Reportagem DOC

Memória viva e que resiste

00:00 · 05.08.2017 por João Bandeira Neto - Editor assistente

Futebol eficiente, disputado e popular. Essas características marcaram os jogadores que atuaram nas décadas de 50 e 60 no Estado. Com o esporte cada vez mais popular e querido pelas diferentes classes sociais, os clubes formaram elencos mais fortes e o futebol local teve um palco melhor e mais moderno para suas exibições: o recém-reformado Estádio Presidente Vargas.

> Jogadores Esquecidos
 
> Eles fundaram o futebol cearense
 
> Resenha das antigas: água no chopp do craque
 
> Décadas de raça e talento
 
> Resenha: esperteza que valeu o gol

Nessas décadas, a artilharia dos campeonatos era motivo de rivalidade entre os atletas do Ceará, Fortaleza e Ferroviário.

Craques como Pacoti, Haroldo Castelo Branco, Gildo, Luís Garapa, Mozart Gomes e Croinha ilustram a qualidade técnica que essa época representou no cenário local. O campeonato teve o privilégio de ter todos esses goleadores na sua história.

Um personagem dessa época ilustra como era prazeroso essa disputa. Com 24 gols marcados em uma única edição do campeonato, Francisco Nunes Rodrigues, o Pacoti, brilhou não apenas no cenário local mas teve seu talento reconhecido do Estádio do Maracanã aos gramados europeus.

Com uma memória precisa e risada fácil, Pacoti relembra o quanto era prazeroso as disputas entre os artilheiros. Nascido em Quixadá, o jogador chegou ao Ferroviário em 1955 para atuar pelos profissionais. Um ano depois, no estadual de 56, ele conseguiu a façanha de marcar 24 gols em um único certame.

"Essa foi uma época espetacular. Foi a era dos grandes goleadores. Nomes como Croinha, Ivan Carioca, Haroldo mostram o nível de disputa que existia. Atualmente, um atacante marca um gol em um jogo e só volta a fazer outro dois jogos depois. Na minha época era gol todo jogo. Eu olhava muito para a torcida e buscava inspiração. Naquele tempo havia uma amor profissional", conta Pacoti que atualmente tem 83 anos.

Essa ascensão meteórica lhe rendeu uma transferência para o Sport Recife. Em Pernambuco, sua carreira decolou mais ainda e ele tornou-se um dos maiores artilheiros daquele estado, com 36 gols em 18 jogos. Em 1958 foi a vez do talento cearense ir brilhar no principal palco esportivo do mundo: o Maracanã. Contratado pelo Vasco da Gama, Pacoti lembra que, quando chegou ao aeroporto, foi recebido por 11 fotógrafos, que queriam registrar a chegada dele no Rio.

"Cheguei no Vasco e assumi a titularidade em 1959. É muito marcante na minha memória jogar no Maracanã lotado com 160 mil torcedores em um Vasco e Flamengo", relembra.

Após dois anos no Vasco, foi a vez do atacante ser transferido para o Sporting de Lisboa, em Portugal. Mais uma vez protagonista, Pacoti disputou a artilharia do campeonato português com Eusébio, considerado um dos melhores jogadores do mundo.

Mesmo com pedidos para obter nacionalidade portuguesa, Pacoti resolveu voltar para o Brasil e, assim como planejou no início da carreira, o craque veio, em 1966, para encerrar sua carreira no Ferroviário.

"Eu sempre dizia que terminava a minha carreira aqui. Tudo que pedi, Deus me deu. Saí como profissional e voltei para parar no auge da minha carreira", conta com satisfação.

Saudosista pelo futebol jogado de antigamente, Pacoti relembra a rivalidade em clima amistoso que existia entre os craques da época. "Escutava dos marcadores provocações o jogo inteiro, quando a partida terminava e eu marcava dois ou três gols, respondia dizendo: agora leia o jornal amanhã que você vai ler os gols de hoje", rememora.

d

Faro de gol

31 gols no Estadual de 1962. Essa é a incrível marca de Haroldo Castelo Branco. Foi jogando pelo Fortaleza que Haroldo conseguiu esta marca no estadual de 1962. O ex-jogador atuou nas décadas de 1950 e de 1960 no futebol cearense nas equipes do Fortaleza, Ceará e Gentilândia.

Integrante da Seleção Cearense de 1962, que acabou na terceira colocação do campeonato nacional de seleções, perdendo a semifinal para o Rio de Janeiro, o craque teve sua carreira interrompida muito precocemente.

"O azar do Haroldo é que no auge da sua carreira como jogador houve uma briga entre torcedores e o jogador Willian Pontes. Por ser militar, assim como Willian, o Exército Brasileiro proibiu que seus oficiais jogassem futebol, encerrando precocemente sua trajetória no futebol. Tenho certeza que se ele tivesse seguido, ele iria para os melhores times do Rio de Janeiro", conta o jornalista Tom Barros, amigo pessoal de Haroldo. Jogando como volante, um dos pontos fortes era a boa chegada ao ataque.

"A equipe da Seleção Cearense de 1962 marcou a história. Era de encher os olhos ver Haroldo, Carlito, Gildo, Mozart e Baíbe em ação", relembra Tom Barros. Os craques que passaram por essa época deixaram ainda mais rica a história dos goleadores locais.

d

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.