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Orquestra de barro: o som que vem da terra

00:00 · 03.03.2018

Do barro que a avó de Jonas faz a quartinha e a mãe de Edvando faz a panela, nasce também a harpa, a marimba, a guitarra, o violoncelo, o violino e uma série de tambores que compõem a orquestra formada por eles e outros jovens e crianças da comunidade de Moita Redonda.

O grupo Uirapuru - nome de um pássaro que todos param para ouvir - já tem quase dez anos de atuação sob a tutoria do músico Tércio Araripe, e, durante esse período, vem ajudando a ressignificar para as novas gerações a funcionalidade dessa matéria-prima.

É numa casinha de barro que todos os instrumentos da orquestra ficam guardados. Os integrantes manuseiam os objetos com a facilidade de quem tem uma relação ancestral com eles - afinal, a manipulação do barro era uma prática comum entre os índios, primeiros habitantes daquela região do município cearense de Cascavel.

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"A Moita Redonda respira barro. Essa coisa do barro nessa localidade é feita há muitas gerações. Quando a gente pergunta para as senhoras mais velhas com quem elas aprenderam, como isso começou, o que elas falam é que aprenderam com mãe, avó, bisavó, que já faziam isso. Muitas vezes, essas novas gerações já nascem dentro daquele ambiente, vendo aquilo. Mas às vezes só vê, não se envolve. Com nossa ação, teve envolvimento, olhar diferenciado, respeito e admiração", relata Tércio.

O músico chegou na região pelos idos de 2006. Vinha de Guaramiranga, onde também tinha passado uma temporada trabalhando com instrumentos de bambu. Na Moita Redonda, alugou uma casa para instalar um Ponto de Cultura envolvendo o trabalho com diferentes gerações em torno do barro.

Depois, comprou uma casa muito antiga, de 1928, na qual foi possível desenvolver nos anos seguintes a Orquestra de Barro (2009), o Mataquiri Museu (2015) - criado em homenagem à cultura do barro - e, mais recentemente, a Escola de Artes (2017).

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A orquestra

Desde o início do trabalho da orquestra, um dos focos principais de Tércio é tentar envolver as novas gerações no trabalho com essa matéria-prima, o que não é tão simples. "Hoje em dia, pouquíssimos jovens trabalham com o barro aqui, porque são diferentes das mães, avós, que não tinham outras oportunidades como eles têm", explica o músico.

Além disso, ele já não é tão valorizado como antes e há pouco retorno na venda, visto que outros materiais utilitários, como o alumínio, substituiram-no em diferentes peças de uso cotidiano.

Em 2009, cerca de 30 integrantes com idade a partir de 12 anos deram forma ao grupo Uirapuru. "De repente aquela panela, aquele pote que eles sempre viram, se transformaram numa outra coisa, em instrumentos! E esses meninos nunca tinham pego em nenhum instrumento. Os de barro foram os primeiros com o quais tiveram contato. Foi iniciação do zero", lembra Tércio.

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Com o auxílio do multi-instrumentista Luizinho Duarte, ele apresentou o universo da música aos garotos, que logo gravaram DVD e viajaram pelo Brasil demonstrando suas habilidades.

A percussão estava mais presente nessa fase inicial, mas depois a orquestra ganhou um ritmo mais melódico e cênico. O trabalho rendeu até mesmo um espetáculo teatral, com a colaboração de Jorge Santa Rosa.

De lá pra cá, uma questão específica vem incomodando Tércio. "O envolvimento deles na construção dos instrumentos não me satisfaz, ainda é muito pouco", desabafa.

"Mas com essa nova geração já tô tendo uma outra pegada. Antes eu tinha essa questão da faixa etária de 12 anos, indo mais embaixo eu tô chegando mais perto da raiz. Tô sentindo que essa turminha nova que a gente tá formando está tendo outro envolvimento", comemora.

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A Escola

Natyelly e Laila têm 10 anos e ambas chegaram em 2017 ao projeto, quando ele se consolidou como uma Escola de Artes. Apesar de não tocarem na Orquestra, elas cantam, fazem alguns trabalhos de artesanato com o barro e já participaram de algumas aulas de música. "Ano passado o Tércio foi de casa em casa convidar a gente. Aí eu vim e comecei as aulas de violão, porque eram de tarde. Pela manhã, era de flauta, mas eu tava na escola", conta Laila. Natyelly optou pelas aulas de violão pelo mesmo motivo.

As duas garotas auxiliam as avós com o trabalho do barro. "Eu ajudo minha avó desde os 7 anos. Faço panela, prato, copos. Mas venho pra cá toda tarde", afirma Laila. Já a colega sentiu-se estimulada a ajudar em casa somente no ano passado, em paralelo com o estudo que começou a desenvolver na Escola de Artes da Moita Redonda.

Quem dá aulas de música, além de Tércio, são jovens que cresceram com o projeto. É o caso de Eduardo Muniz da Silva, de 21 anos. "Quando cheguei aqui, há 9 anos, tocava só o bumbo. Mas, com o tempo, fui adquirindo outros instrumentos, pegando devagarzinho um pouquinho de tudo", lembra.

Ele é monitor da Orquestra e acompanha os mais novos dando aula de flauta. "Antes eu não fazia nada não, ficava só em casa e dia de sábado vinha pros ensaios da Orquestra. Era em casa todo dia, agora tem a escola aqui, venho a semana toda", comemora o jovem.

Eduardo já viajou para Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Recife, sempre representando a Moita Redonda por meio do som da Uirapuru. O reconhecimento que tem de fora e da própria comunidade guia suas escolhas futuras. "Daqui pra frente é isso que eu quero", projeta. E ele não é o único.

Até 2016, Tércio centrava as ações só na Moita Redonda, mas em 2017 conseguiu ampliar. "Com a parceria com a prefeitura daqui, a gente conseguiu transporte, conseguiu trazer alguns alunos lá de Cascavel para cá pro povoado", celebra. "Hoje temos uma média de 50 alunos na Escola de Artes. Lembrando que estamos numa comunidade de mil habitantes", ressalta o músico e idealizador do projeto.

A Escola de Artes, coordenada por Tércio e pela artista plástica Sabyne Cavalcanti, também responsável pelo Mataquiri Museu, dá conta ainda de aulas de teatro, circo, costura, uma série de linguagens artísticas trabalhadas com uma turminha de 5, 6, 10, 12 e 15 anos.

"A gente vem nesse primeiro ano com a Escola descobrindo a se conduzir. É uma experiência nova e tem uma série de coisas que a gente tá aos poucos descobrindo como fazer", finaliza o coordenador, confiante no que os espera no futuro.

Livro

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As fotos das quatro mestras retratadas ao lado foram retiradas do livro-reportagem "Mãos que fazem História" (Editora Verdes Mares, 2012), das jornalistas Cristina Pioner e Germana Cabral. O material procura abordar a vida e obra de mulheres artesãs do Ceará e contempla oito capítulos divididos por tipologias - Barro, Rendas, Linhas, Fibras, Tecidos, Miscelânea, Indígena e Redes. Esse trabalho é fruto de uma série de reportagens publicada pelo Diário do Nordeste no período de março a junho de 2010. As autoras, ora acompanhadas pela repórter fotográfica Patrícia Araújo, ora por Marília Camelo, percorreram 11 mil quilômetros, estiveram em 71 cidades e entrevistaram 243 artesãs. Desse universo, 150 histórias ilustram o livro.

Mais informações: 

A Escola de Artes de Moita Redonda recebe agendamento para visitas. Contato: (85) 3458.1140

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