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O céu beijando a terra

Supernuvem é observada no sertão de Limoeiro. Raro no hemisfério sul, fenômeno traz um misto de tensão e alegria. Foto: Melquíades Júnior
00:00 · 18.03.2017 / atualizado às 11:10 por Melquíades Júnior - Repórter

Tem mais de 24 horas que o céu não é mais tão azul em Limoeiro. As nuvens vão tomando uma forma que, vista da terra, parecem finas e compridas. Uns pedaços vão se juntando a outros, retalhos de nuvens formando uma grande cortina cinzenta. Na tarde daquela sexta-feira, 17 de fevereiro, tudo se mexe, menos o ar. Envolvida em plena depressão sertaneja, a cidade é uma planície que, feito uma pegada de elefante, está um pouco abaixo do que fica ao redor.

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O sol que ninguém vê ainda está ali, peneirando nas nuvens, mais na forma de calor que de luz. Às 15h, o meio da tarde tem o termômetro comum do meio dia - 32 graus-, quando Joana seguiu 20 minutos de bicicleta de casa até a escola em que leciona. Foi toda coberta: sapato rasteiro, meias brancas, calça comprida, camiseta e, por cima, uma jaqueta jeans que quase cobre a mão grossa de quem, embora no lápis, já pegou enxada. Na cabeça, um chapéu de pano que faz ondas nas bordas, desses que se usa na praia - tão distante.

No sertão sem frio, as pessoas se cobrem para fugir do sol.

Perto de 15h30 parece que vai anoitecer. A cortina no céu vai tomando outros tons de cinza quando uma grande massa de ar vinda do Leste se agiganta sobre a cidade.

"Tá chovendo em Russas", sentencia o mototaxista Francisco Raulino. Quando vê uma nuvem assim, no céu, só consegue falar do gerúndio do presente (onde está chovendo), porque já viu nuvem muito maior passar direto, deixar água sabe-se lá onde, mas, em Limoeiro, não. É por isso que "bonito pra chover" guarda sua incerteza.

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Centro da cidade após chuva no fim de tarde. Ao fundo, Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Foto: Társio Pinheiro

Do lado da cidade donde vem a nuvem, na Ilha de Santa Terezinha, Nonato Diógenes olha para o céu com menos incertezas do que quem está no Centro. "Vai chover".

O vento dá o ar da graça e já mede força com as carnaubeiras, que inclinam pressionadas enquanto suas folhas achatadas, formando um leque, aplaudem barulhentas. Portas e janelas que não estão calçadas começam a sacodir no abre-fecha. No centro da cidade, ciclistas e pedestres, como se também fossem empurrados, começam a andar mais rápido para os destinos. A essa altura, os feirantes da Coluna da Hora já reforçaram as barracas para evitar qualquer brecha sob a lona de que são feitos os tetos. Os cata-ventos de alumínio, os poucos que ainda resistiram ao tempo do bombeamento elétrico, são, eles próprios, catados, e giram numa fúria enlouquecida. Visto dessa forma, é o vento, não o céu, quem anuncia.

A cidade é tomada por um vendaval. É o que se pode chamar do vento de 30km/h no lugar pouco acostumado a mudanças do tempo durante o ano. Vista de outra forma, poderia-se dizer uma brisa ofegante, já que o sopro antecedeu em segundos as primeiras, de muitas, partículas de água. Na casa de Maria Lúcia, a última roupa é tirada do varal menos seca que as outras. Para não se enganar quando o tempo se forma, só corre para o varal com as primeiras gotas.

Chove em Limoeiro. Não uma neblina apressada, indecisa. É chuva mesmo, de já fazer poças no cruzamento, relâmpagos e os trovões dois, três, quatro segundos depois - quanto mais atrasado o som, mais longe foi o raio. Mas Raimunda desliga da tomada a televisão, a geladeira e a máquina de costura. E todos, salvo raras exceções, calçam as chinelas de borracha para evitar as temidas descargas elétricas.

Em segundos, as ruas são tomadas de água e alegria. Da porta para dentro, uns seguram sorriso e, outros, o rodo para garantir o limite das poças fora de casa. No colégio Lauro Rebouças, estudantes aplaudem a queda d'água. Um aluno, desatento à explicação do professor, faz a transmissão ao vivo no Facebook. E quando passa o dedo no smartphone vê várias outras transmissões do mesmo show das nuvens. Simultâneo, Fabrício, que faz faculdade em Fortaleza, manda um comentário carregado de felicidade e ressentimento de não estar. "Coisa boa! Ah, eu aí". O professor Társio Pinheiro pega a câmera fotográfica e, mirando biqueiras e poças, banha-se com os olhos.

A água continua caindo forte por 20 minutos, depois enfraquece no mesmo tanto. Seu Nonato, agricultor de 61 anos, na insistência de não esperar por mais um ano de seca, planta o feijão no roçado. Do alto de sua cintura, joga com a mão a semente na terra cavoucada horas antes. "Agora é com Deus".

Na forma de água, que estava tão acima, o céu beija a terra. A esperança é de que esse encontro evolua e, como de um romance, brote a semente do pé de feijão.

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