Reportagem A força da devoção

Missionário de Deus

Manoel Rezador recebe, com afeição, visitantes que buscam por orações (Fotos: Fernanda Siebra)
00:00 · 18.08.2018 / atualizado às 15:59 · 19.08.2018 por Germana Cabral - Editora

— Ô de casa! Grito do lado de fora de uma residência simples, com porta e janela, na ladeira que dá acesso ao Horto do Padre Cícero. Da rua mesmo, espio o tradicional altar montado em uma das paredes da sala. A passos lentos, o senhor de cabelos brancos, vestindo calça comprida bege e camiseta verde, com casaco vermelho sobreposto e toalhinha no pescoço, atende-nos de maneira acolhedora.

Convida para entrar, mesmo sem as devidas apresentações. Manoel Rezador está afeiçoado a visitas. Afinal, abre sempre as portas para quem busca oração. Originários de vários cantos do Brasil, os fiéis surgem solitários ou em grupos. Chegou a receber cerca de 30 de uma só vez.

Na mesma sala, onde acolhe as pessoas, pediu-nos para sentarmos. "Meu amor, o que vocês querem?" Ao ouvir que era entrevista, disse que estava ocupado, fazendo o almoço, mas atenderia. Se fosse reza, teríamos de voltar outro dia, pois não estávamos vestidas adequadamente para a bênção. Eu, de calça jeans e camiseta; Fernanda, de vestido sem mangas e comprimento acima do joelho: "Pra rezar, mulher tem de vir vestida de mulher, mas meia mulher, meio homem, não. Tem de vir composta no que merece, direitinho mesmo, porque senão não pega a reza, e se pegar, não vai servir, vai pensar que é homem", justifica gentilmente.

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Prometemos ser breves. Ele, contudo, não tinha pressa. Manoel Joaquim de Oliveira, 83 anos, foi andarilho até os 30. Nascido em Pernambuco, estabeleceu morada em Juazeiro, onde comprou uma casa, "desde o tempo que a moeda virou Cruzeiro", porém não recorda o ano.

Infância

Explica que vai "começar do começo", da época que, aos seis anos, fugiu para o mato a fim de escapar do pai violento e se descobriu missionário de Deus para ajudar a curar as pessoas, seja de doenças físicas ou espirituais.

"Eu já curava o povo desde criança, rezando escondido do meu pai no mato, eu tinha um pé de pau, varria embaixo dele como se fosse uma casa. Coloquei umas pedras pro povo se sentar. Fiquei no mato até 16 anos, só ía em casa ver minha mãe quando meu pai saía. Meu pai queria me matar desde que nasci", diz Manoel Rezador.

O conflito com o pai é assunto recorrente durante toda a entrevista. "Ele enciumava deu mais minha mãe, era agressivo demais, queria ir brigar até com Lampião. (...) Depois de morto, já veio me agredir aqui".

O tom agressivo vai esmaecendo quando passa a falar sobre o dom da oração. "Minha filha, isso aí é pra quem entende, como é que diz, tem lógica, pra reconhecer que nem uma adivinhação. Vivo, agora, só benzendo o povo".

O rezador esclarece ser um intermediário da fé. "Peço a Deus, mas não sou Deus". Para o ritual, sempre em pé e a pessoa sentada, veste-se com bata branca, semelhante a um jaleco. "Eu faço um beneficiozinho para vocês se defenderem. Mas eu não sou Nosso Senhor, não. Nosso Senhor é que dá a bênção, Nosso Senhor é que tira o pecado".

Na época de romarias, a casa fica lotada, dobra a procura. Nem sabe quantos atende por dia. "Eu não faço conta. Às vezes, chega de 5, às vezes chega de 4, 10. Aí é criança, gente doente, gente que tá pra se matar".

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Certa vez, surgiu na sua porta um rapaz com a faca na mão, querendo ceifar a própria vida. Mandou entrar, tentando tomar-lhe a arma. "Ficou sem querer entrar, endemoniado. Mas Deus me dá coragem e força pra enfrentar, e ele me obedeceu. Jogue sua coisa pra aculá, ele joga.Agora, sente-se aqui, ele senta, aí fica me olhando duro. Você não vai me engolir com seus olhos, diga o que você quer, nada! Aí eu rezo, vai se embora, às vezes é gente que bota coisa pra ficar agressivo".

Até quando?

Sempre conciliando missão e afazeres domésticos, apenas recentemente deixou de atender à noite e aos domingos, reservados para ir à missa. "A noite é pro meu descanso. Só atendo até as 6 horas, já trabalho demais, tô com idade que já era pra estar sossegado, mas não tenho tempo". Mesmo cansado, diz que manterá esse ritmo até Deus quiser: "eu sei que quando fechar os olhos, não faço mais" (risos).

As portas, segundo seu Manoel, estão abertas a todos sem discriminação. Quando não atende pessoalmente, levam o nome do necessitado de oração ou pedem até por telefone. "Aí eu digo, mas gente só tem eu que rezo no mundo?! E respondem: 'tem, mas que nem o senhor, não! E eu respondo, 'tem minha filha, que é isso'. Minha bênção já tá pra lá dos Estados Unidos".

Embora viva somente com a renda da aposentadoria, Manoel Rezador jura nunca ter cobrado a ninguém. "Quem tiver conhecimento e souber quanto custa a pessoa lutar com uma visão desta, veja o merecimento e o que eu mereço. Não reclamo. O que me der, eu recebo. É feijão, é farinha, é carne, é arroz, é dinheiro, é boi, é cavalo selado pra eu andar, pode trazer que eu tô pronto (risos). E se também não trouxer nada, não me incomodo. Faço a mesma história".

Para quem chega, seu Manoel avisa logo: "A riqueza está na casa de vocês, aqui vocês estão na casa de homem rico de natureza, rico de bondade, rico de confiança, rico de esperança. Então, agora se quiserem seguir minha estrada, me acompanhe. Se não seguir, não venham mais". E solta mais uma gargalhada.

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