Nos jardins da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), alunos comemoram a colação de grau da primeira turma do curso de Magistério Indígena Tremembé Superior (Mits), em 6 de março de 2013 FOTO: UFC/ IGOR GRAZIANNO
00:00 · 21.04.2018

Numa palhoça de praia, sem lousa, carteiras nem merenda, Raimundinha, filha do cacique João Venâncio, alfabetizava crianças na escola "Alegria do mar", na Praia de Almofala, em Itarema. Desde 1991, a jovem professora já ensinava voluntariamente músicas e passos do torém, um saber específico da tradição tremembé. Embora a vida tenha sido breve, ela desenhou a trilha de seu povo na educação.

Com o apoio de parceiros, os tremembé retomaram, em 1997, o projeto da educação diferenciada, reorganizando e expandindo as escolas indígenas, que atualmente somam sete (três com Ensino Médio) em Itarema. Contudo, para ensinar as crianças da aldeia, era necessário ter os professores indígenas.

Dessa forma, em 2001, surgiu o curso de Magistério Indígena Tremembé (MIT), de nível médio. Na ocasião, 39 representantes da etnia receberam a formação no aldeamento, ficando todos aptos para ensinar nas séries do ensino fundamental.

Após a conclusão dessa etapa, a mesma turma ingressou, em 2006, no curso de Magistério Indígena Tremembé Superior (Mits), incorporado posteriormente pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Leia mais sobre os personagens:

> Neide Santos: “Os nossos livros são as nossas lideranças”
> Gilsa do Nascimento: garra do Tremembé 
 
Segundo o antropólogo José Mendes Fonteles Filho, o Babi Fonteles, professor da UFC, parceiro e coordenador do Mits, alguns pontos merecem ser ressaltados: o fato de o curso ser o primeiro da modalidade licenciatura intercultural no Nordeste e por representar um instigante e exitoso caso de protagonismo indígena na criação de um curso de nível superior no Brasil. Seis anos depois, 36 alunos estavam graduados.

as
O professor e antropólogo Babi Fonteles coordenou  a primeira turma do Magistério Indígena Tremembé Superior (Mits)

O Mits, denominado carinhosamente pelos tremembé de "Magistério Pé no Chão", ganhou esse nome por ter sido pensado, proposto e aplicado no próprio aldeamento. As aulas aconteciam em etapas mensais e itinerantes, revezando-se entre as comunidades da etnia. Dessa forma, lideranças, pais, mães, jovens e crianças indígenas tinham acesso aos encontros, podendo inclusive participar de momentos significativos.

Troncos velhos

Dentre os convidados para ministrar as aulas, estavam docentes de diversas regiões do País, mas também lideranças locais, os "troncos velhos", a exemplo do cacique João Venâncio e do pajé Luís Caboclo, igualmente remunerados para ensinarem.

Com total de 4 mil horas-aula, o Mits teve como conteúdo curricular uma matriz específica e intercultural, conjugando os saberes próprios da tradição tremembé com o conhecimento acadêmico próprio da formação para o exercício da docência.

No dia 6 de março de 2013, a turma deixou a aldeia especialmente para receber o diploma durante cerimônia na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza. Uma festa que teve como destaque a dança do torém.

Com a graduação, todos estão aptos a lecionar para o ensino médio. Eles também produziram 19 livros sobre os tremembé, a maior coleção autoral indígena no Brasil.

"O Mits abriu uma porta muito importante para a educação indígena no Ceará em se tratando da consolidação dessa modalidade, dessa perspectiva de educação a partir de um elemento fundamental que é a formação de professores indígenas, feita por uma universidade pública, uma das melhores do País", afirma Babi Fonteles que morou cerca de um ano em Almofala para a pesquisa de sua tese de doutorado (2000-2001).

Na avaliação do antropólogo, a contribuição do Mits vai além da educação indígena porque todas as outras perspectivas de educação inclusiva, de algum modo, beneficiam-se desse processo vivenciado pelos tremembé. "Tudo o que veio depois em se tratando de formação de professores indígenas em nível superior no Ceará tem exatamente no Mits o seu marco principal. E isso continua hoje, seja em outros cursos de formação de professores, seja em trabalhos realizados no sentido de buscar outras formações dentro das universidades que não sejam apenas de professores, porque os povos indígenas também pretendem ter outras formações, como direito, medicina, geografia, história e ciências sociais".

Futuro

Ainda não está prevista a próxima seleção para o Mits. É provável até que ocorra em outra instituição: "Do ano passado para cá, vem se construindo a perspectiva de nova turma, e os tremembé optaram por se aproximar mais da Universidade Vale do Acaraú (Uva), em Sobral, mais próxima da aldeia de Almofala, e como forma de integrar outras instituições nesse processo de construção de uma rede de universidades que apoia a luta deles por acesso ao ensino superior".

Enquanto isso, o antropólogo torce para que se consolide a proposta do curso de formação intercultural de professores indígenas do Campus da UFC de Itapajé, "que vem a cumprir uma missão bem importante, voltada especificamente para formação de professores com 10 cursos de licenciatura".

Segundo Fonteles, nesse momento, a luta também está direcionada para o acesso à pós-graduação: "Na consolidação do processo de abertura das universidades, principalmente das públicas para os povos indígenas, é necessário garantir que eles possam ter também acesso a mestrados e doutorados".

Formandos do Mits assinam coleção de livros 

a
Foto:Fernanda Siebra
 
Em março de 2016, os 36 formandos do Mits lançaram a maior coleção autoral indígena já produzida no Brasil, que consta de 19 livros produzidos por professores indígenas Tremembé de Almofala. A Coleção Tremebé saiu com selo próprio “Magistério Pé no Chão”.
 
Editada pela Imprensa Universitária,  da Universidade Federal do Ceará, trata-se, segundo o coordenador do Mits, Babi Fonteles, de um excelente material inédito sobre a cultura Tremembé, com temáticas que vão dos saberes tradicionais aos aspectos da cosmologia, folclore, patrimônio, culinária e medicina. 

Leia ainda:

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.