Reportagem Abandono

Órfãos estão desamparados, sozinhos, sem chances

00:00 · 28.04.2018

Pedaços arrancados, vidas mutiladas, pais amputados de crianças incapazes de entender o que buscam sozinhas nas ruas. Levando fisgadas das perdas, dependendo de caridades e convivendo com a saudade de vidas encerradas sob a justificativa da "guerra do tráfico", buscam um jeito de sobreviver. Como explicar a uma criança que além de seu pai, outras cinco mil pessoas foram vítimas de execuções, somente no ano passado, no Ceará? Não há o que dizer. Não há nada que conforte a saudade de uma vida que poderia ter sido.

Espalhados em esquinas, magrelos e com olhos de fome, os órfãos deixados pela guerra travada entre as facções em Fortaleza, sofrem sem assistência, sem tutores, sem que ninguém tenha pensado neles. Não sabem se vão comer hoje, se estarão vivos amanhã. Não sabem a quem recorrer. Sozinhos, de semáforo em semáforo na cidade que lhes tirou todas as oportunidades.

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O menino descalço, na porta de uma lanchonete de uma rede de fast food, instalada na Avenida Santos Dumont, é impedido de entrar pela segurança privada, mesmo havendo garantia que sua comida seria paga. Ouvindo o argumento que "se deixar entrar, depois volta para pedir e incomodar os clientes", aos 11 anos ele já sabe que não o querem, parece bicho, não pode chegar perto demais, não faz parte dos escolhidos.

Depois de alguma insistência, entra. Come um sanduíche com apenas algumas dentadas apressadas. Depois, revela: "Tia, o que eu mais queria era ir em um dentista, porque quase não consigo dormir com dor de dente. Quando chego no posto sozinho, a mulher manda eu ir embora e chamar minha mãe. A outra coisa que eu mais queria era uma chinela, porque descalço eu não consigo ficar o tempo todo que o sinal está verde, e peço em menos carros. O asfalto é muito quente".

Um dentista e uma chinela são os maiores desejos do menino que, sequer, tem registro. Oficialmente, não existe. Nunca foi à escola, morou em diversos bairros. Depois que o pai foi morto, em junho de 2017, passou a viver com o irmão de 16 anos. A mãe precisou ser internada, após seguidas crises de abstinência. "A mãe parecia uma doida. O pai trazia pedra pra ela. Depois que ele morreu, não tinha mais. Ela batia na gente. Um dia chegou um homem da igreja e levou ela para o hospital. Não sei onde ela tá".

A menina, que pela quantidade de dedos que mostra diz ter sete anos, pede dinheiro em frente a um restaurante, na Aldeota. Existe, mas é invisível. Tem registro, vai à escola, quer ser médica, mora em uma comunidade no bairro em que é pedinte, vive com uma tia e sabe que a mãe está presa. Porém, sua mão estendida não é nada em meio aos perfumes refinados e os sapatos brilhantes notados sempre que alguém passa por ela. Muitos nem olham para aquela pequena pessoa que repete como máquina: "Ei, me dá um real".

"Eu tava vindo da escola quando vi o pai caído e bem muito sangue. Fui a primeira lá de casa que vi e corri pra avisar aos outros. Isso já faz tempo, eu ainda era pequena. Depois, os 'polícia' levaram a mãe e eu vim morar com a tia. Tenho dois irmãos, um mora com a vó e o outro a tia disse que tá no crime. Venho pra cá todo dia pedir, mas trago os cadernos. Daqui uns anos vou ser doutora. Você vai ver!". Sim, se depender de preces será sim. Sentada no chão, com dificuldades para levantar, uma idosa diz de mãos postas, olhando para prédios luxuosos: "Se Deus quiser, minha filha, vai ser doutora e vai morar em um prédio desses".

Ventre Livre

Em 28 de setembro de 1871, foi determinado pela 'Lei do Ventre Livre' que toda criança filha de escrava, nascida a partir daquela data, seria livre. Passados 147 anos, mudadas as escravidões, algumas crianças já vêm ao mundo predestinadas a serem acorrentadas à sina dos próprios pais. Presas às circunstâncias. Presas.

Grávida de sete meses, uma mulher de 23 anos segura outra criança de dois anos pelo braço, em uma das esquinas mais movimentadas da área considerada nobre de Fortaleza. "Mataram meu marido. Tentei tirar o menino. Abortar, sabe? Mas não deu certo. Agora fico me sentindo culpada, porque o médico disse que ele vai nascer com paralisia. Não sei o que vou fazer da vida. Que futuro posso dar a esses meninos?", afirmou entre lágrimas, enquanto recebia moedas da janela entreaberta de um carro, em que o motorista baixou o vidro somente o suficiente para passar a mão.

Igualmente sem saída está a mulher de 26 anos, recém-chegada à casa de um familiar, no bairro Quintino Cunha. Com três filhos de oito, cinco e três anos, fugiu da comunidade onde morava, depois que o companheiro foi assassinado. "Mandaram eu sair da casa. Saí com a roupa do corpo e algumas coisas das crianças. O cara que me expulsou entregou a arma ao meu filho de cinco anos e mandou atirar. O coitado nem podia com o revólver, e ainda teve que ouvir que não atirava porque era um frouxo igual ao pai. Só sabe o que é o sofrimento de correr com medo da morte e da fome quem passa".

Sem querer muita conversa, aos 13 anos, o menino aborda os carros e os pedestres, na Avenida Padre Antônio Tomas. O pai foi morto e ele se mudou com a mãe para a casa da avó. A vida fez dele adulto, mudou seus sonhos e desfez vontades. "Não sei o que vou fazer quando crescer. Não sei nem se vou tá vivo daqui um ano. Estudar? Como é que estuda, tia? Meu pai era GDE e minha vó mora numa quebrada que é CV. Posso nem pensar em ir para onde eu morava, que os caras me queimam. Vocês não entendem nada da vida da gente". Objetivo, como os dias têm lhe ensinado a ser, finaliza: "E aí, tia? Vai dar o dinheiro ou não? Se não for me libera que vou pedir a outra pessoa".

Na porta de uma agência bancária, uma idosa sentada no chão com uma criança no colo e dando instruções a um menino de oito anos, se desdobra para colocar comida na mesa para os cinco netos que moram com ela. "Os três primeiros que chegaram foram os da minha filha. Ela era envolvida e mataram, porque tava devendo. Depois, mataram meu filho. Trouxe os filhos deles pra ficar comigo. Passei a vida lavando e passando roupa para os outros, quando pensei que ia ter sossego, aparecem cinco crianças para eu cuidar. Só tenho medo é de morrer e deixar eles por aí".

O menino consola a avó. Diz que ela não vai morrer, porque ela é forte e grande. Revezando com o primo os horários de pedir dinheiro na rua e ir à escola, não reclama. "Quando eu morava com a mãe tinha comida todo dia e eu não saía pra pedir, mas ela batia muito. Às vezes ainda tava doendo e ela já batia de novo. Com a vó só come se pedir, mas ela é boa".

A avó confirma: "Não tem outro jeito. Não tenho de onde tirar dinheiro para comprar comida para esse tanto de gente". Ela, que já abriu mão dos remédios que não são doados nos postos de saúde, afirma querer para os netos um destino diferente dos filhos. "Nunca pensei que minha vida fosse acabar assim. Pelejei tanto e quando penso no que tô vivendo, me vejo como no começo: sem nada, com um monte de menino e sem ter o que fazer para melhorar a situação".

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