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O tempo nas (des)conexões da Internet

00:00 · 12.08.2017 / atualizado às 08:42 por Textos: Lêda Gonçalves / Fotos: Nah Jereissati e Reinaldo Jorge

Como o dependente de Internet vivencia o tempo à medida em que está ou não conectado? Reflexões acerca desta questão estão na dissertação "(Des)Conectados: o tempo vivido na dependência de Internet", apresentada em junho deste ano pelo jornalista e mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor), Raone Saraiva.

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O objetivo do trabalho foi compreender a experiência temporal de alguém que utiliza a Internet intensamente, identificando modos de dependência e possíveis patologias associadas ao uso excessivo da ferramenta tecnológica. Orientado pela professora doutora Virgínia Moreira, o trabalho traz como fio condutor o pensamento ambíguo do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty.

De acordo com Raone Saraiva, com base nas ideias do filósofo, foi possível olhar para a dependência de Internet como um fenômeno ligado a mudanças culturais e às relações estabelecidas entre homem e mundo na sociedade contemporânea.

"Vemos com facilidade, nos mais variados espaços físicos de convívio social, pessoas com os olhos e os dedos grudados em seus smartphones. A sensação é que, mesmo em reuniões familiares, de trabalho ou lazer, estamos valorizando mais o ambiente online e não atribuímos a mesma importância às relações face a face. Há, inclusive, uma demanda social muito grande para que estejamos 24 horas conectados, respondendo e enviando mensagens pelo celular", frisa.

Em relação à temporalidade, conceito central da dissertação, Raone discute o conceito de tempo vivido, que não pode ser compreendido no sentido cronológico, com base nas horas, minutos e segundos do relógio, mas de acordo com as experiências subjetivas de cada um.

O tempo sempre foi uma dimensão fundamental das experiências humanas, defende o autor, e sugere que, na dependência em Internet, o sujeito experimenta um tempo predominantemente subjetivo. E vivencia, sobretudo, o tempo cronológico quando não está conectado.

Considerando o estudo de caso que realizou com um jovem que buscou ajuda psicológica porque teve as vidas escolar, familiar e afetiva prejudicadas devido aos jogos online, Saraiva destaca que os dependentes têm uma forma comum de vivenciar o tempo quando estão ou não conectados à rede. Por outro lado, reforça que, apesar das semelhanças, essa experiência sempre será particular para cada sujeito que sofre com o problema.

Vida na Internet

"O Pedro (nome fictício) me disse que a vida dele só acontecia e tinha sentido na Internet, quando estava jogando. Nesses momentos, o tempo nem existia para ele, se perdia. Quando estava conectado, ele também se desconectava das experiências fora do ambiente online", declara.

O autor ainda aponta que a quantidade de horas gastas à frente do computador não justificam necessariamente o uso patológico de Internet, pois precisamos da rede para realizar diferentes tipos de atividades hoje em dia. Entretanto, ressalta, a dependência está ligada ao fato de o sujeito sofrer por causa dos prejuízos acarretados pela utilização da ferramenta.

"No caso do Pedro, ele trancou a faculdade várias vezes, além de perder a vontade de sair de casa com amigos e ter a relação com os pais desgastada. Ficava triste e sofria com isso. Queria se livrar dos jogos online, mas não conseguia", acrescenta.

De acordo com Raone Saraiva, o tema requer mais atenção da academia, principalmente no Brasil, onde o número de pesquisas ainda é pequeno se comparado ao de outros países.

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