Reportagem A força da devoção

Palavras de fé

Alzira Nascimento tem trajetória marcada pela fé (Fotos: Fernanda Siebra)
00:00 · 18.08.2018 / atualizado às 15:06 · 19.08.2018 por Germana Cabral - Editora

— Aos 98 anos, Alzira Nascimento tem a história de vida marcada por benzer pessoas, cantar benditos e acolher devotos do Padre Cícero na Casa de Mãe Dodô, tradicional abrigo de romeiros em Juazeiro do Norte, no Sul do Ceará. Ao seu lado, Maria Isabel dos Santos, 61 anos, promete manter a tradição deste lar, cuja sala principal é repleta de imagens de santos.

As duas beatas comungam a fé no "Padim Ciço", acreditam na cura das pessoas por meio de orações, usam vestidos longos e de mangas compridas, e nunca casaram. Seguem o mesmo ritual da bênção, porém Maria Isabel aceita pedidos de preces por meio de redes sociais.

De gerações distintas, as duas rezadeiras protagonizam uma tradição incentivada pelo Padre Cícero e, sobretudo, são prova viva que a prática prossegue forte no Cariri. Essa é, portanto, a motivação maior desta primeira edição do DOC "A força da devoção", batizada "Palavras de fé".

Pesquisadora sobre o Padre Cícero e a religiosidade em Juazeiro do Norte há quatro décadas, irmã Annette Dumoulin confirma a importante presença dessas senhoras no Cariri: "Elas até hoje ainda são numerosas no Juazeiro inteiro e na zona rural".

Ao defini-las, a religiosa ressalta: "As rezadeiras-benzedeiras fazem parte da cultura popular e, geralmente, são pessoas muito piedosas, de fé e que fazem o bem sem cobrar nada pelas suas rezas sobre crianças e adultos para curar mau-olhado, peito aberto, dores nas cruzes, vento caído etc".

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Essas rezadeiras aprendem tais práticas terapêuticas por meio da tradição ancestral, transmitida familiarmente pelos mais idosos na vivência cotidiana, explica Francisco José da Silva, professor da Universidade Federal do Cariri (UFCA) e membro do Observatório Transdisciplinar de Religiões no Cariri.

Coragem

Foi o caso de Maria Helena da Silva, 57 anos, encorajada por dona Alzira e a prima Maria Isabel. "Ser rezadeira não é uma coisa inventada, você nasce com essa missão. Agora, você pôr sua mão e rezar numa pessoa, só reza se você tiver coragem de assumir, você tem de deixar todo tipo de vaidade. Você está se entregando à cruz, e a cruz é pesada. Para levar ela, tem de ter coragem, nós somos chamadas de tudo o que não presta. De macumbeira, de bruxa, de feiticeira, não sei nem o que é isso, nem quero saber, mas tudo isso a gente leva".

Aos que acreditam, no entanto, motivos não faltam para procurá-las. São doenças do corpo e do espírito, pedido de empregos ou solucionar conflitos familiares, dentre tantos outros.

O atendimento pode ser presencial ou por intermédio de terceiros. É importante, porém, enviar foto e saber onde a pessoa mora. Recebem pedidos por cartas, celular e até pelo WhatsApp, como revelou Maria Isabel: "é de Fortaleza, São Paulo, de muito lugar. Me mandam a mensagem pedindo e depois avisam que ficaram bons".

Sincretismo

Adotando ou não a tecnologia, "as rezadeiras continuam sendo um patrimônio dessa tradição que sincretiza elementos das culturas indígena, afro-brasileira e portuguesa", afirma Francisco José da Silva, professor do curso de Filosofia da UFCA. O pesquisador lembra que o Padre Cícero (1844-1934), em sua atuação como sacerdote em Juazeiro, embora vivendo numa época de forte tendência romanista de centralidade clerical, foi prudente e sensível aos sofrimentos das camadas mais populares.

Dessa forma, o fundador de Juazeiro teve capacidade de acolher a sincera piedade popular em sua simplicidade e ingenuidade e a orientou de forma a manter tanto o aspecto místico, evangelizador e missionário, quanto o terapêutico, no que diz respeito ao cuidado espiritual e corporal das pessoas.

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Maria Isabel dos Santos e Manoel Rezador são afamados rezadores residentes na Ladeira do Horto

Resultado desse doutrinamento, a fé nessas bênçãos é transmitida de geração em geração de famílias que legitimam a pessoa a confiar o restabelecimento de sua saúde à assistência de uma rezadeira, assim como a crença que determinadas doenças não são de diagnóstico fácil e evidente, mas ligadas a causas que em certos casos se supõem sobrenaturais.

Homens

Embora a prática seja mais comum entre mulheres, por isso mesmo até agora nos referimos apenas a "rezadeiras", há também representantes do sexo masculino. Na Ladeira do Horto, Manoel e Zuca são os mais afamados deles, adotando até "Rezador" como sobrenome.

Mulher ou homem, eles todos são unânimes em afirmar que apenas carregam a missão de intermear a cura. "Peço a Deus, mas não sou Deus. Eu faço um beneficiozinho para vocês se defenderem. Mas eu não sou Nosso Senhor, não. Nosso Senhor é que dá a bênção", avisa Manoel. Zuca é igualmente enfático: "eu não sei curar, eu sei rezar. Curar quem cura é Deus".

Por que procurar uma bênção?

As doenças não somente físicas mas psíquicas ou provocadas por influências negativas de alguma pessoa (sobretudo as invejosas); a reputação positiva da rezadeira e os bons resultados comprovados, a carência de condições financeiras para ser atendidas por médicos e a descrença nesse tipo de ajuda e, principalmente, a fé do povo que acredita nas orações da benzedeira, pois, sem a fé dos dois lados, não há cura possível.
 
Dessa forma, irmã Annette Dumoulin enumera os principais motivos que levam uma pessoa a procurar bênçãos. "Ainda tem muita gente que vai à rezadeira antes do médico. Aliás, a própria rezadeira convida o doente a procurar um médico quando ela entende que é preciso".
 
Segundo a pesquisadora, as rezadeiras aprendem orações ensinadas pelas mais antigas que percebem nelas as qualidades ou virtudes necessárias para exercer a missão. No ritual, costumam usar ramos de diferentes árvores, dependendo da doença.
 
"Na primeira sessão, elas fazem diversos gestos sobre a pessoa, rezando com esse ramo que, durante a oração, fica secando, provando, assim, que a doença em questão é vencida. Na segunda, o ramo seca menos e, na última, o ramo não seca mais", diz irmã Annette.

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