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'Mulheres da vida' com mais de 40 anos revelam suas histórias

Com exercício intenso de observação, audição e emoção, encontramos, em cenários decadentes, prostitutas de rostos e corpos castigados pelo tempo

00:00 · 30.06.2018 / atualizado às 02:19 por Textos: Cristina Pioner * / Ilustrações: Lincoln Souza

A cintura? Já era. A pele? Perdeu o viço. Os cabelos? Branquearam, mas nada que uma tinta ordinária não resolva o problema. Os dentes? Alguns já se foram. O coração? Ainda bate forte por um amor verdadeiro. Apesar de todas as perdas somadas ao longo do tempo, as "mulheres da vida" que já passaram dos 40 anos apontam suas vantagens: a "experiência" e o "fogo" que permanece aceso. A maioria delas, contudo, continua solitária na multidão das ruas e invisível à sociedade.

Para produzir este Doc "Na vida, após os 40", percorremos alguns pontos do Centro de Fortaleza, bem como a Praça da Lagoinha, a Praça José de Alencar, e mais dois endereços de prostituição no entorno do Passeio Público.

Neles, o cenário é decadente, com mulheres de rostos e corpos cansados, castigados pelo tempo e pelo uso de bebidas alcoólicas, cigarro e, às vezes, até drogas. Os valores dos programas variam de R$ 30,00 a 50,00 (por uma hora).

Próximo dali, mulheres ainda jovens e em plena forma faziam strip-tease num espetáculo repleto de sensualidade, assistidas por homens de diversas idades que lotavam o bar/boate, visitado pela reportagem numa tarde de sábado. O ambiente climatizado, com seguranças na porta, garantia conforto e proteção, diferente do que ocorre com a prostituição nas esquinas e praças.

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Nosso foco, no entanto, são as profissionais do sexo, acima de 40 anos, que enfrentam diariamente a vulnerabilidade das ruas. Nas abordagens, nunca nos identificamos como jornalistas, apenas como pesquisadores sobre a prostituição. Dessa forma, trocamos as ferramentas básicas da reportagem (bloco de anotações, caneta, gravador, celular e máquina fotográfica) por um exercício intenso de observação, audição e emoção.

E, assim, conquistamos a confiança de Maria Bonita, Simone, Regina e Rita (nomes fictícios), com idades entre 54 e 62 anos, que nos revelaram histórias repletas de dramas e solidão.

São essas "mulheres da vida", com mais de 40 anos, que também inspiraram Wellington Rodrigues na produção da peça "Velha Moça", escrita, dirigida e encenada pelo próprio artista por meio da Cia Teatral Moreira Campos.

No corpo da personagem Benedita, uma jovem do interior do Ceará que vem para a Capital onde vira uma prostituta e envelhece na zona, o artista traz à tona dramas reais como traições, drogas, abandono, doenças, violência, abuso policial, preconceito, paixões e processo de envelhecimento.

O monólogo dramático tem pitadas de humor e trilha sonora de sofrência e breguice. "Tento mostrar o lado humanizado das prostitutas, afinal, elas também sentem, sofrem, festejam, respeitam, se apaixonam...".

Todos os assuntos abordados por Wellington continuam ignorados pela sociedade que assiste passivamente à ausência de políticas públicas voltadas para este público que trabalha sem qualquer direito. Desde 2012, tramita o projeto de Lei Gabriela Leite, representado pelo deputado federal do PSOL (RJ), Jean Wyllys, cuja proposta regulariza a atividade dos profissionais do sexo, homens ou mulheres acima de 18 anos de idade.

*Colaborou Ideídes Guedes

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