Reportagem Símbolo de luta

Praia do Batoque, Aquiraz: Oásis da dona Odete

00:00 · 30.09.2017 / atualizado às 13:24 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral / Fotos: Cid Barbosa e Helene Santos

O mar bate à sua porta, porém ela só o contempla. No casa onde mora, localizada na Praia do Batoque, em Aquiraz, Odete mostra algumas peças feitas com escamas de peixe que comprou, tamanha a sua admiração pelo mar. Porém, são nas águas dos rios e lagoas que ela se realiza como pescadora, uma profissional reconhecida oficialmente, tem a carteira, e é respeitada.

Odete aprendeu a pescar aos 8 anos, com a avó Maria Simplício, também conhecida como Maria 'Carapeba' (nome de peixe). Corajosa, gosta de enfrentar os desafios e comemora cada conquista. Quando ela puxa a rede e vem com peixes pequenos, devolve todos para a água. "Aprendi isso com minha avó. Precisamos respeitar o tempo de reprodução deles".

Durante o dia, Odete pesca com rede, caçoeira, samburá ou gererê. À noite, entretanto, gosta de pegar os peixes, como ela mesma diz: "na dormida", usando apenas facão e lampião para iluminar os passos nas águas. "Prefiro pescar mais à noite, pois não tem o sol e é mais silencioso".

Ao contrário da fama do pescador, conhecido por contar "histórias" nem sempre verídicas, Odete não é de muita conversa. Tem voz suave, semblante de calmaria e olhar sempre atento. Em compensação, o marido José Tarcísio Martins, que é agricultor, fala com entusiasmo sobre a trajetória da mulher. Relembra do tempo em que saíam a pé do Batoque para negociar os peixes frescos na feira de Cascavel, no município vizinho. Quando não vendiam, trocavam por outros alimentos.

Dividido entre a agricultura e a pesca, o casal da água e da terra construiu a sua história ao longo de 36 anos de convivência, na qual tiveram cinco filhos, dois homens e três mulheres. Todos aprenderam o ofício, mas pescam somente para o consumo. A filha Rafaela, 26 anos, entretanto, foi a única que herdou da mãe o gosto pela pesca e também a habilidade com as redes.

Na morada de Odete, opções para pescar não faltam. Basta andar uns 30 metros para chegar à lagoa. É ali, na porta de casa, praticamente, que ela costuma jogar a rede e esperar pelos peixes. Quando não se satisfaz na lagoa, segue para o rio num percurso médio de 1km a pé pela areia. Em compensação, lá a diversidade é maior. "Tem cará, traíra, muçum, pataca, sarapó, cascudo, camarão, siri", enumera as espécies.

A pescadora também ajuda o marido na plantação: cultivam batata, jerimum, feijão, milho, além de criação de animais para subsistência. Ele, por sua vez, acompanha a mulher nas pescarias. E assim, o casal vai fazendo jus ao paraíso onde mora, cercado por mar, lagoa, rio e roçado. O Batoque, segundo Odete, é a primeira Reserva Extrativista do Ceará, reconhecida oficialmente em 2003, após muita luta da comunidade. "Isso representa o nosso direito à moradia e o nosso compromisso de cuidar da terra", explica.

Maria Odete de Carvalho Martins, 53 anos, é símbolo da luta em prol dos pescadores e marisqueiras da sua região. Segundo ela, ainda existem muitas mulheres que vivem da pesca, porém não se identificam como tais. "Preferem dizer que são domésticas do que enfrentar o preconceito, como se isso fosse atividade só de homem", reforça.

Por ser engajada na luta dos pescadores de uma forma geral, durante muitos anos esteve à frente da Associação Comunitária dos Moradores do Batoque e da Associação de Pescadores e Marisqueiras da Reserva Batoque. Nessa última, continua fazendo parte do conselho.

Representando a sua comunidade, já viajou de Norte a Sul do Brasil. "Passei 15 dias no Amazonas e estive até em Pelotas, no Rio Grande do Sul", comenta. Na área da pesca artesanal, reconhece que as mulheres enfrentam, além do preconceito, problemas de saúde como câncer de pele, artrite e dores na coluna. Seu corpo mesmo já dá sinais de cansaço e de dor. Trata a osteoporose e a artrite, mas em nenhum momento cogita deixar a profissão. "Se eu parar, aí sim eu morro. Pescar é tudo na minha vida".

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