Reportagem

Pequi sem espinho é desenvolvido em Goiás

Bosque de Pequizeiros da Emater Goiás Foto: Nivaldo Ferr
14:57 · 27.03.2017 / atualizado às 16:09 · 28.03.2017

Pequi sem espinho é desenvolvido em Goiás

Textos: Germana Cabral e Cristina Pioner Fotos: Fernanda Siebra

Nem tudo são flores. Apesar dos benefícios que o pequi pode proporcionar à saúde e ao paladar, existe um inconveniente: os espinhos. Localizados entre a polpa e a amêndoa do fruto, eles podem ficar fixados na boca e na língua. A boa notícia é que em Goiás, um dos estados onde predomina a espécie do fruto Caryocar brasiliense, foi encontrado na natureza um tipo de pequi sem espinhos.

"A Emater está estudando os filhos desse pequizeiro, nos chamados estudos de progênese, e cruzando com outros tipos, a exemplo do pequi com polpa mais desenvolvida e de cor mais alaranjada. O objetivo é que o cruzamento possa gerar frutos mais polpudos e sem espinhos. No banco de germoplasma de Anápolis, já temos 600 filhos desse pequi", acrescenta Elainy Pereira, pesquisadora da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater).

Esses bancos de germoplasma são unidades conservadoras de material genético de uso imediato ou com potencial de uso futuro, onde não ocorre o descarte de acessos. A proposta da Emater é formar um banco de germoplasma em Anápolis com o objetivo de preservar material que futuramente poderá não existir mais na natureza, embora tão importante para a cultura goiana. As vantagens do pequi sem espinho é que ele pode ser utilizado mais facilmente na alimentação infantil, nos processos de industrialização e também para consumo de estrangeiros.

Diante da importância do pequi para a cultura regional, foi criada a Estação Experimental Nativas do Cerrado, instalada em Goiânia, a qual é responsável pelas pesquisas desenvolvidas na área. Nessa estação, a Emater e Embrapa implantaram uma coleção de pequizeiros com vistas à conservação da biodiversidade, domesticação e cultivo futuro dessa espécie.

Pequi da espécie Caryocar brasiliense
Pequi da espécie Caryocar brasiliense, nativo do Cerrado em Goiás FOTO: Nivaldo Ferr

A partir deste ano (2017), em conformidade com nova lei de acesso ao patrimônio genético nativo, em vigor desde novembro de 2015, as plantas são avaliadas com relação aos seguintes caracteres: desenvolvimento em diâmetro e altura do caule, diâmetro e arquitetura da planta, época de florescimento e maturação dos frutos, produção de frutos e de caroços, espessura e resistência da casca do fruto, espessura, textura/consistência, cor e sabor da polpa, resistência/tolerância a doenças, pragas e ventos etc., visando à seleção das plantas mais promissoras para cultivo futuro na região.

LEIA MAIS

.Pequi alimenta a alma do povo caririense

.Pequi sem espinho é desenvolvido em Goiás

.Projeto Pequi Vivo: Por um valor mais justo

.Pesquisas investem no potencial alimentício do pequi

.O florescer dos pequizeiros na Chapada do Araripe

.Ciência comprova benefícios do fruto

 

Em outra etapa do projeto, segundo Elainy Pereira, também poderão ser realizadas análises químicas e da qualidade da polpa, bem como a caracterização molecular e diversidade genética das plantas da coleção.

A pesquisadora lembra que, devido ao avanço da fronteira agrícola ocorrido nas últimas décadas, o Cerrado foi degradado em mais de 50% de sua área total. Nas áreas mais favoráveis à agropecuária, a devastação chegou a atingir 80% ou mais do território ocupado pelo bioma, causando a perda de materiais genéticos muito valiosos. "Alguns deles, inclusive, não tinham sido identificados, estudados e conservados para uso das gerações futuras", lamenta.

Além de estar incluído nesse grupo, o pequizeiro ainda apresenta elevado grau de dormência das sementes e baixa reprodução natural, o que faz com que o futuro das plantas remanescentes seja motivo de preocupação. Isso levou pesquisadores da Emater e da Embrapa a implantar uma coleção de pequizeiros com vistas à conservação da biodiversidade, domesticação e cultivo futuro dessa espécie ícone do povo goiano.

Extração do óleo da amêndoa do pequi é novo desafio

Embrapa Agroindústria Tropical - Fortaleza
Elisabeth Barros, da Embrapa Agroindústria Tropical-Fortaleza, pretende extrair o óleo da amêndoa do pequi por meio de prensagem Foto: FERNANDA SIEBRA

A tradição do pequi no Ceará é centralizada na Floresta Nacional do Araripe, região do Cariri, representando 10% da produção nacional. Embora seja um percentual pequeno em relação a outros estados, a exemplo de Goiás e o norte de Minas Gerais, é uma atividade muito representativa para as comunidades que vivem em torno do pequi.

Desde 2006, a Embrapa Agroindústria Tropical trabalha para melhorar o processamento do pequi, planta nativa da Chapada do Araripe: “Já produzimos a pasta e o óleo da polpa, mas ainda pretendemos extrair o óleo da amêndoa do pequi”, anuncia Marlos Bezerra, chefe-adjunto de Transferência e Tecnologia da empresa em Fortaleza.

Para alcançar o objetivo, ele destaca a importância da aproximação da Embrapa junto a essas comunidades, cuja prática continua sendo realizada de forma simples e rústica, muitas vezes comprometendo, por falta de conhecimento, a qualidade do produto e até mesmo a natureza. A proposta não é de impor mudanças na tradição existente, mas de aperfeiçoar o que já está sendo feito por meio de métodos capazes de ampliar o rendimento, a qualidade, o valor agregado, bem como preservar a natureza.

Com esse intuito, Elisabeth Barros, pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical-Fortaleza, desenvolveu um mapeamento de caracterização do pequi da Chapada do Araripe. O estudo, financiado pelo Banco do Nordeste, teve início em 2006 e resultou na sua tese de doutorado: “Características Físicas, Químicas e compostos Bioativos em Pequis nativos da Chapada do Araripe”.

Para o trabalho, avaliou 845 frutos por meio de 24 parâmetros, dentre eles físicos, químicos e sensoriais. “Constatamos que o pequi do Ceará, se comparado ao do cerrado, não possui tanto carotenoide. Mesmo assim, o nosso pequi preserva propriedades antioxidantes e os seus compostos fenólicos ficaram acima da média”, afirma.

Apesar da importância nutricional, funcional, industrial e agronômica do fruto, Elisabeth destaca o pouco conhecimento sobre a planta nativa, motivo pelo qual optou por pesquisá-la. Como resultado desse trabalho, já surgiram os primeiros “frutos”. Um deles é a pasta da polpa do pequi, que contém água, proteína e quantidade elevada de lipídios e de carotenoides.

A ideia dessa pasta, que pode ser conservada em temperatura ambiente por até seis meses, é para ser utilizada na culinária em geral, seja como patê em biscoitos, torradas, ou mesmo na produção de pães, massas, acrescida no baião, enfim, de acordo com o gosto e a criatividade de cada pessoa. Vale lembrar que a pasta é rica em lipídios e possui alto valor calórico, portanto, não dá para exagerar no consumo. Agora, resta produzir e comercializar a pasta, a exemplo do que ocorre em outros estados do cerrado brasileiro.

As descobertas sobre os benefícios do pequi foram mais além. Nesse estudo, Elisabeth observou que o óleo da sua amêndoa é ainda mais rico do que o extraído da polpa. “Ele possui cinco vezes mais proteína, fósforo, potássio e zinco”. Além disso, tem coloração bem clara, quase transparente, sendo mais indicado na indústria cosmética.

Apesar das vantagens do óleo da amêndoa do pequi, o mesmo ainda não está sendo processado devido a sua configuração orgânica: tem casca dura e é revestida por espinhos, dificultando assim a retirada da essência. O desejo da pesquisadora é extrair o óleo por meio de prensagem, a exemplo da prática aplicada ao azeite de oliva. Mas esse é outro desafio para ser superado nos próximos dois anos de pesquisa e atividade desenvolvidas na Floresta do Araripe.

Elisabeth Oliveira também publicou, em parceria com Nonete Guerra, Levi Barros e Ricardo Elesbão Alves, o documento “Aspectos agronômicos e de qualidade do pequi”, editado pela Embrapa Agroindustrial Tropical em 2008. No estudo, apresentam as diversas espécies do fruto, assim como sua importância sócioeconômica na Chapada do Araripe e circunvizinhanças, nos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí. Apontam, além de suas características botânicas, agronômicas e químicas, a relevância do pequizeiro em diferentes usos, a exemplo da polpa, do óleo, da madeira e da casca.

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.