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Os sons de Fortaleza

A pesquisadora Thais Aragão: deixar e voltar a Fortaleza mudou sua percepção do entorno sonoro da cidade Foto: Kid Junior
00:00 · 15.07.2017 por Felipe Gurgel - Repórter

Perceber a cidade pelo som é um gesto raro, se o ritmo acelerado das idas e vindas da urbe mal permite que se enxergue a diversidade de estímulos visuais de seus espaços. A jornalista, produtora cultural e pesquisadora Thaís Aragão (39) atentou para a escuta do "entorno sonoro" de Fortaleza a partir das andanças dos vendedores de chegadinha - o doce artesanal vendido, normalmente, por homens que tocam um triângulo percussivo.

Hoje doutoranda em Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Thaís é mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para ela, não cabe advogar uma percepção da cidade a partir de um único sentido. O que há, em sua investigação, é uma "ênfase" no som. Dois anos depois de seu retorno a Fortaleza (durante 10 anos, morou em Porto Alegre), a jornalista conta o que chama sua atenção, hoje, em relação aos sons da Capital.

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Chegadinha Foto: Marília Camelo

Não há comparação entre o lugar que deixou, antes de ir para o Sul, e a cidade em que vive hoje. "Só percebi o entorno sonoro de Fortaleza, de forma consciente, depois que saí daqui. Essa mudança de lugar foi fundamental para retornar e ver que aqui tem coisas que não há em outros lugares", reflete.

Ela passou a perceber mais o conflito do trânsito fortalezense, pela escuta. Além das buzinas e do ruído característico da engrenagem dos veículos, Thaís observa como aumentaram o conflito, a intolerância de motoristas em relação ao som emitido por outros condutores no fluxo do transporte pelas ruas. Do lugar onde mora, na Aldeota, ela revela que o som das manifestações políticas (embora temporárias) lhe parece mais familiar, assim como o das festas próximas à Beira Mar. "Nas imediações do Palácio da Abolição (Meireles), escuto muita manifestação. É temporária, mas fica o rastro reverberante das pessoas se manifestando pelo microfone. E, de vez em quando, há as festas na praia. São muito heterogêneas e não dá nem para distinguir que música está tocando, mas chega (até os ouvidos), de alguma forma", conta a pesquisadora.

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O som das festas Foto: Reinaldo Jorge

Thaís chama atenção para o fato de o lugar dos sons de Fortaleza estar, também, em disputas discursivas. Desde que o poder público passou a regular a circulação dos ditos "paredões" (amplificadores de alta potência de volume, acoplados à carroceria de carros grandes), o debate público sobre o tema envolve, em um mesmo caldo, medições dos índices de poluição sonora e a (suposta falta de) qualidade dos gêneros musicais ecoados pelos equipamentos.

"Meu interesse pelo paredão de som, por exemplo, é diferente do gestor que aplica a lei. Pra mim, fico me perguntando, porque as pessoas gostam e outras desgostam, e o que produz esse conflito", explica a jornalista, distinguindo-se da orientação da legislação municipal e dos órgãos de apreensão.

Analogia

Entre Fortaleza e Porto Alegre, onde viveu uma década, Thaís Aragão destaca que a percepção do som muda também com o clima. Para a pesquisa do mestrado, ela gravava 10 minutos de som pelas ruas da capital cearense, por exemplo, captando ruídos de um determinado dia e horário.

Diferente da falta de variação das estações climáticas no eterno calor fortalezense, ela conta que o mesmo exercício, em Porto Alegre, soava de um jeito no verão e de outro no inverno.

"Em cidades onde neva (no Rio Grande do Sul), a neve cobre várias superfícies, e abafa os sons. E não é só porque os moradores não saem de casa. Você tem a cultura do lugar, a formação das pessoas, tudo isso vai interferir no som desses lugares", avalia.

Para a pesquisadora, o entorno sonoro das duas capitais traz praticamente a mesma intensidade do barulho emitido por alarmes de carros, toques de celulares, dentre outros sinais comuns à vida metropolitana no Brasil.

Ainda sobre a comparação, ela recorda que, logo que chegou à capital gaúcha, o ruído das discussões entre os gaúchos lhe assustava. "Presenciei dois desconhecidos 'brigarem' na rua. Os gaúchos se interpelam, quando alguém está errado (na convivência no espaço público). Mas eu, cearense, achava que aquilo ia terminar em agressão. São super-duros, mas ficam nisso (na discussão verbal). Aqui, acho que convivemos mais com a chance de o outro responder violentamente, se isso acontece", percebe.

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Música a tiracolo Foto: Cid Barbosa

Transporte público

O transporte público também revela a experiência sonora na cidade. Para Thaís, existe muita norma para o usuário dentro dos ônibus. Em Fortaleza, é comum encontrar aviso, no interior dos coletivos, sobre controle de volume emitido por equipamentos. Na outra direção, não há fiscalização do som que sai dos altos-falantes dos próprios veículos. "Em Porto Alegre, não tem rádio dentro do ônibus. Aqui, acho complicado um ônibus circular com o som ligado numa rádio religiosa, por exemplo", critica, citando o Estado laico.

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O trânsito intenso, traduzido, em parte, pelo som dos carros, é um dos aspectos mais fortes do cotidiano sonoro em Fortaleza, especialmente nos horários de pico. Aspecto tem impacto na paisagem e dinâmica da cidade Foto: JL Rosa

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