Reportagem Feira de Iguatu

"Ó o feijão novo, o preço caiu"

Caldo de cana feito na hora,artigos em couro, galinha caipira e temperos estão entre os produtos ofertados na tradicional feira de Iguatu, realizada todos os sábados. Foto: Honório Barbosa
00:00 · 27.05.2017 por Honório Barbosa

Confecções, cereais, grãos, frutas, verduras, artigos de couro, calçados, doces, galinha caipira, chapéus, cordas, ferragens, cadeiras de couro, rapadura, farinha, condimentos, folhas e raízes para remédios caseiros. Tem para todos os gostos e bolsos. Assim é a feira de Iguatu, polo econômico da região Centro-Sul do Ceará, realizada sempre aos sábados pela manhã.

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Segue uma tradição que remonta à Idade Média e está associada à formação dos antigos burgos, cidades, na Europa, na troca de produtos, compra e venda de mercadorias. O Brasil manteve o modelo, vindo pelo colonizador.

Mas a feira de Iguatu se modernizou. Nela, o vaivém é intenso. Cerca de 80 barracas, no entorno do mercado público, atraem milhares de consumidores, vindos de vários bairros e da área rural.

A feira livre existe aos sábados desde a década de 1950: "Já foi bem mais movimentada porque naquele tempo as pessoas que moravam no campo só vinham um dia por semana, aos sábados, para a cidade", diz um dos feirantes mais antigos, Aldivan Dias.

"Não havia transporte todos os dias como agora". Outro fator que contribui para a diminuição da quantidade de compradores é a abertura de lojas nos bairros e nos distritos. "Cada lugar tem vida própria comercial", observa o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Iguatu, José Mota Luciano.

Agricultura familiar

Na feira livre de Iguatu predomina a venda de frutas, verduras, cereais e grãos oriundos da agricultura familiar. Há uma divisão. De um lado, ficam os feijoeiros. Do outro, aqueles que vendem farinha e mais à frente, as bancas repletas de frutas da época, verdura, feijão verde, jerimum, ovo e galinha caipira. Há barracas com confecção, outras com ferragens e artigos de couro. "É um misto de oferta de produtos", observa Barreto.

Na traseira de uma antiga rural, mantém-se a tradição de se fazer pastéis. Há carrinhos com moenda para extrair o caldo da cana-de-açúcar. Outros trazem produtos de artesanato em tecido e há até um brechó.

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A dona de casa Antonia Alves costuma fazer compra na feira local. "A gente encontra amigas, tem produtos fresquinhos e preço bom", disse. A atriz amadora Claudinha Galeno é frequentadora assídua: "Procuro novidades, há muitas possibilidades de comprar bons produtos com um preço melhor do que nas lojas", justifica. "O que eu lamento é a desorganização das barracas e a falta de padronização".

A banca de dona Gorete Melo, 61 anos, é repleta de condimentos, raízes e folhas para preparar remédios caseiros e temperos. São 30 anos de feira livre. "É uma vida", afirma em meio ao leve sorriso. "Quero ficar aqui até o dia que puder vir trabalhar". Com cuidado, arruma os produtos e espera a chegada de clientes. "Tanto faz vender ou não, eu estou aqui todos os dias, graças a Deus".

Margarida Duarte, 61 anos, começou a trabalhar na feira aos 19 anos. "Isso aqui é meu divertimento", disse. "Vim da roça com meu pai e mãe e começamos a vender na feira e fomos ficando". A professora de Biologia, Bruna Mikaela dos Santos, diz que gosta da feira. "Acho bom esse espaço de convivência e encontro produtos com qualidade e preço satisfatório", explicou. "Gosto de comprar produtos naturais para fazer remédios caseiros".

Ao som do baião

No passado recente, a feira apresentava atrações de sanfoneiros, violeiros e outros cantadores no projeto 'Baião na Feira', realizado pela Secretaria de Cultura do município. Em frente ao mercado, artistas ocupavam um palco e movimentava o espaço. O tom era a música regional, o forró, pé de serra, as composições de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, cearense de Iguatu.

No momento não há projeto para a atividade cultural e artística retornar. Nas últimas semanas, o espaço da feira livre foi reduzido mediante obras de pavimentação próximo ao mercado e por causa da construção de um novo centro dos feirantes. O prefeito Ednaldo Lavor disse que pretende requalificar e organizar o espaço, mas a feira livre aos sábados será mantida por tradição e necessidade dos feirantes e consumidores.

Polo econômico da região Centro-Sul do Ceará, Iguatu fica a 380 km de Fortaleza e possui 102 mil habitantes
 
Cerca de 80 barracas são instaladas no entorno do mercado público para comercialização de produtos diversos
 
A Feira Livre, em Iguatu, existe aos sábados desde a década de 1950, mas no passado funcionava em outra rua paralela. A partir da construção do Centro de Abastecimento em fins da década de 1960, acompanhou a mudança de endereço, onde permanece nos dias atuais

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