Reportagem

Projeto Pequi Vivo: Por um valor mais justo

A cooperativa do projeto Pequi Vivo é formada por 22 moradores do Sítio Cruzeiro, distante 20 km do Centro do Crato
16:38 · 24.03.2017 / atualizado às 16:11 · 28.03.2017

Projeto Pequi Vivo: Por um valor mais justo

Textos: Germana Cabral e Cristina Pioner Fotos: Fernanda Siebra

A cooperativa do projeto Pequi Vivo é formada por 22 moradores do Sítio Cruzeiro, distante 20 km do Centro do Crato

Na época do pequi, Elizete Honorato, 34 anos, alterna o trabalho no roçado com o da colheita do fruto. Ritual que a agricultora do Sítio Cruzeiro, a 20km do Centro do Crato, cumpre desde a infância. Não tem hora para entrar na mata, sempre em companhia do marido, Cícero, e, muitas vezes, dos quatro filhos.

Neste ano, a família apura cerca de 1.200 frutos por dia, resultado de um trabalho intenso que entra pela madrugada. “Eu consigo colocar um saco com até 300 pequis nas costas”, orgulha-se. O destino é vendê-los para os atravessadores por um valor que chega a R$ 5,00 o cento.

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Elizete, porém, espera lucrar mais com a atividade quando estiver em funcionamento o galpão do Projeto Pequi Vivo, que orienta a comunidade acerca do manejo, extração e beneficiamento do fruto a fim de aumentar a produção e a lucratividade. E evitar o desperdício também.

Com o espaço construído e equipamentos comprados, os 22 cooperados aguardam a instalação da energia trifásica pela operadora de energia. Só assim poderão utilizar a câmara fria e o poço profundo. Em nota à reportagem, a Enel Distribuição Ceará informou que a obra para ligação de energia está em execução e será concluída até o próximo mês de abril. Sendo assim, o início do congelamento do fruto ficará apenas para a próxima safra, pois a energia é fundamental para colocá-lo em prática.

Galpão

Com o galpão já concluído e equipamentos comprados, a exemplo da câmara fria, cooperados e universitários do Projeto Pequi Vivo aguardam ainda a instalação da energia trifásica para iniciar o congelamento do fruto

O que parecia mais difícil, porém, eles já conquistaram, em uma seleção que contava com 3.500 projetos em todo Brasil. A iniciativa, em parceria com o Centro Universitário Leão Sampaio (Unileão), de Juazeiro do Norte, venceu a 17ª edição do Prêmio Santander Universidade Solidária, promovido pelo Banco Santander e pela Unisol, que selecionou oito projetos. Cada vencedor recebeu R$ 100 mil para investir nas propostas.

E, desse modo, os participantes esperam melhores condições de vida na comunidade. “A mentalidade das pessoas já mudou um pouco, falta só a gente começar a trabalhar pra ter o lucro”, afirma Tonir Teixeira da Silva, presidente da cooperativa e vice-presidente da Associação Comunitária dos Moradores do Sítio Jatobá e Cruzeiro.

O carro-chefe do projeto será o congelamento do pequi, cuja linha de produção envolverá lavagem e seleção do fruto, que após aberto passa por choque térmico e secagem natural. Na etapa final, os caroços embalados a vácuo e colocados na câmara fria serão comercializados por um valor mais justo fora da época, uma forma também de evitar o desperdício. A cada três meses, uma equipe do prêmio vem ao Sítio Cruzeiro para prestar consultoria e avaliar o desempenho do projeto.

Tonir Teixeira

Tonir Teixeira da Silva, presidente da cooperativa e vice-presidente da Associação Comunitária dos Moradores do Sítio Jatobá e Cruzeiro

“Nosso grupo é bem organizado, sendo 75% de mulheres. Inicialmente, trabalharemos somente com os 22 cooperados, mas a ideia é ampliar esse número para envolver mais moradores da comunidade. Nossa expectativa é valorizar bastante o pequi e eliminar o atravessador, que ganha muito em cima de quem cata andando de 8 a 10 quilômetros diariamente para apanhar o fruto. Por exemplo, ele compra o cento por R$ 5,00 e vende por R$ 15,00. Queremos aplicar um preço razoável pra todo mundo”, adianta Tonir, catador desde a infância.

Sítio Cruzeiro

O agricultor Jackson Ferreira, vice-presidente da cooperativa e um dos primeiros a acreditar no projeto também está confiante: “A expectativa é que o pessoal se motive para ingressar tanto na associação quanto no Pequi Vivo. Nossa pretensão é expandir o máximo possível”, afirma ele, que cata o fruto diariamente e vende o apurado para atravessadores na porta de casa.

Além da estrutura, a comunidade recebe formações, serviços e capacitações com professores e estudantes de 13 cursos da Unileão. Gestão de negócios, rodas de conversas sobre associativismo e cooperativismo, nutrição, psicologia organizacional com crianças, odontologia, enfermagem, fisioterapia (postura correta de catar o fruto), e administração de caixa.

Elielson Bezerra Luiz, do 4º. semestre do curso de gestão comercial, é um dos 26 estudantes diretamente envolvidos com o Pequi Vivo. Segundo ele, “o importante é sempre escutar a comunidade porque nada melhor do que ouvir a opinião deles para entender realmente a realidade em que vivem”. Melline Saskia Bezerra, 20 anos, aluna de psicologia, define sua participação como “uma experiência nova a cada visita”.

Com o impacto positivo do pequi na comunidade do Sítio Cruzeiro, os promotores da premiação escolheram o Pequi Vivo como projeto modelo para o 19º Encontro Nacional do Prêmio Santander Universidades, no ano de 2016.

O óleo “milagroso” de seu Pedro

Pedro Martins

Setenta e dois anos de vida, 60 deles dedicados à fabricação de óleo de pequi. Referência quando o assunto é o fruto nativo da Chapada do Araripe, Pedro Martins, do Sítio Cacimbas, em Jardim, fala com propriedade do ofício que aprendeu com o pai aos 12 anos. “Tenho muita experiência neste trabalho”, diz sem modéstia, safra reduzida, a solução foi comprar o pequi: um milheiro por R$ 45,00. Essa quantidade, ao fim do processo, rende apenas um litro e vai desfiando cada passo de como produz o óleo. Neste ano de de óleo, extraído da polpa de forma rudimentar e vendido por R$ 60,00. São pelo menos 8 horas de trabalho para tirar uma tachada (entre 15 a 20 litros).

Quando entrevistamos seu Pedro, ele estava com a família no acampamento do Sítio Barreiro Novo, em Barbalha e a 6km de sua casa, mas, na terça-feira passada, por telefone, ele nos informou: “Já voltamos para casa. Nesta safra, a gente produziu uma faixa de 150 litros de óleo”. Nesse “a gente”, estão incluídos a mulher Cícera, quatro filhos e muitos netos. Também congelou cerca de 15 mil frutos para vendê-los na entressafra.

1 litro de óleo

Para fazer 1 litro de óleo de pequi, seu Pedro gasta mil pequis. No acampamento, trabalha, no mínimo, 8 horas para tirar uma tachada de 15 a 20 litros 

O agricultor explica que o óleo serve para tudo: “Pra bronquite (com mel, limão e alho), arranca aquele catarro que tem por dentro, pra problema na garganta, tosse forte, limpa o intestino e pode passar para massagem em pancada. É milagroso, por isso que ele é caro”. Na cozinha, fritar o ovo, o peixe, a carne de gado, e pode colocá-lo no baião de dois, mugunzá e na feijoada.

Seu Pedro também faz óleo da amêndoa, porém o método é ainda mais trabalhoso. “Tem que cortar o pequi, tira bastante amêndoas e precisa moer todinha. São mil bichinhas destas pra dar um litro de óleo. A gente faz mais da polpa, dá trabalho, mas é mais fácil. Mas é aquela história, a gente não tem nada sem trabalho, quem quer coisa fácil, aí nem fácil nem duro”.

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