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Muito além da recordação

Lourdes de Almeida trabalha com artesanato no Mercado Central. Possui mais de 200 opções de lembrancinhas, mas aprecia aquelas que simbolizam a cultura do Ceará, a exemplo da rendeira e do pescador
00:00 · 21.01.2017

Na primeira semana do ano de 2017, apesar da crise econômica brasileira, o Mercado Central de Fortaleza fervilha de turistas vindos de vários cantos do País e do exterior. Desde o pavilhão térreo, onde fica o estacionamento, já podem ser encontrados vários tipos de arte e artesanato. Um deles chama a atenção pela representatividade do Ceará: as telas com jangadas pintadas à mão. Algumas recebem, além da tinta, tecidos que dão forma e corpo às velas, proporcionando efeito tridimensional.

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Os trabalhos levam a assinatura de três artistas da mesma família, mas quem cuida da venda das peças é Yasmim Moreira. Segundo a jovem, os turistas apreciam muito este tipo de arte por representar paisagens características do imenso litoral cearense. A principal vantagem é que as telas, apesar de serem de tamanhos grandes, são versáteis quando estão fora da moldura. "Neste caso, elas não pesam, não fazem volume e ainda podem ser enroladas de forma que não vão quebrar o tecido até chegar em casa", explica Yasmim.

Imprimir a identidade

O mesmo não ocorre com as jangadas comercializadas por Lourdes de Almeida. Feitas de madeira com vela de tecido, são verdadeiras reproduções dos modelos usados por pescadores cearenses. Entretanto, exigem mais cuidado na hora de transportar, tamanha a delicadeza. Mas isto não é problema. A comerciante sabe como embalar e proteger a peça até chegar ao seu destino.

Além de vender, Lourdes é uma apreciadora do artesanato que imprime as identidades culturais do Ceará, a exemplo das jangadas em madeira produzidas por um artesão oriundo da periferia de Fortaleza.

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Angélica Monteiro aposta na arte e no artesanato assinado por artistas populares

Há sete anos no Mercado Central, Lourdes já perdeu as contas dos itens que dispõe em seu pequeno espaço de 2m x 2m. "Devo ter umas 200 opções. Quanto mais variedade, melhor para vender". Dentre os objetos artesanais expostos, chamam a atenção o boneco pescador que carrega nos ombros piabinhas de verdade, bem como a rendeira com a almofada onde tece um pequeno exemplar da renda de bilro.

Lourdes costuma, ainda, pirografar as peças com os nomes de Ceará ou Fortaleza, como forma de autenticar a origem dos produtos. "Eu já tenho algumas personalizadas, mas prefiro fazer na hora, de acordo com o desejo do cliente", explica.

No andar superior do Mercado Central, a loja de Angélica Monteiro é o paraíso das identidades culturais do Ceará e de outros estados do Nordeste. Logo na entrada, expõe produtos mais populares e de preços acessíveis, a exemplo de chaveiros, ímãs, canetas e xícaras. Basta dar dois passos ao fundo do estabelecimento para se deparar com um acervo de arte popular que enche os olhos de alegria.

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Francisco Nicodemos vende castanhas, cachaçã e rapadura no Mercado Central 

São esculturas em madeira e cerâmica, santos, bonecas de barro, sandálias e bolsas de couro, ambas assinadas pelo mestre artesão Espedito Seleiro, natural de Nova Olinda, no Cariri, e reconhecido no Brasil inteiro. Outros artesãos e artistas do Nordeste também figuram na loja de Angélica, confirmando a beleza e a riqueza cultural da região.

Mesmo com a variedade de opções, o turista, em geral, decide por peças que variam de R$ 5,00 a R$15,00. "Eles querem levar uma lembrancinha e já têm o valor definido, por isto preciso colocar à venda produtos mais acessíveis, muitas vezes feitos em série", compara.

Segundo Angélica, as pessoas se interessam por arte popular, mas poucas se dispõem a pagar o preço, dificultando, assim, a disseminação da cultura do povo nordestino. No entanto, ela não desanima, pois acredita na importância da arte e do artesanato, e reconhece que está numa das principais vitrines de Fortaleza.

Castanha de ouro

Afora a arte e o artesanato, o Ceará ainda tem um gostinho especial para colocar na bagagem. Graças a este sabor singular, Francisco Nicodemos mudou de ramo, deixando de lado o ofício de ourives que exercia desde o antigo Mercado Central. Hoje, vende algo a preço de ouro: a castanha de caju, que custa entre R$ 40,00 e R$ 60,00, o quilo.

Em sua loja, Francisco também comercializa cajuína, rapadura, doces diversos, mel, licores e as cachaças com 24 rótulos divertidos. "Aqui oferecemos diversos kits de doces, bebidas ou pimentas. Todas as embalagens são feitas de forma artesanal com palha trançada, o que agrada muito ao turista", completa.

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