Reportagem Novos horários

Mudança requer ousadia e gestão mais eficiente

Além do Centro de Fortaleza, os lojistas destacam o potencial de outros bairros da cidade, onde o varejo também tem vida própria e pode ser beneficiado com os novos horários, como Messejana e Parangaba
00:00 · 16.09.2017 por Raone Saraiva/ Bruno Cabral - Repórteres

Consolidar novos horários de funcionamento do comércio de Fortaleza não será um desafio fácil para os lojistas. O setor, considerado a grande alavanca do Produto Interno Brasileiro (PIB) por envolver diversas cadeias produtivas, vem passando por transformações em razão das atuais demandas do consumidor, cada vez mais exigente. Não existe fórmula mágica para fazer a mudança vingar na cidade, mas há possíveis caminhos a fim de colocar o varejo fortalezense em um novo patamar.

Nesse contexto, apostar na mudança e aprimorar a gestão de pessoas e processos internos será fundamental para os lojistas que não querem ficar para trás. Isso porque uma sólida política nessa área garante a integração de equipes, sistemas e operações para oferecer ao cliente não só um melhor produto ou um serviço mais eficiente, mas, sobretudo, uma experiência de compra diferenciada. Integrar e interagir são palavras de ordem da vez no varejo, pois ajudam os empresários a otimizar resultados e, consequentemente, dar sustentabilidade e crescimento a seus negócios.

"Neste momento de retomada do crescimento da economia no Brasil, é fundamental termos a liberdade para abrir nossas lojas em novos horários. Mas se quisermos prosperar, temos que rever nossos processos e apostar mais ainda na capacitação da nossa mão de obra. Além da melhor relação custo-benefício, com diferencial no preço e prazo, temos que atrair o consumidor pela excelência no atendimento", observa o presidente do Sindicato do Comércio Varejista e Lojista de Fortaleza (Sindilojas), Cid Alves.

Vendas no Natal

Com a aprovação na Câmara Municipal do projeto de lei que permite a abertura do comércio da Capital em horários diferenciados antes de novembro, Alves acredita que os varejistas terão um Natal surpreendente em termos de vendas. "Com as lojas do Centro abrindo de 8 até 22 horas, por exemplo, teremos um crescimento de, no mínimo, 5% no período natalino, o que já vai ser de bom tamanho para nós no atual momento econômico", afirma. Na opinião dele, os novos horários podem incrementar em até 30% as contratações, que também seriam mais flexíveis com a Reforma Trabalhista, em vigor a partir de novembro.

Ele destaca que será o momento de grande parte dos lojistas da Capital experimentar a mudança no horário de abertura das lojas durante a época do Natal, considerada a melhor data para o varejo em relação a faturamento. "Seria o nosso primeiro teste, essencial para pensarmos em estratégias e começarmos uma mudança definitiva nos horários, algo que será gradativo. Mais o importante é que teremos liberdade para funcionar até mais tarde. Não há sentido, por exemplo, estarmos subordinados a uma lei (aprovada na antiga gestão municipal) que obriga o fechamento do comércio de rua às 16 horas do sábado", declara.

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Bairros

Para que a mudança aconteça de modo sustentável, além de melhorar a gestão de pessoas e processos, Alves lembra que os lojistas precisam olhar para a relação custo-benefício em estender o horário de funcionamento de seus negócios. Para ele, alguns segmentos do varejo, como lojas de roupas, calçados e perfumes, têm mais potencial que outros para se adequarem. "Temos que nos adaptar às necessidades do cliente. Nas vésperas do Dia da Criança, quando a demanda por brinquedos é maior, as lojas do segmento poderão abrir até mais tarde", complementa.

Além do Centro, ele ainda chama a atenção para o potencial de outros bairros de Fortaleza onde o comércio "tem vida própria", como Messejana e Parangaba, "logradouros que poderão ser muito beneficiados".

Quanto à liberdade para o Centro funcionar 24 horas, Cid Alves diz que, mesmo existindo demanda por conta do "enorme potencial turístico de Fortaleza", o que poderia contribuir para atrair também o consumidor local, "infelizmente a insegurança afeta a decisão dos empresários e dos clientes". "Por isso, neste momento, preferimos um horário que vá de 8 às 22 horas, sem esquecer que poderemos funcionar também aos domingos e feriados municipais".

Crítica

O presidente do Sindicato dos Comerciários de Fortaleza, Francisco Gonçalves Monteiro, critica a proposta de mudança no horário de funcionamento do comércio de Fortaleza, dizendo que a cidade não está preparada para essa transformação que, segundo ele, envolve 150 mil trabalhadores. "Temos que tentar manter a atual legislação, pois esse projeto, ao facultar ao lojista a abertura dos estabelecimentos em novos horários, pode prejudicar o trabalhador, explorando mais a mão de obra", destaca.

Além disso, o líder classista entende que, mesmo o varejo fortalezense funcionando em novos horários, não haverá demanda para produtos e serviços. "A cidade deixa muito a desejar em termos de segurança e infraestrutura. Não vejo nada que dê sustentabilidade a esse projeto em Fortaleza", avalia.

Em relação ao Centro da Capital, ele avalia que a atual gestão municipal, em parceria com o governo estadual, deveria trabalhar para revitalizar o bairro e, só depois, pensar em viabilizar a abertura do comércio em horários diferenciados.

"A Prefeitura de Fortaleza só está vendo o lado do empresário. E o trabalhador? Como é também que o consumidor vai querer comprar no Centro se, depois das 18 horas, a gente só vê mendigos e usuários de drogas?", questiona Gonçalves.

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Foco deve ser no diferencial e na qualidade do atendimento

Áreas urbanas devem ser vistas como territórios de venda, com oportunidades a qualquer momento. A perspectiva de estender expedientes comerciais em Fortaleza voltados à geração de empregos, renda e maior intensidade no turismo, é sinônimo de ideia proveitosa, especialmente, no atual momento econômico. No âmbito municipal, a criação de espaços geográficos com benefícios à atuação empresarial, por si só, não garante sucesso na empreitada. À noite, as pessoas têm maior receio diante da violência, o que requer a oferta de uma estrutura para assegurar o direito de ir e vir do cidadão.

Na esfera empresarial, é importante saber que os clientes do comércio noturno apresentam perfis marcantes, com maior consciência crítica, preferindo este horário pela impossibilidade de realizarem compras durante o dia, em virtude de outros compromissos. São executivos e empresários, turistas, que durante o dia visitam outros locais da cidade, idosos, pela oportunidade de saírem de casa sob menor stress, e jovens que se socializam em bares e restaurantes, por exemplo.

A equipe de funcionários deve estar apta a uma postura focada no atendimento diferenciado a públicos distintos daqueles do tradicional horário comercial. Pessoas mais exigentes em qualidade na recepção, demonstração e venda, obrigam a capacitação dos recursos humanos em técnicas de abordagem e saber técnico. É fundamental aplicar compostos de marketing, devidamente alinhados no propósito de despertar distinção de uma loja em seu ambiente de atuação.

Sabe-se que 83% da percepção humana é visual e 11% é auditiva. Assim, técnicas focadas na captação da atenção dos transeuntes exercem importante papel. Neste caso, é recomendado o uso de recursos audiovisuais. Merchandising, adaptado ao horário, é excelente aliado no processo de decisão de compra por impulso. Espaços internos organizados dão maior visibilidade e facilitam a circulação, influenciando positivamente no tempo de permanência dos clientes em uma loja.

Wilson Linz
Administrador de empresas e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor)

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