Reportagem

Parte da história

00:00 · 03.06.2017 / atualizado às 01:21

Em anos em que o futebol passava longe de altas cifras, do estrelato e da fama mundial, jogadores queriam mesmo era brilhar nos campos de terra espalhados por Fortaleza. Atletas que despontaram nos antigos campos buscam na memória e detalham como era duro e cansativo a rotina de treinamentos e jogos em locais sem qualquer estrutura mas, também, lembram com saudade do tempo em que o futebol era praticado por amor aos clubes e pela vontade de aparecer no esporte mais popular do País.

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Quem ilustra bem esse momento é o ex-lateral-esquerdo do extinto Messejana Futebol Clube, Francisco de Assis, conhecido como Seu Dodô. No início da década de 50, quando começou a jogar pelo Messejana, um time que nunca deixou de ser amador, as condições dos jogadores em nada se parecem com o que assistimos hoje. Sua história dentro das quatro linhas foi vivida no antigo Campo da Messejana, fundado em 1938.

O campo foi mais um espaço criado para agregar os moradores do bairro. Como o acesso de Messejana ao Centro e aos bairros onde existiam campos era complicado, surgiu no fim da década de 30 a necessidade de se criar um espaço dentro do próprio bairro.

"Dia de domingo era a diversão de todos. Todo mundo ia bem-vestido e até de paletó para assistir aos jogos. Ir pro campo era a festa da época. Arrumávamos até namorada", conta seu Dodô, enquanto revira fotos da sua época de lateral-esquerdo do time do bairro.

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"Os campos não tinham a estrutura que se tem hoje. Eram feitos por terrenos abertos. Limpavam, tiravam os matos e deixavam abertos para se fazer os campos. Então, a cidade tinha campo em quase todos os bairros". 

Pedrinho Simões, ex-goleiro do Gentilândia e do Fortaleza

Sem nunca virar jogador profissional, seu Dodô lutou para manter viva a história do campo de Messejana, que hoje se tornou o Estádio Valter Lacerda, mais conhecido como 'Murilão'.

"O campo era separado por pedaços de madeira da torcida. Era uma outra realidade. Só fazíamos treinar e estudar. Na minha época os pais preferiam ver os filhos formados. Futebol era coisa pra malandro", destaca Seu Dodô.

Mesmo com o fim do time e a mudança da estrutura do campo, resta na memória e nos documentos guardados com tanto zelo pelos jogadores da época, a certeza de que valeu a pena cada dia dedicado ao futebol do bairro. O campo de Messejana exemplifica outros tantos campos antigos que hoje já não fazem mais parte do cenário dos bairros afastados do Centro.

Estrelato

Os antigos palcos de futebol da cidade também guardam histórias de quem conseguiu chegar ao auge da sua carreira. E essa trajetória de sucesso está bem guardada na memória do ex-goleiro Pedro Simões, conhecido como Pedrinho. Ídolo do time do Gentilândia e do Fortaleza Esporte Clube na década de 50, Pedrinho começou a chamar atenção dos boleiros quando defendia a meta do modesto time do Gentilândia, campeão cearense de 1956.

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"Dia de domingo era a diversão. Todo mundo ia bem-vestido e até de paletó para assistir aos jogos. Ir pro campo era a festa da época. Arrumávamos até namorada"

Seu Dodô, ex-lateral-esquerdo do Messejana Futebol Clube

Mas antes de chegar aos profissionais, Pedrinho, logo com 15 anos de idade e atuando no juvenil do Gentilândia, foi apontado como um dos goleiros mais promissores do futebol cearense. No campo que recebe o mesmo nome do bairro e do time, o goleiro lembra com saudade de como tudo começou, no campo do Gentilândia.

"O campo ficava na Rua Adolfo Herbster. Foi um espaço que marcou época porque o clube tinha várias categorias. Era a infantil, juvenil e profissional no início da década de 40. Em 1952 comecei a jogar pelo Gentilândia. Ele foi a base para eu conseguir ganhar todos os títulos que um atleta pode conquistar no futebol cearense", lembra Pedrinho.

"Os campos não tinham a estrutura que se tem hoje. Eram feitos por terrenos abertos. Limpavam, tiravam os matos e deixavam aberto para se fazer os campos. Então, a cidade tinha campo em quase todos os bairros. Porangabuçu, Alagadiço, Campo do Pio, Montese e Parangaba e Aldeota são alguns dos exemplos", relembra Pedrinho.

Nascido em 5 de abril de 1938, Pedrinho brilhou também no Fortaleza e conseguiu ser campeão cearense em 1960, além de campeão do Norte-Nordeste no mesmo ano e ainda ser vice-campeão nacional. O ex-atleta encerrou a carreira em maio de 1961.

De campo para estádio

Pedrinho faz parte de uma geração de atletas que pegou a transição do futebol praticado nos campos para os estádios.

Com o desenvolvimento do esporte, houve a necessidade de oferecer uma infraestrutura melhor para os jogadores e para os espectadores. Ter estádios nas cidades virou obrigação.

"Quando o Presidente Vargas foi inaugurado em 1941, ele não tinha o conforto e o trato que tem hoje mas já era uma evolução do que tínhamos antes, no campo do Prado. Durante minha carreira eu joguei em estádios de todas as capitais do Nordeste e os melhores campos foram no Ceará, no Estádio dos Aflitos, em Recife, e no Estádio da Fonte Nova, em Salvador", lembra o ex-jogador.

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