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O desafio continua

Para participarem do ciclo carnavalesco de Fortaleza, blocos, maracatus, afoxés e demais manifestações apostam em alternativas de financiamento que não se restringem apenas ao poder público e privado

00:00 · 25.02.2017 por Roberta Souza - Repórter

Antes mesmo de ter início o ano de 2017, um anúncio entristeceu os foliões fortalezenses ansiosos pelo ciclo carnavalesco. O bloco Sanatório Geral, que há dez anos se concentrava na Praça da Gentilândia e saía em cortejo pelas ruas do Benfica em posse da lagarta de fogo, decidiu que não iria mais colocar o povo pra "gingar, pra dar e vender" sob seu comando. Os entraves encontrados no decorrer do percurso de independência financeira e as grandes proporções tomadas pela festa esgotaram as possibilidades "de fazê-lo com a leveza e a artesania que teciam sua natureza", assim afirmava a nota. E a decisão repercutiu por toda a cidade, que já tinha se acostumado a investir nas fantasias para sair com o bloco.

Poucos dias depois, o "Eu não sou cachorro, não" divulgaria decisão semelhante. Para a rua, ele não tinha condições logísticas de voltar, mas diferente do Sanatório, foi em uma parceria privada que os integrantes resolveram apostar todas as fichas. E assim o grupo conduziu o período do pré-carnaval dentro do espaço da Boate Donna Santa. "De cara, a gente eliminou um problema que era garantir a segurança do público. Além disso, banheiros sempre limpos, qualidade de som, luz, um show melhor", aponta o vocalista Adriano Uchôa quando questionado sobre as percepções do novo formato. Segundo ele, o bloco perdeu em quantidade. Se na rua atraía 8 mil brincantes, na casa foram apenas 800, entretanto ganhou em qualidade.

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Sair da rua não era algo que passava pela cabeça dos integrantes. "Foi mais uma questão de desgaste, a gente estava cansado dos problemas até pra conseguir uma autorização; pensávamos muito era em acabar, já que estávamos sempre em prejuízo financeiro", desabafa o vocalista. Esse desgaste, aliás, é mais comum entre as manifestações do que pode parecer. Para quem sai de casa só para curtir, é mesmo difícil saber o que aconteceu até que o evento se realize. Mas o esforço é grande, e as alternativas encontradas para garantir que o movimento se concretize são cada vez mais diversas.

Financiamento coletivo

Depender apenas dos editais da prefeitura ou do estado não é uma opção - tanto pela pouca quantia destinada quanto pelos costumeiros atrasos de repasse -, e, cientes disso, os organizadores vão da venda de camisas às campanhas de financiamento coletivo. Tudo para garantir nem que seja apenas uma saída no ciclo carnavalesco. Foi o que fizeram o Damas Cortejam e o Bloco das Travestidas. O primeiro conseguiu até superar a meta proposta no site de financiamento, arrecadando um valor líquido em torno de R$ 7 mil, que somado aos investimentos pessoais, conseguiu dar conta de uma apresentação no pré-carnaval.

No ano passado, as meninas haviam conquistado o edital da Secultfor como bloco estreante e com a ajuda de custo de R$2.500 também fizeram a festa acontecer. Mas agora em 2017, elas não encontraram nas propostas da Prefeitura uma viabilidade. "Às vezes, o edital só é pago depois do evento. Se você não tem uma reserva, ele te ajuda, mas não resolve de imediato. Fora que você precisa mesmo vender camisa, dindin para dar conta de todos os custos", afirma Michele Matheus pelo Damas Cortejam.

Já o Bloco das Travestidas, que saiu pela primeira vez neste ano, nem cogitou entrar na disputa dos editais. Em praticamente um mês tudo foi articulado com o dinheiro pessoal do grupo acrescido da venda de camisas e de bilheteria dos bailes no Mambembe. A campanha de financiamento coletivo, infelizmente, não foi bem- sucedida. "A gente tá pagando pra ter esse bloco, pra que ele aconteça. Mas é de uma forma experimental, e está sendo bom, positivo. No final, vamos sentar, nos reunir, e ver em que ponto acertou, errou, mas com certeza ano que vem vamos organizar melhor pra conseguir incentivo", assegura Patrícia Dawson.

Maracatus e afoxés, tradicionalmente contemplados tanto pelos editais da Secultfor como pelos da Secult, não passam por situações muito diferentes das dos blocos. A maioria deles funciona como associação cultural durante todo o ano e é mesmo por doação e trabalho voluntário que se sustentam. Lucy Magalhães, a presidente do Az de Ouro, já nem perde o sono. Acostumou com essa incerteza do Carnaval.

"Aqui a gente faz as coisas, mas tá estourando cartão nosso, de amigo, de gente da família; tá pedindo dinheiro emprestado a juros, pra não fazer feio na avenida. Quando o dinheiro do edital vem sair já é na semana do Carnaval e não tem muito tempo mais. Aí ocorre a mesmice, não dá tempo fazer mais nada. Fica difícil", desabafa.

O Afoxé Acabaca se sustenta do "bolso do Paixão", como brinca o fundador Ivaldo com seu sobrenome. "Tem gastos que o edital não pode incluir, como nossas oferendas religiosas, as fantasias, as alegorias, os instrumentos. Tudo tem uma logística e tem um custo. Nosso pessoal é pobre, é o povão da Rosalina, não é gente da classe média. Por isso, acabo é doando tudo mesmo", admite.

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