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Os cheiros que desenham a urbe

00:00 · 15.07.2017

Mapeadas pelo olfato, as rotas das cidades parecem seguir um trânsito inconcluso, em constante estado de transformação. Isso se percebe, por exemplo, a cada empreendimento gastronômico, cada intervenção da construção civil ou nas mudanças climáticas que alteram a dinâmica dos dias. Novos cheiros chegam e se confundem com o ambiente, revitalizando espaços já conhecidos. Asfalto, grama molhada, almoço feito na hora: no ato de sentir essas nuances no tecido frenético de Fortaleza, o ator, encenador, produtor e pesquisador em teatro, organização da cultura e direitos culturais, Gyl Giffony, evoca uma pertinente questão: "Acho que o cheiro da capital anuncia diretamente sua crueza. Os cheiros são o que são, dificilmente um perfume expele por completo o fedor. O cheiro diz que essa cidade precisa sentir de diversas formas e não só em vias de higienização".

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O ator, produtor e pesquisador em teatro Gyl Giffony, no terminal do Papicu Foto: Helene Santos

O artista enumera lugares por onde caminhou e caminha, vias que, além de geográficas, tornaram-se sentimentais. "Vou para o mar, para a maresia, para o cheiro de praia, da brisa, do sentir o camarão ao alho e óleo sendo frito. Ah, o cheiro da culinária, principalmente a de frutos do mar... O cheiro do mormaço quente, quente. Vou ao cheiro do vinho barato e da cachaça, da minha adolescência do Benfica ao Pagode da Mocinha. Das bancas de pastel e churrasquinho do Centro e da Pracinha da Gentilândia. Vou ao cheiro dos ônibus, suas paradas e os terminais do Siqueira, do Papicu e da Parangaba, que juntam tantas diferenças e instantes de pessoas dessa cidade". Especialmente sobre estes últimos lugares, Gyl explica que talvez eles sejam os que melhor traduzem a essência da metrópole. "Apesar da peleja pela falta de qualidade do serviço, há muitos atravessamentos de sentidos nos ônibus, mesmo que aparentemente as pessoas estejam isoladas; o cheiro perpassa isso. Cheiro é algo que une, para o bem e para o mal. Você acha cheiroso, eu acho fedorento, mas a gente sente. Nem sempre é a mesma coisa, mas nos afeta. Entretanto, tem sido cada dia mais difícil sentirmos algo junto. Talvez o cheiro seja um bom começo para retomar esse estar unido".

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A coreógrafa Sílvia Moura: cheiros da cidade para os palcos Foto: Luiz Alves

Pertencimento

Entrelaçando tais impressões com o ofício que executa, Giffony diz que elementos das artes cênicas curiosamente bebem da condição de sentir o cheiro das coisas e dos seres. "O olfato é um dos sentidos que chegam antes do toque. Ele não é só percebido, mas gera sentidos lógicos e efetiva presenças. Nesse processo, há elementos de dramaturgia, pois estabelecem nexos, instaurando ambientes e entendimentos", contextualiza.

Seguindo esse rastro de pertença através do cheiro, a artista visual Terezadequinta - do coletivo de arte urbana Acidum Project - igualmente rememora aspectos e causos de quando pequena, associando-os ao seu estado de vida atual.

"O cheiro que predominava na minha infância era o de castanha sendo queimada. Falavam-me que tinha uma fábrica no bairro do Antônio Bezerra, mas eu não sabia onde era. Na adolescência, soube que era a fábrica de castanha da Cione. Hoje, moro no bairro dos meus avós, da família do meu companheiro Robézio, e, incrivelmente, da varanda da nossa casa, todos os dias avisto a chaminé dia e noite queimando castanha", conta.

"Como artista e mulher crescida, gosto do cheiro do Mercado dos Peixes, do milho na calçada do Mercado São Sebastião, do Boleiro no Pirambu, do suco de cajá e do caju", explica, embora descobrir a capital, para ela, tenha sido um processo de compartilhamento de percepções entre a cidade e o município de Caucaia, onde residiu durante 25 anos.

Um dos pares de mãos que assinou o mural "Eva", na Avenida Domingos Olímpio - idealizado pelo Acidum - Tereza explica o impacto olfativo do trabalho. "Foram oito dias pintando com o trânsito frenético da avenida. Dava pra sentir o cheiro forte de gasolina, pneu e asfalto e, quando chegava a madrugada, o vento batia, fazendo a gente sentir até o aroma das flores do ipê amarelo no meio das duas pistas".

A atriz, bailarina e coreógrafa Sílvia Moura também destaca projetos nos quais as percepções olfativas de Fortaleza falaram mais alto para ela. "Trouxe o cheiro para o meu trabalho a partir do espetáculo 'De volta pra casa', queria que o público fosse envolvido por um cheiro que lembrasse casa de avô, infância, ervas", sublinha. "Na encenação, tinha ainda aroma de barro molhado, arruda e folhas de eucalipto".

Mas se Fortaleza tem uma fragrância, Sílvia acredita que ela vem do oceano. "Quando falo dessa cidade, o mar e seu cheiro dominam minha memória. A brisa, a maresia", elege. (Colaborou Diego Barbosa)

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Concreto e praia Fotos: José Leomar 

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