Reportagem Lugarejo

No suor das pedras do Cafundó, há um rio que nunca seca

00:00 · 05.05.2018 / atualizado às 16:00

Nesses tempos de chuva que caem no Ceará, o dia amanhece com as nuvens escondendo o sol, mas não somente ele. Uma fina camada do nevoeiro encobre o pico das serras em Choró, no Sertão Central. Do meio da 'nuvem', em direção à mata, surge Cleonice. Como quem desce do céu, encerra o degrau de pedras para esperar numa estrada improvisada alguém que lhe carregue até a cidade para sacar o Bolsa Família. Não demora e várias crianças surgem do mesmo alto. Todos os dias, às quatro da manhã, levantam para baixo rumo à escola. Vão e voltam para casa como quem some.

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O Cafundó é tão longe que virou sinônimo de distância no dicionário popular. Chegar ao centro de Choró e dizer de onde vem, seguido de "vixe" ou "eita", é comum de quem mora. A cozinheira Francisca Belmino, que não é do lugarejo, tem vontade de ir só para descobrir o "mistério" que faz as pessoas "insistirem" em morar lá. "É um pessoal muito pobre".

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Cleonice e a família voltam para casa após a aula dos filhos e a feira comprada em Choró para durar o mês inteiro. O jumento, por ser o carregador, é membro agregado em cada moradia

Descoberta pela imprensa nacional há menos de uma década, a comunidade até já não se espanta quando chega reportagem. Seis anos após os primeiros aparelhos de televisão e já se viram tantas vezes na telinha. Até agora a cozinheira Francisca viu todas, mas sem a resposta de por que as pessoas continuam ali. "Não é mais fácil descer"?

A propagada distância é o que vive a comunidade, por isso a feira de Cleonice, que desceu ao raiar do dia com os R$ 140 reais do Bolsa Família, tem que durar o mês inteiro. Não quer dizer que dure. Ir bem ali ocupa todo o tempo da presença o sol. Dela, do esposo Afrânio e do jumento que sobe com as compras no lombo. Sobe numas pedras como quem caminha, numa ligeireza de quem sabe onde pisa.

A chuva que deixa a serra do Cafundó verde, como todo o sertão, é a mesma que torna as pedras escorregadias. Um deslize é fatal.

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Cafundó (Foto: SDA-COPPE)

"Tá meio ruim. Choveu nesses dias, então está meio escorregadio", diz Afrânio. Não lembra a última vez que caiu em seus 34 anos de vida. A intimidade com as pedras, e o pisar nem tão óbvio nesses tempos de mato crescente sobre o que se entende uma trilha, mostra uma comunidade que fala com seu lugar. Como as casas são todas distantes uma das outras na serra, o caminho de pedras é o elevador em que todos se encontram. Também foi dos primeiros encontros de Afrânio e Cleonice. Antes de morarem na mesma casa, dividiam as mesmas pedras. Que hoje sua meninada pisa.

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Agente de saúde Otaciano Pereira e familiares na serra do Cafundó, Choró

Quando seus filhos Ricardo, 16 anos, e Adriano,12, aprenderam a escrever, o pai decidiu que não precisava mais acompanhá-los nas pedras. O mais velho vai guiando o mais novo. E assim os dois levantam às quatro da manhã, descendo meia hora depois. Ainda é noite quando sentam num batente improvisado com tronco de carnaúba suspenso em duas estacas fincadas no solo. É uma parada improvisada para a chegada da camionete que levará todos (são mais de 20) para a escola.

Crescendo no sobe e desce todos os dias, as crianças do Cafundó são uma referência na escola em que estudam. Não pelas notas, mas pelo que percorrem todos os dias.

Já viram no que dá estudar se repetirem a história do jovem Otaciano: de tanto não parar fez faculdade e hoje trabalha como agente de saúde na própria comunidade. É o "formado" da família. Mesmo que a graduação tenha sido em Pegadogia, porque era o que tinha. Sem dizer nada, apenas ser o 'resolve-tudo' no povoado é professor da esperança de mães como Cleonice, querendo ver os filhos "encaminhados", como ela e o marido não se viram.

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Casal Afrânio e Cleonice coloca as compras no jumento para subir até casa, na serra do Cafundó, em Choró

A calmaria do lugarejo há quase 40 km da cidade não é a última. Após uma hora de subida, é possível seguir por quase o mesmo tempo até chegar a um lugar tão escondido que é este o nome mesmo. Escondido e Cafundó são duas cumeeiras de gente, quase uma coisa só, no alto de uma das serras de Choró. Tem o isolamento de outras comunidades longínquas, mas em nenhuma outra foi preciso chegar de helicóptero para instalar postes de luz e cisternas. Antes, tentaram que o povoado descessem, trabalho inútil.

"Lá embaixo tem tudo", disseram os incrédulos. Só não tem uma nascente de rio, com água límpida e insistente. Tanto que, nos últimos seis anos de seca no Ceará, não deixou de escorrer por entre as pedras um só dia. Isso faz toda a diferença.

 

Cisternas após seis anos do ‘choque-elétrico’

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Registro de julho de 2017, quando as cisternas chegaram a Cafundó e Escondido. Assim como ocorreu com os postes, elas foram levadas por helicóptero (Foto: SDA/COPPE) 

Há seis anos, a lamparina foi para a gaveta em Cafundó e Escondido. Depois que veio do céu, porque não tinha outro jeito de levar postes que não fosse enganchado num helicóptero, a energia elétrica foi o botão das novidades: televisão, geladeira, máquina de lavar, microsystem, ventilador, lâmpada… computador. 

A telenovela passou a ser assunto de família. Ver um filme sem precisar descer a serra foi como dispensar algumas horas até as casas debaixo mais guarnecidas da modernidade.

O dia 20 de dezembro de 2011 deu manchete nacional: “As famílias das comunidades de Cafundó e Escondido, no interior do Ceará, receberam energia elétrica em suas casas pela primeira vez nesta terça-feira”, noticiou o jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Foi o presente de Natal.

A TV passou a competir com as conversas no batente em noite de lua, mas foi um mundo novo, que, passados quase sete anos, ainda mexe com a comunidade, sobretudo porque chegou apenas com a geração mais novas dos dois povoados. “A gente assiste a tudo”, diz Maria Dalvina. “Mas só não deixa os meninos ficar até tarde, porque tem que levantar cedo pra escola”. Quatro da manhã.

Com luz no teto, mas não a mesma facilidade de água na torneira, Cafundó e Escondido receberam as primeiras cisternas para acúmulo de água, há apenas nove meses. Os reservatórios de polietileno foram levados de helicóptero, numa ação conjunta da Coordenação de Programas e Projetos Especiais (Coppe)/Secretaria Estadual do Desenvolvimento Agrário (SDA) e Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer).

A cisterna só não tem a mesma novidade que a energia elétrica porque algumas casas já possuíam a do modelo de placas. Assim como para as casas, tijolo, cal e cimento foram transportados pelos jumentos da comunidade.

As chuvas de 2018 garantiram os primeiros abastecimentos. Poupa o carregamento de baldes d’água desde os poços da comunidade que envelhece e não tem o mesmo vigor para carregar a lata na cabeça. Apesar dos filhos que nascem e ficam, tem sempre outro que cresce e desce.

O Cafundó corre o risco de chegar aos anos como um povoado de idosos. O medo dos mais velhos é o de as tecnologias fazerem os mais jovens acreditarem que, para sobreviver, precisam do que elas oferecem lá embaixo.

 

Sem distância para o sonho

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Otaciano da Silva é o “resolve tudo” no Cafundó. Concluiu o Ensino Médio e fez curso superior (o primeiro na vila). É hoje o agente de saúde e primeiro contato com os de baixo

 

Otaciano Pereira foi o último filho e o único que não nasceu em casa. Deu trabalho à dona Maria, que teve os outros cinco em parto normal em cima da cama. 

O pai dela mesmo era o parteiro para os netos. Deu à luz quase sempre à noite, na claridão de uma lamparina e sem permitir a presença dos demais filhos - a história era de que os anjos vinham deixar para ela criar. 

O parto era um pudor para criança não ver. Mas com Otaciano não teve discrição. A barriga doía. Se pudesse, colocava o útero no colo para acalmar a dor. Mas foi preciso descer o Cafundó e ir ter com o médico no hospital. Talvez os anjos tivessem errado o caminho.

O menino cresceu. Ao contrário dos irmãos que iam para campo, sua roça foram os livros. Ao concluir o Ensino Médio, que para muitos no sertão é terminar os estudos, fez vestibular e passou. Cursou pedagogia e talvez a realização mais surpreendente foi ver pai e mãe com roupa de festa no centro da cidade, numa tão rara saída de casa.

Estudioso, fez concurso público no município e, aprovado, conseguiu unir útil e agradável: trabalhar na própria comunidade e receber por isso. É o agente de saúde do Cafundó. 

Para toda doença ele é a sirene. Quando alguém diz “chama Otaciano” é porque não basta aguentar a dor ou os chás feitos com a diversidade de planta medicinal no lugar. Foi o que aconteceu em 13 de abril com Afrânio, esposo de Cleonice, que encontramos no pé da serra dias depois. 

Não aguentava a dor, chamou Otaciano, que ligou para a Prefeitura pedindo uma ambulância. Só tem duas formas de descer o cafundó sem tocar o chão: doente ou morto. Porque enquanto ambulância é providenciada dois vizinhos colhidos aleatoriamente amarram uma rede num pau e levaram o doente no pedaço de pano. Dando sorte, a ambulância custará pouco a chegar no sopé da serra.

“Ele aqui é uma bênção. Um menino tão bom. Tinha tudo para sair, ir embora daqui. Mas ele escolheu ficar pra cuidar dos nossos pais. E de certa forma da comunidade também, porque qualquer coisa aqui ele é o contato”, orgulha-se a irmã.

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