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Novos olhares, um outro mundo

Alunas da Cia Vidança
00:00 · 04.03.2017 por Dellano Rios/Adriana Martins - Editor de área/editora assistente

Na década de 1970, Anália Timbó veio com toda a família do Interior para Fortaleza. Instalaram-se próximo ao Sesi, na Barra do Ceará. Quem diria que uma localização seria tão definitiva: estando perto da instituição, a jovem foi buscar lá um passo inicial para seu sonho de ser atriz. "Mas quando cheguei havia vaga apenas para o balé. Fiz minha inscrição mesmo assim, e também para quatro irmãs e um irmão. Depois de alguns testes, fomos selecionados", lembra Anália.

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À época, a partir do empenho do Dr. Thomas Pompeu de Sousa Brasil Neto - Presidente da Confederação Nacional da Indústria (Sesi) - a instituição contava com investimentos consideráveis na área das artes. Nascido no Ceará, o gestor foi pioneiro ao convidar Denis Gray, direto do Rio de Janeiro para dar aulas de dança a jovens de classes populares em Fortaleza.

"Durante quatro anos vivenciamos essa experiência com todos os direitos: roupas, sapatilhas, viagens para se apresentar. Dr. Pompeu também mandava assistentes sociais para visitas as famílias, inclusive a nossa. Éramos pobres e, quando precisei começar a trabalhar para ajudar em casa, ele me garantiu um emprego no Sesi", recorda Anália com a voz embargada. "Assim, virei monitora do curso de teatro".

Com o passar do tempo, parte dos investimentos cessou. "Alguns professores saíram, mas eu fui mantida. De monitora passei a professora. Fui transferida para o balé e trabalhei lá durante 23 anos", conta a bailarina. "Meus irmãos seguiram carreira, foram para o Rio, São Paulo. Eu fiquei para ajudar minha mãe. Ensinava também na igreja ou para amigas do bairro, era muito inquieta", recorda.

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Anália Timbó com crianças atendidas pela Vidança 

Até que, em 1981, Anália formou o Vidança. "Queria fazer mais, queria buscar uma identidade cearense na dança, expandir as atividades".

Passou, então, a levar as alunas mais velhas de sua turma para dar aulas na comunidade da Vila Velha, que surgia à época. A partir dessa iniciativa, surgiu o trabalho social realizado até hoje, pelo qual já passaram centenas de crianças e jovens.

Perguntada sobre o que a levou a fazer isso, Anália é enfática: "muito de mim e de minha família foi resultado do que recebemos no Sesi. Morávamos num bairro em que a prostituição e as drogas batiam na porta. Talvez nosso caminho tivesse sido outro não fosse as oportunidades oferecidas", admite. "Não é apenas a arte que transforma, mas os contatos com os monitores, os professores, o carinho e cuidado dessas pessoas. A partir disso, jovens podem crescer e ter escolhas".

Empoderamento

Esse entendimento é compartilhado por Nádia Sousa, que durante anos atuou na coordenação de processos de formação em arte e cultura e atualmente é coordenadora Eh Nóiz Perifa, do Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ).

"O contato dos jovens com a cultura diversificada amplia o olhar e a visão de mundo deles, mas a partir deles mesmos, de seu reconhecimento enquanto sujeitos", avalia.

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Sede da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda

"Acompanhei várias histórias. De meninos reprimidos em seus ambientes domésticos por conta de sua sexualidade e, a partir do contato com arte e cultura, fortaleceram sua aceitação própria e seu posicionamento político em relação a isso", comenta.

Nádia pontua ainda que, neste mesmo processo, jovens têm sua autoestima fortalecida, e começam a se sentir mais capazes. "Muitos passam a considerar caminhos que antes julgavam impossíveis, como ingressar na Universidade. Eles acreditam mais em si mesmos". Por fim, ao finalizarem os cursos ou oficinas muitos voltam às comunidades para replicar conhecimentos. "Alguns até já promoviam formações antes, de maneira instintiva, sem conhecimento técnico. Ao participarem de projetos, podem voltar mais capacitados, com outro olhar".

Casa e cultura

Em Nova Olinda, a Fundação Casa Grande se aproxima de um quarto de século. Tempo suficiente para ter inscrito sua história na cidade do Cariri e, o mais importante, ter transformado a realidade social em que está inserida.

"Trabalhamos com a ideia da cultura voltada para o meio social. Ao invés de tê-la só como estética, temos também como forma de transformação da vida das pessoas", explica Alemberg Quindins, presidente da Fundação. Músico, ele criou o centro cultural que envolve jovens de Nova Olinda e que foi ampliando sua ação ao envolver a cidade com essas ideias. Escola de comunicação, projetos artísticos e equipamentos culturais (como uma rádio, uma gibiteca e um teatro) são abrigados no casarão que, ao longo de sua história, atendeu diretamente mais de 600 jovens, entre crianças e adolescentes.

O impacto da Casa Grande, contudo, é maior e até difícil de precisar. Afinal, hoje a cidade mantém projetos como o das hospedarias e agência de turismo comunitárias que nasceram da demanda dos visitantes do centro cultural, mas que foram tocadas por famílias da cidade. "Aqui, a cultura não é vista apenas como um produto. É pensada como uma cadeia produtiva, trazendo desenvolvimento e distribuição de renda", explica Alemberg.

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