Exemplos

Maternidade precoce atravessa gerações e deixa marcas semelhantes em jovens-mães

Laiana Alves tem 27 anos e dois filhos - Yana, de 9 anos e Ezequiel, de 7 anos, com o marido Cledson Morais Alves ( FOTOS: HELENE SANTOS )
00:00 · 28.07.2018 / atualizado às 09:27 por Thatiany Nascimento - Repórter
Michelly Xavier, hoje com 19 anos, ganhou Miguel aos 15. O segundo, Gabriel, tem um ano. Até hoje, ela namora o pai das crianças, Ricardo Pereira

As crianças cresceram em corpos que há poucos anos também eram infantis. Barrigas aumentaram e com elas avolumaram-se os medos. Contar para as famílias. Um medo infinito das reações. Como dizer? Como encarar as mudanças? Ser mãe adolescente é carregar a cria em si e junto a ela as angústias do processo. Os receios naturais de toda gestação, acrescidos da contínua sensação de precocidade, relembrada incessantemente por quem e por tudo que está em volta.

Michelly e Laiana não se conhecem. Mas além da mesma cidade - Fortaleza - e da condição de mulher, partilham as sensações e os dilemas de terem virado mães ainda na adolescência. Em volta delas, como de tantas outras, a constatação de que a experiência da maternidade precoce atravessa gerações e deixa marcas semelhantes.

Aspectos semelhantes constituem a trajetória das duas donas de casa. Uma, Laiana Martins de Souza Alves, moradora do bairro Presidente Kennedy, grávida da primeira filha aos 18 anos e do segundo aos 20 anos, outra, Michelly Xavier, moradora do Autran Nunes, grávida do primeiro filho aos 15 anos e do segundo aos 18 anos. Apesar das distinções na criação, os percursos delas guardam equivalências. Limites e êxitos comuns a tantas outras histórias de concepções precoces. Desde avós, mães, tias, amigas, conhecidas...

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Transformações

Antes das gestações, não havia conversas com os pais sobre métodos contraceptivos, contam ambas. Do que se sabia, quase nada provinha de informação adquiridas em casa. Se cuidar, era o conselho dado pelas mães. Mas, no momento que as experiências sexuais foram iniciadas, ninguém as explicou, de fato, como prevenir-se. Descobertas do corpo e dos afetos que resultaram em gravidez. Das mudanças físicas às transformações profundas da vida. Nas moradias, nas responsabilidades, nos relacionamentos.

Incomum, relatam elas, há: a interrupção dos estudos da escola e conclusão após a gravidez, o aumento significativo nas responsabilidades no lar, o abandono momentâneo do sonho do emprego formal e a dependência financeira dos companheiros. Laiana iniciou o namoro aos 16 anos e engravidou aos 18. Nessa época, havia deixado a escola, quando estava no 1º ano do Ensino Médio. Em seu histórico familiar, a gravidez na adolescência já era fato "regular". Ela é fruto de uma gestação precoce. Nasceu quando a mãe Ana Lúcia Martins de Souza tinha apenas 15 anos.

Laiana é a mais velha em uma família de quatro irmãos. A irmã "do meio", Laís, que tem 3 filhos, gerou o primeiro com 16 anos. A caçula, Leandra, hoje com 19 anos, também foi mãe aos 18 anos. Apenas o irmão Lucas, de 23 anos, não tem filhos. Na família, a repetição de gestações ainda na adolescência fez a matriarca, Lúcia, agora com 44 anos, ser avó aos 35 anos.

Hoje, com 27 anos, Laiana tem dois filhos - Yana, de 9 anos e Ezequiel, de 7 anos, e mora com o marido e pai das crianças, Cledson Morais Alves, quatro anos mais velho que ela. "Não foi planejado ter nenhum filho. A minha mãe desconfiava e não aceitava. O apoio maior foi do meu esposo. Minha mãe não aceitava e a barriga já estava crescendo, aí eu decidi sair de casa e morar com ele", relata. Nas duas gestações, afirma que "não usava métodos. Não me cuidava". Após o nascimento do segundo filho, aos 20 anos, fez ligação das trompas.

Além do trabalho doméstico, a jovem vende roupas para ajudar no complemento da renda garantida, sobretudo, pelo marido que atua com manutenção de torres de energia elétrica. O Ensino Médio foi concluído neste ano, em um supletivo realizado no Centro de Fortaleza .

"Antes não tinha como conciliar 'ser mãe' com os estudos, agora eles já estão maiores e já me ajudam. Eu acho que me tornei mais responsável. Mais madura. Pois eu quero o melhor para os meus filhos. Eu estou tentando me qualificar. Mas eu também acho que está difícil ", ressalta.

Planos adiados

Dificuldades não menos expressivas que as encaradas por Michelly. "Da vida normal", conforme definido por ela, para um turbilhão de experiências. Inicialmente "um choque para os pais", seguido de muitas adaptações. Michelly interrompeu os estudos ainda no primeiro ano do Ensino Médio. Enquanto os planos de constituir um novo núcleo familiar foram antecipados, o de terminar a escola e arranjar um emprego tiveram que esperar. Ela retomou os estudos após o nascimento do primeiro filho, quando contou com a ajuda da mãe no cuidado da criança durante as aulas.

Dois anos após a gestação de Miguel, uma nova gravidez. Aos 18 anos, veio Gabriel. Michelly namora o pai das crianças, Ricardo Pereira, mas eles não moram juntos. "Ele é um pai extremamente presente e cuidadoso", assegura. Ela reside na casa dos pais, onde também mora sua irmã mais nova.

"O que eu sofri mais é que eu não tenho privacidade. Tudo o que eu faço é com eles. Se eu for sair, é com eles. Não saio mais sozinha. Porque meu pai não trabalha, mas minha mãe trabalha, e ele não sabe cuidar de um bebê. Então, sempre que eu vou pra um canto, tem que ser um canto que eu posso levar eles", ressalta.

A segunda gravidez de Michelly veio exatamente no momento em que havia conquistado uma vaga de emprego. Se na primeira gestação o uso de métodos contraceptivos não era um hábito, a segunda, conforme a mãe, é resultado do uso de anticoncepcionais de modo incorreto. Nesse processo, uma depressão a abateu profundamente. Foi preciso vencer a doença e seguir firme para cuidar das crias.

Se nas narrativas do passado as marcas e efeitos das trajetórias precoces das jovens se assemelham, nos sonhos de futuro, elas permanecem: arranjar um emprego, sair do aluguel ou da casa dos pais, ter qualificação para o mercado formal, garantir renda para melhorar a vida da família e experimentar sem pressa as etapas que ainda virão, com tudo aquilo que os filhos ainda poderão fazê-las sentir.

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