Reportagem Paixão

Mulheres conquistam, aos poucos, espaços na vaquejada

As irmãs Roberta, Natália e Regilane, e a filha da úlima, Yara, mantêm paixão por vaquejadas
00:00 · 19.05.2018

Quatro mulheres e uma paixão: a vida de vaqueira. As irmãs Regilane, 40; Roberta, 32; e Natália Gonçalves, 29, nutrem esse sentimento por cavalos, que vem de família e atravessa gerações. Agora, a estudante Yara Lima, 16, filha da irmã mais velha, leva adiante a coragem e o sonho de também participar de vaquejadas.

Pode ser atrevimento falar que tudo começou com o patriarca da família, porque a vida de montaria é uma tradição, mas Antônio Gonçalves, o popular "Bigode de Ouro", inspirou as filhas e sua neta a gostarem do esporte e das cavalgadas.

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"Tudo começou ainda na infância. Meu pai sempre criou, negociou animal. E até hoje estamos no ramo: vende, compra troca e anda a cavalo", explica a filha mais velha, Regilane, que trabalha como vaqueira dando banho, comida e aplicando injeção nos animais.

"Cheguei a ganhar mixaria, R$ 80 por mês. Hoje faço tudo isso nos meus", explica. Ela dá conta de seis cavalos em casa. Enquanto Roberta reforça que o gosto por vaquejada veio do berço. "Eu já nasci gostando. Com dois a três anos, pai já andava comigo. Filha de vaqueiro, vaqueira é", garante. A caçula, Natália, começou um pouco mais tarde, também com o pai, "desde os cinco anos. Caia e subia de novo", revela.

Como paixão, mas também, meio transporte, Regilane levava seus filhos para a escola desde pequenos, do Sítio São Bento até o bairro São Miguel, onde estudavam, percorrendo 5Km até a sede do Município, indo e voltando, todos os dias. Foi nessas cavalgadas, entre quedas e histórias, que as crianças pegaram gosto por montaria.

"Era um na frente e outro atrás". Uma delas era Yara, a caçula, hoje com 16 anos, que acompanha a mãe por onde anda. "Sempre nós andamos juntas. É filha, mãe e amiga", ressalta a vaqueira. O filho mais velho também se tornou vaqueiro e começou a correr nas pistas e isso despertou a jovem, até o dia que disse: "Mãe, eu quero aprender a derrubar boi".

Yara teve que perder o medo de cavalo e isso veio acontecer aos 13 anos, quando percorreu sua primeira cavalgada para a Missa da Santa Cruz da Baixa Rasa. Um ano depois, ganhou o primeiro cavalo do seu pai, o Louro, que até hoje a acompanha para todos os lugares.

"Meu sonho é estar correndo, praticando o esporte. Ter força no punho e fé em Deus que vai dar certo. Já levei muitas quedas, mas só aprende caindo, né? Cai, bate a poeira e monta de novo", projeta a menina. Hoje cursando o 2º Ano do Ensino Médio, ela já imagina um futuro ao lado dos bichos, seja na pista ou trabalhando, como Médica Veterinária.

Tabu

Quatro mulheres em cima de cavalos ainda atraem olhares de curiosos, mas isso tem sido cada vez mais comum, tanto nas cavalgadas, quanto nas pistas.

Mesmo assim, ainda há uma disparidade na premiação das vaquejadas Brasil afora. A maior premiação, na categoria feminina, no Ceará, por exemplo, acontece na Vaquejada do Complexo Franskim Pedro, em Maranguape, que oferece R$ 10 mil. No entanto, no mês de outubro, este mesmo evento deve premiar até R$ 350 mil na categoria masculina. Algumas das competições ainda garantem, para as vaqueiras, inscrições gratuitas, mas valores bem abaixo.

No entanto, muitas vezes, as atletas ficam impossibilitadas de participar das competições por causa do preço das inscrições, somado às despesas de viagem e também o aluguel das baias. A premiação chega a não compensar, mesmo sendo campeã. Isso acontece, porque, muitas das competidoras não se dedicam somente ao esporte, pois trabalham ou estudam.

Por outro lado, para tentar incentivar a prática entre as mulheres, foi criada, em 2012, a Associação Brasileira de Vaqueiras (Abrava), entidade que as auxilia nas provas oficiais e realiza as suas próprias competições. Seus principais campeonatos acontecem em oito etapas, em Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Ceará e Pará.

Mesmo sendo difícil e enfrentando um certo preconceito, muitas vaqueiras têm tido sucesso e conquistado muitos fãs. É o caso da tricampeã brasileira de vaquejada Marcela Noleto, que possui mais de 46 mil seguidores no seu perfil no Instagram. Além dela, outra vaqueira muito popular nesta rede social é Sara Nogueira, que possui mais de 67 mil seguidores. As duas compartilham fotos e vídeos de suas apresentações.

No dia a dia, Regilane afirma que é tão raro ver uma mulher andar na rua a cavalo, que as pessoas "ficam admirando", conta. Às vezes, recebem uma cantada ou um elogio. "Isso é comum, a gente leva na esportiva", admite. Já Yara, acredita que os homens pensam que o esporte é só para eles, porque ainda não são muitas garotas que andam. "A mulher também pode entrar no ritmo", justifica. Enquanto Roberta acredita que atualmente tem um número significativo de mulheres disputando vaquejada, mas muitas por diversão. Ela, inclusive, está montando uma pista na sua casa, no Sítio Bebida Nova, só para treinar e começar a disputar.

"Na Expocrato, teve bolão que mulher ganhou. Estão ampliando. Se olhar direitinho, estão valorizando. O público valoriza. Geralmente, mulher era só dona de casa, só na cozinha, hoje é empresária, policial, advogada, vaqueira. Mulher não tem força? Mas não é força, é o jeito", garante Regilane, que incentiva sua filha Yara para treinar.

Cavalgada

As três irmãs, junto com Yara e seus familiares, mantém a tradição de participar de todas as cavalgadas que acontecem na região. "Já fui para o Horto, Baixa Rasa, Barro Branco", descreve Natália. A caçula garante que lá não falta cavalo. Elas se juntam a dezenas de vaqueiros que, por fé ou descontração, percorrem vários quilômetros montados.

"É uma maravilha. A gente compra roupas das equipes, se prepara. É um prazer estar naquela multidão", conta Regilane. No trajeto até a Baixa Rasa, no último dia 25, Roberta fez questão se vestir combinando, tanto a sua roupa, quanto a de sua égua. Chapéu, peitoral e as luvas, tudo rosa. "É um momento de se arrumar bem", argumenta a vaqueira.

Paixão

"Às vezes, tô em casa, chorando, agoniada, daí vou dar uma volta a cavalo. Naquele galope, o vento vai deixando tudo para traz, a raiva vai ficando", descreve Regilane. As quatro têm poucas palavras para explicar a paixão pela vaquejada e cavalgada. Mas todas garantem que "Vai do sangue". Por isso, a filha de seis anos de Roberta ganhou uma festa de aniversário dedicada ao esporte. "Todos vestidos de vaqueira", lembra. A pequena tem sela, luva, espora, botas, calça de couro e já monta. O caçula, de apenas 11 meses, já tem seus primeiros contatos com os bichos. "Eu acho que vão levar para frente", completa a vaqueira.

Natália acredita que a tradição nunca morrerá. Por isso, tem todo cuidado com o cavalo da família para conservá-lo. "Não pode deixar no sol, andar na lama, tem que dar banho", explica a caçula. Com comida, Roberta, por exemplo, gasta em torno de R$ 600 por mês, mas também compra xampu e creme para sua égua, que também possui duas mantas para usar "dependendo da ocasião", conta.

Apesar de desejar competir e cuidar, diariamente do cavalo, Yara organiza bem sua rotina. "Dou a ração, boto água, e, quando tenho um tempinho, ando, porque primeiro os estudos, né?", admite.

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