Reportagem

O florescer dos pequizeiros na Chapada do Araripe

Após três anos, mudas de pequi em viveiro da Flona começam a nascer. Agora, serão trocadas por caroços de pequis trazidos por catadores
18:47 · 24.03.2017 / atualizado às 16:11 · 28.03.2017

O florescer dos pequizeiros na Chapada do Araripe

Textos: Germana Cabral e Cristina Pioner Fotos: Fernanda Siebra

O pequi leva até três dias para amadurecer depois de cair; não pode tirar o fruto do pé, pois não amadurece, só pode pegar caído no chão. Essas afirmações são frequentes nas narrativas dos catadores do fruto no Cariri. Segundo Flávia Domingos, analista ambiental da Apa Chapada do Araripe, estudos apontam mais ou menos para isso, embora não confirmem as tendências: “Mas o pessoal, na sabedoria popular, diz que se a árvore for ofendida, a próxima safra será prejudicada”.

Uma opinião, contudo, é unânime entre o conhecimento empírico e o acadêmico: é importante identificar e colocar em prática ações que melhorem o uso sustentável do pequi, tanto pela importância social e econômica para as populações extrativistas quanto pelas desconfianças de que o atual manejo possa estar afetando a população de pequizeiros na Chapada.

LEIA MAIS

.Pequi alimenta a alma do povo caririense 

.Pequi sem espinho é desenvolvido em Goiás

.Projeto Pequi Vivo: Por um valor mais justo

.Ciência comprova benefícios do fruto

.Pesquisas investem no potencial alimentício do pequi

De um grupo de trabalho institucional, surgiu a cartilha de boas práticas para o manejo do pequi na região. Ainda não publicada, ela é resultado de encontros realizados em 2015 com representantes de comunidades de catadores, do ICMBio, do Ibama, da Associação Cristã de Base (ACB), do IBGE e da Fundação Araripe.

Catadores

Na proposta, estão recomendadas, por exemplo, coletar frutos no chão; não quebrar galhos, plantar pequizeiros, não cortar pequizeiros (a planta é protegida por lei), evitar desmatar e queimar; fazer pequeno viveiro de mudas com sementes colhidas de plantas selecionadas.

A maioria das sugestões da Apa Chapada do Araripe foi aceita, mas a questão de os catadores deixarem uma porcentagem de frutos no chão gerou impasse. Seria para alimentar os animais e servirem para formação de novos pequizeiros “Por isso, esse item não consta na cartilha, pois tem de haver consenso. Na verdade, a cartilha é não é lei, é um acordo de gestão feito entre os extrativistas e nós”, explica Flávia Domingos

A analista ambiental ressalta que deixar frutos no chão é fundamental para garantir a preservação da espécie. Tem bicho, a exemplo da cotia e do besouro rola-bosta, que se alimenta do pequi, carrega e planta a semente em outro lugar, e não só debaixo da planta-mãe: “Foi muito difícil essa questão. Um ponto muito debatido porque o pequi aqui tem muito valor. Uns diziam: a gente até topa deixar, mas os outros? Aqui não tem área de coleta estabelecida, um coletor em cada lugar. Quem chegar primeiro, pega”.

Outra ideia em discussão é estabelecer um período de defeso do pequi, no qual ninguém coletaria o fruto. Assim, ele serviria para alimentar animais e reproduzir. Segundo Flávia, era mais simples de nós controlarmos isso, poderia ser no meio da safra, quando o fruto está custando menos”.

Enquanto essas propostas não se concretizam, uma das soluções é o plantio por mãos humanas. Há um projeto na Floresta Nacional do Araripe (Flona) no qual catadores trocam caroços por mudas de plantas cultivadas no viveiro da Flona. Assim, consegue-se promover a reprodução da espécie, já que o ciclo natural está sendo interrompido pela coleta do fruto. É uma compensação. “Os catadores assumem o compromisso de devolver para a floresta parte deste pequi que retiram a cada safra. Nós fazemos as mudas e, após estarem prontas para serem plantadas no campo, a gente dá para os catadores. Outra parte é destinada às áreas degradadas”, afirma Verônica Figueiredo Lima, chefe da Flona.

Ao comentar essa preocupação em torno da sustentabilidade do fruto, Verônica justifica: “O pequi serve de alimento para toda a população no entorno da floresta e também a fauna. Há um elo nessa cadeia que não pode ser quebrado, não só pra alimentar as pessoas, mas devolver à biodiversidade aquilo que foi tirado. Esse é nosso trabalho: a coleta e replantio dele na área da floresta”.

Boas práticas para o extrativismo sustentável

A Embrapa Cernagen e o ISPN publicaram a cartilha Boas Práticas de manejo para o extrativismo sustentável do pequi (OLIVEIRA & SCARIOT, 2010) com recursos do PNUD e da União Europeia. Desta publicação, foram retiradas recomendações que embora sejam para outra espécie de pequi o (Caryocar brasiliense) e outra região do país (Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais) foram submetidas à análise de extrativistas de pequi da Chapada do Araripe em oito reuniões realizadas nos municípios de Barbalha, Crato, Jardim e Porteiras durante o ano de 2015. Outras propostas foram elaboradas pela equipe da APA Chapada do Araripe e também submetidas aos extrativistas nestas mesmas reuniões:

Coletar frutos no chão A maturação dos frutos ocorre três dias após a queda natural quando são mais nutritivos, rendem mais óleo e tem maior quantidade de vitaminas e proteínas.

Não quebrar os galhos O ataque de doenças e insetos é facilitado com a quebra dos galhos e pode levar à morte de algumas plantas ou reduzir a produção de frutos nos anos seguintes.

Selecionar os frutosColetar frutos sadios contribui para a qualidade dos seus produtos. Os frutos rachados, abertos, mordidos ou fungados que ficam no solo podem germinar e produzir novos pequizeiros ou serem consumidos pelos animais do mato. Alguns extrativistas afirmam coletar estes frutos para consumo próprio porque possuem menor qualidade para o mercado.

Cuidado para não pisar nas mudas Utilizar as principais trilhas de acesso às áreas de coleta reduz o pisoteio de mudas de pequizeiro e permite a regeneração das áreas, assim, conforme vão morrendo as plantas velhas vão surgindo as novas renovando o ciclo da natureza.

Transporte Os frutos devem ser colocados em sacos de linhagem ou baldes para serem transportados com a casca para a venda in natura a fim de assegurar a higiene. Caso sejam coletados para produção de óleo podem ser descascados no campo diminuindo o peso e o volume a ser transportado e neste caso as cascas devem ser colocadas ao redor do pequizeiro para servir de adubo.

Cuidado com o uso das áreasAlém do extrativismo, outras atividades podem por em risco a produção de pequi, como a criação de gado, o corte de lenha, as queimadas para fazer as roças e outros. A diminuição de animais do mato pode prejudicar o pequi e os extrativistas com a diminuição da produção e das plantas ao longo do tempo. Prejudicar os morcegos que ajudam na polinização e outros animais que dispersam (espalham) as sementes podem também pode comprometer a produção de pequi. Há o reconhecimento da importância de animais na dispersão das sementes do pequi por parte dos extrativistas na Chapada do Araripe.

Plantar pequizeirosTer pequizeiros na propriedade facilita a coleta e evita ter que entrar na terra dos outros para coletar. Além disso, a quantidade de frutos coletados pode ser maior nas áreas plantadas. Então, plante pequi nos quintais, em terras particulares ou nas áreas de uso comum.

Uso do fogoO fogo pode ser uma ferramenta necessária para fazer roça e ajudar na rebrota do capim, mas quando uma área pega fogo muitas vezes morrem as mudas e a reprodução das árvores maiores é prejudicada e com o tempo acabam morrendo. O pequizeiro também. Os extrativistas mais experientes dizem que o fogo prejudica a floração e a formação dos botões, diminuindo a produção de frutos.

Não cortar pequizeirosA planta é protegida por lei (IBAMA, 1996) e garante o sustento de muitas famílias. Para muitos extrativistas, o pequi é um “pai de família” porque garante o sustento da casa.

Não caçar animaisEles ajudam no equilíbrio da natureza, na polinização e na dispersão das sementes.

Fazer um pequeno viveiro de mudas Cultivo de um viveiro com sementes colhidas de plantas selecionadas pelo seu porte, sanidade (sem doenças ou pragas), qualidade e quantidade de frutos produzidos ou organizar um sistema: de coleta, beneficiamento e tratamento de sementes, produção de mudas e retorno aos extrativistas para plantio com participação do poder público;

AssociativismoTrabalhar em associação com outras pessoas da comunidade para criar escala (volume) de produção e negociar melhor preço e condições de trabalho e venda, principalmente aproveitando o período de menor preço do pequi para realizar o beneficiamento que permite comercializar na entressafra, como já é prática usual na obtenção de óleo de pequi na Chapada do Araripe;

Divulgação Aplicar e divulgar na sua comunidade as boas práticas no manejo do pequi e criar acordos comunitários para a aplicação das boas práticas recomendadas. Fonte: Cartilha Boas práticas no manejo do Pequi, elaborada pela Apa Chapada do Araripe (ainda não publicada)

Pequizeiros têm área protegida na Flona

A Floresta Nacional do Araripe-Apodi (Flona), criada em 2 de maio de 1946, é a primeira unidade de conservação de sua categoria estabelecida no Brasil. Segundo Pedro Augusto Carlos Monteiro, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), no Crato, a Flona tem área de 39 mil hectares, sendo cerca de 80% desse total concentrado em Crato e Barbalha: “Praticamente um terço da Floresta é área de proteção integral, intangível, preservada para manter a reprodução dela conforme a natureza. Só entram pesquisadores, é até proibido coletar qualquer espécie, inclusive o pequi (Caryocar coriaceum).

Além dessa proteção, o fruto típico do Cariri, mas que existe em outras regiões do Brasil, ganhou portaria do Ibama proibindo o corte do pequizeiro: “Ele só adquiriu status de preservado na década de 1990. Antigamente, sua madeira, de alta durabilidade, era usada para fazer moendas de cana e artefatos de carro de boi. Por sorte, não é adequada para a queima, pois é muito dura e difícil de cortar para fazer lenha”, afirma Pedro Augusto Monteiro.

E proteger é mesmo preciso. Um pé de pequi demora de cinco a seis anos para dar os primeiros frutos e cerca de 10 anos para chegar a dois metros de altura. Sem sofrer danos, um pequizeiro pode ultrapassar os 100 anos. Há exemplares seculares na Chapada do Araripe.

Projeto de gastronomia é apresentado na Itália

A Floresta Nacional do Araripe (Flona) desenvolve trabalho de educação ambiental em relação ao pequi, sobretudo com comunidades de catadores e alunos das escolas de ensino fundamental e médio integrantes do Com-Vida (Comissão do Meio Ambiente e Qualidade de Vida).

“Além de ressaltar a importância da preservação do pequizeiro para a nossa região, nós ensinamos a fazer óleo, biscoito, pães, bolo, pizza, peta, pequizada, cocada, enfim, várias receitas com pequi”, afirma Maria de Araújo Ferrer, coordenadora de educação ambiental da Flona.

Nas oficinas, realizadas na sede instalada na Chapada do Araripe, no Crato, também há espaço para as propriedades terapêuticas, como massagem com óleo aromatizado. Mas foi a experiência gastronômica que levou Maria Ferrer a Itália, para participar do Terra Madre Salone del Gusto, nos anos de 2004 e 2006, evento organizado pelo movimento Slow Food, quando teve a oportunidade de divulgar o pequi cearense para mais de 100 países.

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.