Reportagem Incertezas no mercado

Produção da lagosta tem queda livre

Pesca com manzuás no município de Icapuí, litoral leste do Ceará
00:00 · 25.11.2017 por Melquíades Júnior (textos) /Natinho Rodrigues (fotos)

Não se encontra lagosta como antigamente. É preciso ir cada vez mais profundo para pescar o crustáceo, uma das principais iguarias nas águas quentes do Atlântico. Mas a queda na produção, da qual o Ceará é líder nacional, hoje gera um efeito ainda maior do que ontem, pois ameaça portas abertas da exportação, que responde por até 80% da atividade. Antes, quem ameaçou foi a própria captura predatória, juntamente ao esforço de pesca para além do ritmo de reprodução.

Em 1991, o Ceará produziu 7.863 toneladas de lagosta. Esse volume gerou uma verdadeira euforia de Leste a Oeste do Estado. Cresceu o número de licenças de pesca, e o setor de frigoríficos se expandiu para atender a uma demanda, que, se já chegava aos Estados Unidos, poderia ir para mais longe - são pelo menos 15 países importadores.

aA pesca indiscriminada não respeitava nem o período de defeso, até que em 2007 a produção caiu para inesperadas 2.186 toneladas. Nos anos seguintes, o setor não se recupera aos níveis do início dos anos 1990, mas o Estado, junto ao Rio Grande do Norte, firma-se como polo exportador. Em 2010, as vendas para o exterior chegaram a 2.500 toneladas, mas era ponto fora da curva porque, em 2011, o preço da lagosta inteira caiu 20%, de US$ 20,6 (em dólares) para U$ 16,1 no ano seguinte.

Das mais de 4 mil embarcações registradas para o setor no Ceará, não é possível dizer quem pesca como. O principal petrecho seria o manzuá, ou cangalha, único permitido por lei, além de marambaias e compressores de mergulho.

As gaiolas, que contêm uma isca em seu interior, são lançadas na água e amarradas por uma corda, servindo de âncora para um pedaço de isopor na outra extremidade, que, feito ferrão no gado, guarda a inicial do nome do proprietário. Visto de cima, o mar fica cheio de pequenos isopores boiando ancorados feito barcos sem vela.

No fundo, a captura silenciosa acontece: atraídas pelo cheiro do peixe-isca, as lagostas entram no labirinto enlinhado quadrangular, e não conseguem mais sair. Com um ou dois dias de fundo do mar, o manzuá é içado dos 20 metros de fundura em que se encontrava. Mas o outro método utiliza tambores ou pneus velhos, que, amarrados, formam um habitat artificial, onde as lagostas se escondem dos predadores, mas é uma armadilha para o centro de captura pelos mergulhadores, que já sobem com o crustáceo morto.

Pesquisadores, associações e colônias de pescadores chegaram a propor, em 2012, que o Governo Federal discutisse a paralisação da pesca por dois anos, um fôlego para a reprodução da espécie, mas a questão nunca avançou.

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Cadeia produtiva

Já neste 2017, cresceu, em valor agregado, a comercialização de lagosta viva, portanto a exigir uma captura menos danosa. O Governo do Ceará celebrou com o Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Ceará (Sindfrio) e o Centro de Desenvolvimento de Pesca Sustentável do Brasil (Cedepesca) acordo de cooperação técnica para desenvolver a cadeia produtiva da lagosta viva. Conforme Euvaldo Bringel, secretário de Agricultura, Pesca e Aquicultura (Seapa), o desembarque do crustáceo inteiro tende a gerar receitas.

Apesar dos números decrescentes, o empresariado tem visto uma compensação logística em relação a recorrentes perdas com a tributação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Foi alterado em junho deste ano o decreto Nº 24.569, de julho de 1977. A decisão evita, na prática, que estados vizinhos comprem a lagosta cearense com tributação mais vantajosa que o produtor local e exportem, garantindo, assim, maior margem de lucro.

À espreita dos números econômicos, milhares de pescadores cearenses também esperam que, na prática, a atividade no mar lhes garanta não só futuro como sustentabilidade.

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