Reportagem Bloco Pirocaia

Prazeres e desafios de pôr o bloco na rua

Bloco Pirocaia resgata antigo nome do bairro Montese, em Fortaleza
00:00 · 10.02.2018

Poucos ambientes são mais democráticos do que os espaços do ciclo carnavalesco. Seja no chão da praça, na areia das praias ou nas veredas mais estreitas, a festa momina significa a coletivização da alegria e do bem querer. Durante as comemorações, os sentimentos positivos saltam do peito, mobilizam os corpos e ganham forma nas multidões. Entretanto, não é só nos arredores da Bar da Mocinha ou no fervor da Praça da Gentilândia que a diversão se manifesta. Nos bairros mais afastados dos ditos polos culturais, o organismo das festividades pulsa freneticamente. Considerada outrora o novo "túmulo do samba" - tal como a São Paulo vista sob o olhar de Vinícius de Moraes -, Fortaleza vem remodelando a própria face festiva, tal qual um folião que se reinventa ao trajar uma fantasia.

A popularização do carnaval de rua na cidade alencarina foi iniciada em meados da década de 30, com o surgimento de blocos como o "Prova de Fogo" e a "Escola de Samba Lauro Maia". Oito décadas depois, transformações sociais e culturais ressignificaram parte da comemoração, bem como a mudança de postura e visão de alguns foliões. Ovo e goma, recursos até anos atrás tão obrigatórios quanto as vestimentas, abrem espaço para o brilho viscoso do glitter. Em alguns bairros, onde as comemorações carnavalescas surgiam de maneira tímida, é percebida uma mobilização em prol da ocupação dos espaços públicos e do resgate histórico das identidades.

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Tradição

Criado no Demócrito Rocha, o bloco "Jacaré Folia" é um exemplo de festividade nascida da inquietação de moradores com a falta de uma comemoração aos moldes do carnaval tradicional, sem deixar de lado a identidade do bairro. Com nome em referência aos jacarés que fazem morada na Lagoa da Parangaba, o bloco chegou neste ano à 9ª edição, embalado pelas tradicionais marchinhas e pelo saudosismo dos foliões.

De acordo com o economista Sandro Monteiro, 52, um dos responsáveis pelo bloco, a festa surgiu para suprir a ausência dos blocos de sujos, organizados pelos próprios residentes da região até o início dos anos 90. "Nós ficamos órfãos de um evento desse porte na área do Grande Pici, então resolvemos resgatar essa memória. A iniciativa de colocar o bloco na rua só traz aspectos positivos, como rememorar um passado que foi bom, a geração de renda extra para as famílias e a interação entre as pessoas. Tem programação para criança, ala para idosos, todos vêm para cá", afirma. Em edições mais recentes, segundo Sandro, o bloco já chegou a receber cerca de 9 mil pessoas por noite.

Além do entretenimento promovido durante os dias de festa, a ocupação pode servir como meio de revitalização social de espaços marginalizados ao longo dos anos. Conforme Érika Fonseca, organizadora do bloco "Eu quero é muito mais", realizar o festejo de carnaval no Polo de Lazer do Conjunto Ceará, um dos pontos tradicionais do bairro, funciona como estratégia para aproximar os moradores do local conhecido pela insegurança. "Quando pensamos em fazer o evento, houve resistência pela escolha do polo, pois diziam que não era um espaço legal, era perigoso. Mas temos que tirar essa imagem de lá, temos que fazer que aquele espaço seja habitado pelas famílias, por todo mundo".

Apesar dos pontos positivos, a rua continua sendo espaço de disputa, no sentido físico e simbólico. "As festas carnavalescas são espaços onde diferentes tradições, variados grupos sociais, múltiplas práticas culturais entram em contato nas ruas. Então, ao mesmo tempo em que é um espaço democrático, no sentido de comportar tantas práticas e sujeitos diferentes, o carnaval sempre será um espaço de conflito, de choque entre diferentes visões de sociedade e de mundo", afirma o pesquisador e professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Eric Brasil.

O historiador reforça que a ocupação das ruas, além de ser positiva para a população, é um direito. "Durante o carnaval, essa ocupação assume caráter e símbolos distintos das tradicionais formas de manifestação política, como passeatas, greves e piquetes. É uma forma diferente de exercer sua cidadania: direito de se mobilizar, desfilar pelas ruas, direito ao lazer e à diversão, direito de expressar suas ideias publicamente", explica.

Recursos

Entre a década de 1980 e o início dos anos 2000, a movimentação dos foliões alencarinos começava a ser pulverizada para destinos litorâneos, muitas vezes pela ausência de festejos de grandes proporções dentro da própria cidade. Entretanto, com a iniciativa do lançamento de editais por parte do Poder Público, em 2007, no intuito de incentivar os festejos, o município voltou a consolidar o ciclo carnavalesco no próprio calendário.

Neste ano, a Prefeitura de Fortaleza credenciou 56 projetos com o Edital de Apoio aos Blocos de Rua do Ciclo Carnavalesco 2018. No total, foram injetados R$ 550 mil para apoiar financeiramente grupos que realizam apresentações entre os dias 12 de janeiro e 13 de fevereiro. Atualmente, são destinados R$ 11 mil para cada um dos blocos veteranos, que devem produzir quatro desfiles ou apresentações dentro do Ciclo. Cada bloco estreante recebe um montante de R$ 2.750 para cumprir apresentação única.

No entanto, o recurso destinado para os blocos não garante por si só o bom andamento da comemoração. O promotor de eventos Wellington Barbosa, 59, organizador do bloco "Se tá dentro, deixa", comenta que foi necessário realizar as apresentações em dias sequenciais (entre os dias 1 e 4 de fevereiro) para arcar com os custos de transporte e fantasias. "Obrigatoriamente, tem que ser os quatro eventos. O recurso, hoje, só dá para dois. O resto nós temos que correr atrás com patrocinadores. Eu resolvi colocar os quatro dias juntos porque, por exemplo, se eu coloco um palco aqui, eu tenho que levar quando acabar o evento e trazer novamente, e isso aumenta o valor. Não queremos fazer por fazer, e sim para ficar legal", afirma.

Alternativas

"A roda de samba é uma oração. Eu digo que é impossível você ir para uma sem ficar arrepiado". É assim que a pedagoga Aline Barbosa, 40, define a manifestação cultural que exalta o principal ritmo dos blocos e cordões do carnaval. Enquanto desfrutava o último pré-carnaval do bloco Pirocaia, realizado no último dia 3 de fevereiro, no bairro Montese, a mulher fazia um paralelo entre a reunião em torno da musicalidade com a comemoração. "Uma roda de carnaval é do mesmo jeito, só tem paz, amor. O cultivo dessas festas nos bairros é muito importante para todo mundo", reforça.

O bloco em que Aline brincou é um exemplo de que a caravana pode seguir mesmo sem assistência financeira oficial. Criado neste ano, na Regional IV da cidade, o Pirocaia é uma iniciativa de quatro amigos, movidos pelo interesse de organizar uma festa mais cômoda para quem não queria se deslocar rumo aos polos culturais. "Se pararmos para pensar, os espaços são poucos e mal utilizados, e nós vimos que as pessoas tinham uma aceitação muito grande quando falamos para elas sobre a ideia de um carnaval local. É uma forma de congregar as pessoas que conhecemos", sentencia o administrador Luciano Vasconcelos, 40, um dos articuladores do bloco.

Expansão

Conforme o secretário da Cultura do Município, Evaldo Lima, existe preocupação por parte da prefeitura em fomentar as atividades em bairros periféricos nos próximos anos. "Na verdade, há uma preocupação permanente com a descentralização da cultura, para que a festa se estenda para diversas regiões. Essa política já existe nos blocos de rua, nos diferentes bairros, de forma espalhada pela cidade. Existem polos que são absolutamente tradicionais, dos quais não podemos abrir mão, como a Mocinha e a própria Praia de Iracema. Mas existe uma preocupação com os espaços mais afastados, pois no carnaval existe um valor que não podemos medir, que é a felicidade das pessoas que estão na rua", comenta o titular.

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