Reportagem Jovem desejo e luta

O mar como referência

00:00 · 01.07.2017

As ondas quebrando na areia estão entre os primeiros sons no despertar. O infinito azul, o verde mar e os imponentes cataventos à Oeste estão ali, brilhando os olhos de quem vê. O estonteante pôr do sol fecha com maestria o dia. É nesse retrato de belezas naturais que vivem os mais de 22 mil habitantes do bairro Serviluz, entre eles, muitos jovens.

Na contramão dos encantos, o bairro carece. Embora envolto em áreas ricas e desenvolvidas da cidade, como a Avenida Beira Mar e a Praia do Futuro, o Serviluz padece de serviços, infraestrutura e poder aquisitivo. O esgotamento sanitário não chega à metade dos domicílios, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010. Seus jovens ainda sofrem com baixa escolaridade e estão sujeitos a problemas de drogadição no ambiente familiar. Fatores que somados resultam num dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), de 0,223, entre os bairros da Capital.

Aproveitando o rico potencial natural da região, é nas ondas do mar onde muitos buscam caminhos de possibilidade através do esporte. É nessa perspectiva que a Associação Boca do Golfinho, fundada há sete anos, atua na comunidade tendo a Praia do Titanzinho como seu grande trunfo. O surfe é a atividade principal, desejo imediato de todo o jovem que chega à instituição, mas durante sua trajetória, a Associação passou a oferecer, também, capoeira, reforço escolar, aulas de inglês, informática, música e de educação ambiental. As atividades são direcionadas para crianças e adolescentes entre cinco e dezessete anos de idade, moradoras do bairro e que estejam regularmente matriculadas na rede pública de ensino.

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O objetivo maior é expandir, por meio de um espaço esportivo-educacional, as possibilidades de aprendizado visando a construção da cidadania. Entre as diretrizes pedagógicas, está o estímulo ao respeito mútuo e ao espírito de equipe; o incentivo à autonomia, a cooperação e a corresponsabilidade; assim como a promoção do desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social dos jovens atendidos.

Transformação

"A Associação tem um papel muito importante no Serviluz pelo fato de a comunidade ser esquecida pelo setor público e privado. Diversas empresas estão no bairro, mas elas não têm interesse em promover área de lazer para uma melhor qualidade de vida de jovens e crianças. Utilizamos a praia como o nosso maior lazer, através do esporte, que é uma ferramenta absurda para transformação social", ressalta o presidente da Associação Boca do Golfinho, Carlos Alexandre Teixeira.

Na perspectiva de que nem todos têm o talento para o surfe, a capoeira ou a música, a Instituição busca, ainda, segundo destaca Alexandre, a inclusão no mercado de trabalho para os adolescentes entre 15 e 17 anos como jovem aprendiz. "O maior impacto que causamos hoje na comunidade é a luta contra a vulnerabilidade familiar, já que temos que trabalhado com filhos de pessoas envolvidas no tráfico. Por isso precisamos muito de psicólogos, assistentes sociais e estamos buscando fora do bairro um setor que pudesse atender a gente nesse momento", diz.

Contribuição

Entidade sem fins lucrativos, a Associação Boca do Golfinho se mantém unicamente por meio de doações. Suas atividades dependem, em sua maioria, do trabalho voluntário realizado pelos membros ou parceiros da instituição.

Acreditando na importância da troca de experiências no contato com a comunidade, conhecendo, assim, a realidade de suas crianças e adolescentes, a Associação aponta diversas formas de contribuição, seja por dedicação de tempo em alguma atividade, por compartilhamento de seus conhecimentos e habilidades, ou ainda por doação de materiais esportivos e educacionais, além da contribuição em dinheiro.

Futuro traçado 

Acordar logo ao raiar do sol para realizar a atividade que pode ser o grande diferencial na sua trajetória de vida. Assim, Yuri de Oliveira Sousa, 12, um dos atuais 138 inscritos na Associação Boca do Golfinho, levanta para o treino de surfe, que acontece em todos os dias da semana. A rotina começa às 7h e após o café da manhã até por volta das 11h o mar vira sua morada. No período da tarde, a prancha é guardada e os livros escolares entram em cena, ciente da importância de manter os estudos em dia.

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Yuri é um dos meninos atendidos pela Associação Boca do Golfinho, tendo como grande sonho participar de campeonatos mundiais Fotos: Natinho Rodrigues

É nas ondas do "Titan", no entanto, aonde o jovem projeta seu objetivo de vida. Com um otimismo inerente à idade, o menino tem como meta no esporte a participação em importantes campeonatos mundiais, como o WCT (World Championship Tour). "Acho que estou indo bem. Quero crescer, conhecer lugares, participar do WCT e ajudar a minha família, esse é o meu sonho", relata o menino, sem desmanchar o largo sorriso e o brilho no olhar.

Conquistas

Com objetivo similar, seu irmão, Iago de Oliveira, 16, envolto com a Associação desde a sua fundação, já começa a traçar as primeiras conquistas, tendo chegado como finalista em dois dos três campeonatos locais que participou.

Com o Titanzinho ao alcance de uma mão, o adolescente se diz privilegiado por treinar, como afirma, nas melhores ondas da cidade. "Meu sonho é ser um surfista profissional, ir para o Havaí e conhecer vários picos, levando o nome do projeto Boca do Golfinho e do Serviluz inteiro", conta Iago. E assim, na certeza do que os motiva para viver, que a história dos irmãos e de tantas outras crianças e adolescentes na comunidade do Serviluz vai se desenhando, com o amanhã projetado.

Segregação deve ser combatida 

Comunidades aonde os investimentos não chegam, como dito pelo presidente da Associação Boca do Golfinho, não é exclusividade de Fortaleza. Macro, o problema chega ao País como um todo, fruto de uma crise generalizada nas políticas públicas, na avaliação do sociólogo e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Leonardo Sá.
 
"As políticas públicas estão sofrendo com o que a gente chama de a crise do modelo republicano do serviço público, da crise do financiamento do Estado. São muito localizadas, não conseguem mais transformar a realidade como um todo. É como se tivessem virado uma política compensatória, em lugares específicos para diminuir a exclusão, mas isso é tão pontual que outras dimensões como o acesso à educação, ao trabalho, à saúde, à moradia de qualidade, fica um pouco de fora".
 
O resultado, diz, são iniciativas fragilizadas e sem continuidade, que mudam de governo para governo, sem a concretização de uma política de Estado. Nesse cenário, o jovem é um dos principais prejudicados. Para o especialista, envolver a discussão sobre a segregação socioespacial é uma das estratégias a ser trabalhadas, evitando a exclusão e a desigualdade. "Os jovens de periferia precisam circular. Se barrar eles se sentem enclausurados naquele lugar. Isso é péssimo, gera um sentimento de falta de incentivo, de aprisionamento, que pode levar a coisas negativas".
 
A circulação ampla na cidade, contudo, envolve políticas de mobilidade urbana e disposição de equipamentos culturais em lugares diversos, segundo Leonardo Sá. Mas apesar de não eliminar o problema, acrescenta, constrói um sentimento positivo, trazendo uma melhor relação com a cidade. "Acabam gerando uma nova dinâmica e os jovens em um contexto de vulnerabilidade social, econômica e de exclusão de direitos acabam se sentindo mais pertencentes".
 
Investir numa política de valorização aos educadores sociais é, segundo o sociólogo, essencial para a redução da exclusão e da vulnerabilidade a que os jovens acabam expostos, uma vez que estes profissionais se tornam multiplicadores, influenciando-os de maneira positiva.
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