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Natureza renovando

Índios de diferentes etnias participam de ritual na aldeia Cajueiro, município de Poranga (CE). Foto: Melquíades Júnior
00:00 · 18.03.2017 / atualizado às 11:11 por Melquíades Júnior - Repórter

A gota-d'água desce do céu, explode no chão, brota a planta, desliza no relevo, cai no rio e vai embora com os peixes e tudo o que há de matéria viva e minerais até desaguar no mar, alimentando as vidas de lá. A gota se deixa um tanto por onde passa e completa um ciclo na natureza de que depende a vida. Seu Francisco Alves, ou só 'Chiquin' que nessa vida não viveu pouco, observa os pássaros sobrevoando o Morro do Urubu e o joão-de-barro nas árvores que beiram a Lagoa Encantada. A floresta emite sinais de quando vai bem ou mal.

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O velho, índio jenipapo-kanindé, em Aquiraz, vê o tempo bonito pra chover, mas quando olha para o céu é mais em sinal de constatação. Bem antes do que dizem as nuvens, outra parte da natureza já lhe respondeu se vai ter colheita.

O marco que na tradição cristã para 'bom inverno' é o Dia de São José, nos saberes do velho índio do litoral leste são os 12 primeiros dias de janeiro. Em cada dia a natureza mostrando um comportamento que vai orientar sobre como será o ano: dia 1º para janeiro, dia 2 para fevereiro, 3 para março e assim por diante. Seu resultado é que "foi melhor que no ano passado", diz à família.

Vai ser bom o inverno. Juliana toma o saber do pai como certeza e só constata o que as últimas chuvas vêm dizendo. "Ano passado, ele já disse que não seria muito bom não. Realmente a gente não teve um inverno sangrando".

Enquanto na maior parte do sertão se espera o ciclo da planta, os jenipapo-kanindé, apenas uma das dezenas de aldeias das etnias indígenas do Ceará, já estão colhendo mandioca para a farinhada, milho, feijão verde, batata doce e melancia. A sina de não demorar também fez deles a primeira aldeia regida por uma mulher cacique do Brasil, dona Francisca Alves, ou Cacique Pequena. Mãe de Juliana, também feita cacique, e esposa de Seu Chiquin. Ele que esbraveja um "sabe de nada, quem sabe é Deus" como se a repórter da previsão do tempo no telejornal pudesse lhe ouvir.

Quando as terras cearenses eram menos renegadas aos índios naturais, os Tremembé, de aldeamentos do litoral oeste, faziam verdadeiro veraneio. Saiam em trilha pelo litoral de Almofala até as proximidades de Viçosa do Ceará, na Serra da Ibiapaba. O ciclo das chuvas sempre trouxe para os índios uma dinâmica da vida em comunidade. Ainda hoje, trilham essa dinâmica em significativos ritos, como o sagrado Torém (outras etnias tem o Toré), de contato com a ancestralidade e posicionamento diante do ciclo da mãe natureza.

Ainda que sejam muitos os significados espirituais relacionados ao Torém, sua própria sonoridade depende do ciclo das chuvas. O maracá, instrumento usado no ritual, tem nos Tremembé o nome de 'aguaí". Sem chuvas e, portanto, sem água, não haveriam as sementes e a cabaça de que é feito.

"Para além da estética das nuvens, o 'bonito pra chover' é a beleza da própria natureza se renovando", diz o antropólogo Babi Fonteles, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC).

A relação do índio com a água é percebida já com o colonizador. O professor lembra que o índio já era acostumado ao banho frequente, à higiene, diferente do europeu que mal tomava banho. "Chegando aqui, eles se deparam com povos que tinham uma saúde notável. O banho de rio, lagoas e mar faziam parte do cotidiano. Hoje é apresentado como algo temeroso para as crianças, de não irem sozinhas ao mar para não se afogar. Mas é possível ver crianças tremembé, de três, quatro anos, indo ao mar acompanhada de outras de oito anos, sem adulto e sem medo".

A chuva representa para os índios fartura espiritual. O tempo do plantio, da renovação da natureza, das frutas, dos legumes. "E de uma série de plantas medicinais que também nascem na época das chuvas, e não em outras épocas", lembra Babi.

Dessa forma, quando o índio do sertão vê bonito pra chover, mirou, além das nuvens, abaixo e ao redor.

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