Reportagem Minha Giné, Minha Bissau

Nova realidade na Capital foi um desafio para Narciso Mendes

A nova realidade em Fortaleza foi um desafio para o guineense, mas ele contou com a ajuda de amigos na adaptação. (Foto: Thiago Gadelha)
00:00 · 20.01.2018

"Ah, isso aí é eternamente. Não sai, não", responde em sorrisos Narciso Mendes, 33, quando perguntado se, mesmo depois de oito anos morando em Fortaleza, ainda sabe falar o kriol, língua baseada no português adotada pela maior parte da população de Guiné-Bissau. O país da costa africana o abrigou até os 25 anos, quando se mudou para o Brasil para cursar a educação superior - mesmo à parte da filha, que nasceu apenas dois meses antes da partida e ele só reviu em 2012, única ocasião em que voltou para casa.

Sim, "casa". Porque, mesmo com a lonjura do Atlântico, é à Guiné-Bissau que ele pertence, faz questão de sublinhar. Nem que volte "aos 60 anos", mas um dia voltará. Enquanto isso, precisa enfrentar parentes e amigos cobrando seu regresso. À força, resiste, pois ainda tem objetivos, planos, sonhos, para concluir, como cursar um mestrado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Não vai dar o braço a torcer antes disso.

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Mas, para conseguir, também precisa resistir a outras tantas intempéries. Ser estrangeiro não é fácil, sentencia. Ao chegar ao Ceará, precisou dividir um quitinete com "seis, sete pessoas". Não tinha fiador. Não possuía geladeira para acondicionar os alimentos. Não conhecia o real valor da moeda brasileira. Para se estabelecer, contou com a ajuda de amigos conquistados no bairro Centro, mais especificamente na Rua Barão do Rio Branco, onde morou por quatro anos.

Dialeto

É no cruzamento da mesma via com a Avenida Domingos Olímpio onde fica um bar-porto, o Ponto de Encontro Djumbai (em crioulo, "reunião"), dos africanos de países lusófonos em Fortaleza. Lá, eles podem cantar, dançar e falar à vontade, já que a língua também se converte num escape para a saudade. Narciso explica que, esteja "no meio de uma multidão ou num palácio", se encontrar outro nativo africano, falará em kriol.

"Tem pessoas que acham que é falta de educação. A gente até entende que é, mas, se no meio de mil brasileiros tiver dois guineenses, sem querer, uma hora eles vão falar crioulo. É automático", reconhece.

Às vezes, a vontade de falar de casa é tanta que ele até gravou um videoclipe no Aterro da Praia de Iracema, em 2015, cantando "Nha Guiné, Nha Bissau" (Minha Guiné, minha Bissau), em ritmo de kizomba, gênero musical originado na Angola.

Versátil, Narciso também já gravou outras músicas em português e kriol com a ajuda de um amigo - hoje morando na França - e um estúdio improvisado em casa. Ele também já realizou apresentações ao vivo em algumas casas de show na cidade.

Gosto

Depois da linguagem, outra forma de manter as raízes, segundo ele, é quando tem a oportunidade de rememorar o paladar de pratos típicos do país africano, como a cachupa (variação de mungunzá temperado com carnes) e os caldos de mancarra (tipo de amendoim) e tchebem (ou chabéu, fruto de uma espécie de palmeira), que uma amiga prepara e anuncia nas redes sociais a fim de reunir os estrangeiros para desfrutar as iguarias.

Tudo isso divide a rotina do guineense com a degustação de sarrabulho, panelada e assados de panela - "não tenho besteira com comida" - e o aprendizado de novas palavras do dialeto "cearensês", como diz a capa de um dicionário especial que ganhou de um amigo da faculdade. Tecnólogo em Processos Gerenciais e pós-graduado em Gestão de Projetos, Narciso cursa agora o bacharelado em Administração para "fortalecer o currículo". Afinal, o imigrante lamenta nunca ter trabalhado na área de especialização, nem mesmo em estágios, tendo esbarrado apenas em promessas durante a formação acadêmica.

Para se manter em Fortaleza, sem ajuda de custo do governo guineense ou da família, trabalha como vendedor de tecidos e cosméticos. Na Capital, pelo menos, é mais barato de se viver que em São Paulo, onde mora o irmão. No empenho diário longe de casa, por vezes acordando com a saudade atormentando os pensamentos, o cansaço pode escorrer do rosto, mas, nos olhos do homem da pequena Canchungo, é possível ver uma fagulha de determinação que não se apagará facilmente.

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