Reportagem Histórias sobre o papel

No universo do livro

00:00 · 08.04.2017 / atualizado às 11:06

O universo do livro é povoado por tipos que, no correr dos séculos, mantiveram-se razoavelmente estáveis. Ainda que nem sempre um se coloque diante do outro, que o encontro físico não se realize, eles promovem como que um diálogo silencioso. Uma existência exige a outra. 

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Há, primeiro, o escritor. É ele quem produz o livro, ainda numa forma anterior, em folhas soltas, manuscritas; ou nos organizados documentos digitalizados. De sua imaginação - ativada por musas interiores, por demanda de um negócio pelo qual foi pago ou por alguma coisa híbrida, destas duas condições - nascem frases, parágrafos e por diante, chegando a capítulos, volumes, tomos.

É possível que, antes do escritor, seja preciso falar do leitor. Aquele não existe sem este, não apenas porque escreve em sua intenção, mas porque antes de se aventurar a produzir, ele mesmo se dedicou à leitura. A ordem faz sentido: acaso o homem não aprendeu primeiro a ler, os sinais da natureza, para só depois produzir algum tipo de escrita rudimentar? A atividade leitora tem uma natureza múltipla. Contudo, aquele que a assume para, então, se deŠnir como leitor, em geral o faz por entendê-la como prazerosa. E, em não poucos casos, como um hábito que tem  algo de vital. Um imperativo existencial.

No correr de sua história, e para garantir que pudéssemos contá-la, o livro encontrou guardiões. O biblióŠlo é o leitor que se deŠne por sua paixão - que vai para além do texto. Seu amor tem uma gramática própria, atenta não apenas ao que está escrito, mas também ao que está inscrito. O papel, a impressão, a encadernação, as marcas de leituras anteriores e do próprio tempo. Em suas estantes se multiplicam volumes, que se avizinham para contar uma espécie de história, que é, também, a das paixões do biblióŠlo para além dos livros.  Desta mesma ordem, há o bibliotecário. 

O escritor argentino Jorge Luís Borges, em mais de uma ocasião, aproximou a imagem da biblioteca daquela que tem um labirinto. Os livros se multiplicam e a ânsia do leitor está, por vezes, bem além de suas capacidades. O bibliotecário é como um guia por esse labirinto. É aquele que dá ordem ao que, perdido em sua paixão, o leitor pode transformar em caos. 

"Estudei nove anos com os Jesuítas, mas nada indicava que viria a me expressar pela escrita. Um fato curioso se deu, em 1965, já no Científico, quando o professor de Português leu minha redação na sala de aula, como exemplo de texto bem redigido. O impacto desta leitura em voz alta reforçou minha decisão de prestar vestibular para Comunicação Social. A professora Adísia Sá me levou para publicar crônicas na extinta Gazeta de Notícias. A experiência lá me levou ao DOPS, e encerrou minha experiência como cronista. Continuei a escrever e reuni material para o livro “Pluralia Tantum”, em 1973. A experiência com os agentes da ditadura me levou a uma escrita mais hermética. Queria me expressar sem ser punido. Veio “Parabélum”, em 1977. Para mim, ser escritor é ter o domínio da palavra, usá-la como forma de expressão. Poderia dizer de luta, desde que não percamos a qualidade da escrita, sua tessitura e sua possibilidade de levar a linguagem a outros limiares. São grandes os acenos, por parte do mercado, para uma escrita de autoajuda, de “vampiros”, equivalente aos que fazem os “youtubers” e as quase celebridades que ocupam a cena com o descartável.

Gilmar de Carvalho
67 anos, escritor, pesquisador e jornalista 

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"Desde 1979 eu sou bibliotecária. Comecei na Menezes Pimentel; vim para a Academia Cearense de Letras pouco tempo depois. A gente se envolve tanto, que, de repente, eu acho que a vida inteira trabalhei nas duas. Mas a bagagem que eu tenho praticamente nasceu comigo. Eu toda vida fui muito curiosa, toda vida gostei muito de ler. Nasci numa casa cheia de livros, meu pai gostava de ler, morreu muito cedo, mas deixou essa herança com a gente. A escolha por Biblioteconomia foi natural. A minha própria vida tá aí misturada, imbricada nessa história, porque a pessoa vem com uma pesquisa e aquilo vem permeando o universo da gente. O que não temos, buscamos, começamos a fazer associações e, de repente, nos vemos tão envolvidos que não sabemos mais o que era bagagem e o que era da gente, o que foi adquirido... É tudo. Hoje em dia não tenho uma leitura específica, as leituras vão me buscando. Eu não sou tutora específica de alguém, mas tenho colaborado com estudantes de uma maneira geral e a gente se envolve com eles.Quando eles publicam, dá para sentir uma parte do trabalho da gente editado ali."

Madalena Figueiredo
62 anos, bibliotecária

doc

"Há 28 anos trabalho como livreiro. Meu pai sempre foi uma pessoa que leu bastante. Começou a primeira livraria dele com três estantes de livros usados da própria biblioteca. Eu, criança, com 11 anos de idade, fui me colocando dentro da livraria e começando a aprender. Não foi nem ele que pediu. Fui eu mesmo que, de alguma forma, tive um interesse na situação e aprendi realmente uma profissão que pra mim, hoje, é o sustento da minha família, é tudo na minha vida. O universo de livros é uma coisa que eu gosto muito. O contato permanente com eles, com os autores, editoras, lançamentos, com a história, que a gente vem adquirindo todos esses anos, é o que nos dá o conhecimento pra poder tocar para frente a profissão. O grande papel do livreiro é passar pra frente esse conhecimento que está concretizado no objeto chamado livro, com certeza a maior invenção da humanidade. A gente também aprende muito com os clientes. Cada um vai trazendo a sua bagagem, o seu universo. Tem várias áreas que você acaba aprendendo. Pessoal às vezes me pergunta em que eu sou formado, eu digo que sou formado em universo de livros, aqui. A livraria foi minha graduação." 

Vladimir Ilitch de Andrade Guedes
39 anos, livreiro na Arte e Ciências

doc

"Neil Gaiman disse que “vivia nos livros mais do que em qualquer outro lugar”. A sensação que tenho é a mesma. Fui uma criança que lia gramáticas em busca de tirinhas de quadrinhos, uma adolescente que passava as tardes das férias lendo em uma poltrona de livraria e hoje sou uma adulta cujo cartão de crédito serve em primeira instância para  comprar livros. Acredito que há um livro para cada ocasião e para cada pessoa, esperando ser desbravado como um pedaço de terra em uma imensidão de oceano. Entendo os que dizem não gostar de ler, mas estou sempre disposta a tentar mudar essa visão. Nunca tive ciúmes dos meus livros e por isso muitos foram e nunca voltaram, porém me agrada pensar que estão sendo bem tratados em um novo lar. Não consigo imaginar minha vida sem leitura, porque basicamente essa seria uma vida sem mim. Nas páginas descobri os meus alicerces e elas me deram a força para erguer um eu próprio. Nas palavras achei a inesgotável fonte de magia. Ler é fugir, mas também encontrar a si e ao outro. Ler é revolucionário."

Andressa Souza
24 anos, leitora, jornalista e autora do blog Coadjuvando

doc

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