Reportagem Templos da resistência

Menezes Pimentel por quem cuida

Após o retorno da biblioteca para o edifício original, Governo estuda a possibilidade de construir uma espécie de polo cultural, na área compreendida entre o Centro de Fortaleza e Praia de Iracema em grande polo cultural Fotos: Thiago Gadelha
00:00 · 19.08.2017 por Antonio Laudenir - Repórter

Walter José ocupa uma mesa no canto da sala destinada a "Obras do Ceará". Fones no ouvido, cabeça baixa em direção a uma prancheta com desenhos, tem próximo de si um volumoso livro sobre a internet. A manhã segue com o procedimento familiar ao garoto de 18 anos. Sai de casa na região da Sapiranga, segue para o Espaço Estação, localizado no Centro (onde está provisoriamente a Biblioteca Governador Menezes Pimentel) e de lá segue para o estágio.

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Inicialmente nervoso com a conversa fiada do repórter, o figura vai dividindo pequenos trechos desse dia a dia. Os livros, explica com o sorriso, são a ocupação necessária antes de entrar naquilo que é sua estreia no mercado de trabalho. O curso de Química no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) nem sempre guia as leituras escolhidas. "Pesquiso de tudo mesmo", aponta.

Outro aspecto perpassa pela diferença entre Walter e a geração em que está inserido. O cotidiano de dedicação aos livros causa curiosidade nos colegas. "Sou considerado até maluco por causa disso. Falam que sou esquisito, que não costumo mais sair de casa como antigamente, esse tipo de coisa". "As pessoas têm medo dessa questão do livro?", indaga o repórter. "Talvez seja um ponto de vista diferente, só isso", esclarece com serenidade invejável.

Com oito anos de serviços destinados ao setor de obras em braile, Tamile Machado conversa entusiasmadamente sobre os frequentadores do departamento onde atua - tendo como companhia cerca de 2.500 volumes transcritos para o sistema de escrita tátil. Mesmo com o funcionamento parcial do equipamento, a funcionária comemora o momento na carreira.

"Como nosso público tem deficiência visual, o acesso torna-se mais fácil por conta da Praça que tem aqui em frente e pela quantidade de ônibus. Sentimos uma quantidade maior de usuários no nosso espaço. Temos um público bem fiel por conta da localização e com a mudança para o prédio reformado, espero que essa procura continue", defende.

personagens

Rotina

A conversa com Tamile conta com um observador atento. Júnior, também conhecido como "Guará" é deficiente visual e, religiosamente, defende a equipe da Biblioteca e frequenta a Menezes Pimentel há pelo menos 10 anos. Ao ser apresentado pela diretora da Biblioteca Pública do Estado, Enide Vidal, como "usuário" do espaço, ele corrige prontamente. "Usuário é uma palavra feia. Sou funcionário", adverte.

O antigo galpão da extinta Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), localizada ao lado da estação de trem João Felipe, no Centro, passou a abrigar 40% dos 132 mil títulos da Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel. Já são dois anos de atividades enquanto "Espaço Estação".

Nas palavras do Governador Camilo Santana, durante anúncio da (urgente) reforma do edifício situado ao lado do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o estabelecimento de parte do acervo no Centro de Fortaleza foi uma forma de manter o equipamento em contato com a população.

Estar cravada em um ponto pouco cuidado da capital trouxe outro panorama para a equipe responsável pela labuta da biblioteca. Foram necessários ajustes, explica Enide Vidal. Além das gritantes diferenças físicas entre os equipamentos, o novo endereço descortinou outras possibilidades de interação.

"Aqui nosso público mudou. Se antes eram frequentes os estudantes e pesquisadores, hoje percebemos o fluxo de donas de casa, pessoas em situação de rua, aposentados. Ter esses vários tipos de públicos fez com que pensássemos uma programação para eles", resgata a gestora.

Mesmo sem o anúncio oficial do fim das obras e a consequente mudança, percebe-se no cotidiano de frequentadores e equipe como aquele local ganhou relevância naquela região.

"Muitos chegam até a porta, perguntam sobre o que é aquele prédio. Quando sabem que é uma biblioteca perguntam se precisa pagar para entrar. Daí, entram e se acomodam. Mais do que nunca é perceptível como um ambiente desses pode mudar vidas", completa Enide Vidal.

Com o possível fim das atividades do "Espaço Estação", sobra a especulação de que um novo tipo de serviço tome conta do local. Existe o interesse do Governo em montar a Pinacoteca do Ceará no mesmo galpão da RFFSA. A proposta é que a área do Centro seja integrada à Praia de Iracema e se transforme em um grande polo cultural.

O prédio original da biblioteca recebeu reformas nas instalações hidráulicas, elétricas e estruturais e outra demanda dá conta de sua integração com o Centro Dragão do Mar. Até lá, fica o desejo de que histórias como a de Walter José, Tamiles Machado e Júnior, o "Guará" sejam cada vez contumazes. 

Mais informações:

Biblioteca Pública Menezes Pimentel - Espaço Estação

Rua 24 de maio, 60, Centro.
Aberta de segunda a sexta, das 8h às 18h; aos sábados das 8h às 17h.
Entrada franca.
Contato: (85) 3101.6799

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