Reportagem A arte além da estética

Musicoterapia se difunde e ganha outros espaços

00:00 · 12.05.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

A popularidade da música no cenário das artes no Brasil e pelo mundo facilita a inserção da linguagem em áreas distintas. A musicoterapia começou a ser difundida no País em meados da década de 1960 e hoje é uma das possibilidades mais conhecidas de se tratar pacientes no campo da arteterapia, da terapia ocupacional e até em ambientes - para além da área de saúde - como as escolas. Basicamente, a ocupação se trata do uso da música e dos sons para finalidades terapêuticas (cura e/ou desenvolvimento do indivíduo).

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O educador musical e musicoterapeuta Rodrigo Félix, 31 anos, incorporou a musicoterapia ao seu trabalho há três anos, após se especializar na área pela Faculdade Padre Dourado. Profissional atuante em diversas escolas de Fortaleza, ele trabalha na escola Casulo (especializada na pedagogia Montessori) com enfoque terapêutico e na musicalização das crianças.

"A musicoterapia dentro da escola é um braço. A musicoterapia vai pro ambiente organizacional, hospitalar, clínico, social, e até forense", situa. Rodrigo coloca que, dentro do viés educacional, a atividade trabalha com a prevenção. Para ele, o musicoterapeuta precisa ter um olhar para a música não só nas perspectivas estética e de ensino do conteúdo musical, mas saber como usar a linguagem artística para a ajudar as crianças a adquirir habilidades motoras e sociais.

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O musicoterapeuta Rodrigo Félix: atividade investe no desenvolvimento infantil fotos: Fabiane de Paula

A diferença, para a musicalização comum, é que a musicoterapia utiliza a arte como um recurso para se atingir um objetivo que não é musical. "Por exemplo, uma atividade que trabalha com ritmo, ensina que além da criança aprender a fazer um compasso 2x4, isso trabalha seu desenvolvimento motor", observa Rodrigo Félix.

Licenciado em Música pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), Rodrigo conta que seu olhar sobre a música mudou bastante, depois de se especializar em musicoterapia. "A tua vida dá uma reviravolta, você passa a ter um olhar mesmo de cuidador. De utilizar a música, esse bem precioso que a humanidade tem, para tratar o outro", destaca.

Antes de se tornar musicoterapeuta, Rodrigo Félix já trabalhava em escolas, desde 2005. Com a experiência, ele anota como a música tem apelo com as crianças, auxiliando o desenvolvimento delas, durante a fase da gestação e da primeira infância (de zero a seis anos de idade). "São crianças que ainda estão no processo de desenvolvimento pleno, né? O que vai ser interessante pra criança nesse contexto é vivenciar esse ambiente sonoro e musical. Então, trabalho com avaliações, de como as crianças evoluem nessa perspectiva", revela o musicoterapeuta.

ISO

Rodrigo situa que, para tratar os pacientes, o musicoterapeuta trabalha com o ISO (uma "identidade sonora"). Ele enfatiza como o ser humano passa a perceber estímulos sonoros desde a gestação e, a partir dessa percepção, já passa a desenvolver um ISO.

O conceito evidencia a abrangência da musicoterapia, no sentido de haver atendimentos para grupo de bebês (no fortalecimento de vínculo entre a mãe e o recém-nascido, por exemplo) e, independente da faixa etária, sessões individuais e em grupo.

Indagado sobre qual seria a diferença do atendimento individual para o coletivo, Rodrigo Félix observa que depende também da questão terapêutica do paciente. "Eu vou conhecer aquele indivíduo e ver as necessidades que ele tem. Dentro do autismo, por exemplo, a criança tem uma dificuldade muito grande de interação social, uma dificuldade motora", identifica.

N'outra direção, Rodrigo explica que "num trabalho grupal, (percebo que) geralmente as cantigas do nosso cotidiano estão (inseridas) no arquétipo das crianças, como o 'Pintinho Amarelinho', o 'Parabéns pra você', e isso ajuda a trabalhar os objetivos do grupo", complementa.

Espaço

Questionado como vê o espaço que há para a musicoterapia no contexto da arteterapia (e sua prática, também, a partir das artes visuais, dança, literatura), Rodrigo Félix observa que a área ainda precisa de muita divulgação, mas não há o que se provar em termos de eficácia.

"A música, no senso comum, é vista como algo agradável, né? Num simpósio que participei recentemente, um determinado neurologista colocou a musicoterapia dentro de uma terapia de baixo risco, mas com poucas evidências científicas. Ele disse que o maior risco era que a criança poderia sair cantando Pablo Vittar (risos)", expõe.

Rodrigo pondera que "ele está certo, que tem poucas evidências (científicas). Mas ele erra quando diz que a criança tem esse 'risco', porque um estímulo sonoro que não é bom para um indivíduo, pode ser bom para o outro".

Cérebro

O musicoterapeuta observa que o cérebro de alguém que toca um instrumento musical, sobretudo desde o período da primeira infância, passa por uma "explosão" de performance neurológica. "(Nesse sentido) é incrível você observar um trabalho de neuroimagem. Estudos vão dizer que o músculo caloso, que faz a junção dos dois hemisférios cerebrais, é mais desenvolvido nos músicos", detalha Rodrigo.

Ele coloca que quanto mais cedo uma criança for inserida no ambiente musical, "isso vai contribuir de uma forma sem precedentes pra ajudar em outras áreas da vida das crianças. Nosso objetivo não é transformá-los em músicos, mas (a atividade) é preponderante para o desenvolvimento delas", complementa.

Fique por dentro

Percursos Urbanos do dia 12 trata do tema

O programa Percursos Urbanos do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB) pauta a musicoterapia neste sábado (12). Com percurso mediado pela cantora, compositora e instrumentista Bárbara Sena, um ônibus partirá do CCBNB, às 15h, e vai levar os participantes para o Parque Adahil Barreto (São João do Tauape). No local, a mediadora conduzirá uma oficina ao ar livre, envolvendo o grupo no contato com a música e, especificamente, com o canto. Bárbara é pesquisadora sobre a sociabilidade na música. Uma de suas reflexões aborda a linguagem artística como solução terapêutica frente a transtornos psíquicos, a exemplo da depressão e, num quadro mais grave, da esquizofrenia. O público interessado em participar do percurso deve realizar inscrição prévia através do link tinyurl.Com/percursosurbanos ou diretamente na recepção do CCBNB (Rua Conde d`Eu, 560, Centro). As vagas são gratuitas, mas limitadas.

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