Reportagem Rio Jaguaribe

Marisqueiras de Fortim: comandadas pela maré

No Rio Jaguaribe, a marisqueira Áurea Maria conduz o pequeno barco, acompanhada de Normânia, Alzenilda e Osanira. De lá, elas garantem o sustento da família (Foto: Helene Santos)
00:00 · 07.10.2017 / atualizado às 12:57 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral/Fotos: Helene Santos e Cid Barbosa

Em Fortim, no litoral leste do Ceará, marisqueiras trabalham duro contra as intempéries do tempo e da natureza, mas se dizem felizes com tamanha liberdade. Não batem ponto, não têm patrão nem recebem salário fixo, dependem unicamente do esforço próprio e da "permissão" da maré para extraírem os mariscos no Rio Jaguaribe, próximo a sua foz com o Oceano Atlântico.

Em pequenas embarcações, essas mulheres atravessam o rio quase que diariamente em busca de maior diversidade de búzios, entretanto, nem sempre retornam com o desejado. Acomodam os "frutos do rio" em baldes ou caixotes e, ao final, transportam até à margem. Lá, caldeirões improvisados com água fervente recebem os mariscos para, posteriormente, serem removidas as cascas. O processo é todo artesanal. Depois de limpo, o quilo do marisco será vendido em média de R$ 5,00 e R$ 10,00.

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Marisqueiras de Fortim sentadas na montanha de cascas de búzios acumuladas à beira do rio (Foto: Helene Santos)

Filha de caranguejeiro e casada com pescador, Alzenilda Lima da Silva, 39 anos, não poderia ter outro destino. Desde criança, vive do sustento extraído do rio. Com sete filhos, é acompanhada pela primogênita, Ramilça, 20 anos, na atividade de marisqueira. Duas vezes na semana, em média, elas descem para o rio em busca do alimento. O apurado é pouco, cerca de R$ 200,00 na semana, mas o suficiente para as duas.

Vida de marisqueira não é nada fácil. Além de exigir força física, o cheiro da lama impregna na pele, segundo Alzenilda, também conhecida como Pequena. "A gente tenta se cuidar, passa protetor no rosto, usa chapéu e blusa de manga comprida, mas não resolve. Mesmo depois do banho, passando creme, o cheiro da lama continua", conta.

Apesar de as marisqueiras terem consciência dos cuidados que devem tomar, elas ficam expostas ao sol, às águas, à lama e sujeitas a doenças íntimas, de pele, de coluna, além de ferimentos leves como cortes nas mãos e pés. Normânia das Chagas já sentiu na "pele" os efeitos da atividade. "Tive muitos problemas. Não podia nem ver o sol e a água que eu já começava a me coçar. Precisei ficar afastada durante alguns meses para fazer o tratamento", recorda.

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O trabalho das mariqueiras é pesado e exige força física (Foto: Helene Santos)

Na função desde os 8 anos, Normânia garantiu o sustento do filho mais velho, hoje com 20 anos, graças aos búzios. Já a filha caçula, de 11 anos, acompanha a mãe, mas não passa de uma diversão, pois a marisqueira entende que o serviço não é próprio para criança.

No passado, entretanto, a realidade era outra. Desde cedo, meninas e meninos encaravam a extração de búzios como fonte de sustento. "Eu tinha uns 8 anos quando meu pai começou a levar a gente pra catar sururu ", recorda Osanira Carneiro de Albuquerque. Aos 12 anos, a garota foi trabalhar como doméstica em Fortaleza, onde passou quase um ano. "Aqui no rio é difícil, mas lá era muito pior. Até os 'comer deles" é tudo diferente", compara sem qualquer saudade.

Osanira ficou um tempo sem trabalho, mas depois retomou a atividade de marisqueira. "Gosto mesmo é de pescar com linha. Mas é daqui, dos búzios, que eu tiro o sustento. Hoje tem bem menos peixe. Tem bastante picholeta, ostra, siri, até o sururu tá pouco. A gente aqui pode não ter dinheiro, mas nunca falta o de comer", completa.

Ao contrário da falante Osanira, a princípio parece que Aurinha não quer muita conversa. Mulher de braços e pernas fortes, de batom vermelho combinando com a roupa, Áurea Maria de Freitas, 43 anos, é o retrato da resistência das marisqueiras da comunidade de Jardim, em Fortim. No Rio Jaguaribe, Aurinha como é chamada pelas colegas, ancora dois barquinhos batizados de 'Chinelinha' e 'Aline'. Esse último leva o nome da filha caçula, de 20 anos, que a acompanha no ofício, enquanto o filho, Leoni, de 23 anos, preferiu seguir outro rumo.

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Detalhe dos mariscos catados no Rio Jaguaribe (Foto: Helene Santos)

Juntas, mãe e filha vão quase que diariamente extrair a vida do rio. Apuram em média de R$ 300 a R$ 400 na semana, valor que é dividido ao final. Pode parecer pouco, mas se for colocado na balança, Aurinha se dá por satisfeita. "Aqui eu trabalho de acordo com a maré. Nunca gostei de ser empregada na casa dos outros, e em canto nenhum", fala com firmeza de quem já vivenciou a experiência quando mais jovem.

A marisqueira, entretanto, reconhece as dificuldades do trabalho que realiza desde criança, ficando exposta às intempéries do tempo e da natureza, mas não troca o seu ofício por nada. Disposta fisicamente e vaidosa, Aurinha revela com certa timidez: "Eu gosto de me arrumar bem direitinho quando vou pro rio e na volta eu tomo um banho pra ficar bem cheirosa", revela aos risos.

Separada do marido há dois anos, Aurinha ficou com as duas embarcações, as quais costuma usar para si e para conduzir as demais marisqueiras. Durante a travessia, elas conversam de tudo um pouco e se divertem. Ora silenciam, lançando olhares para além do horizonte. Ora refletem sobre a vida. Retornam ao mundo real, descarregam os búzios, colocam nos caldeirões, descascam, limpam, e vão para suas casas levando a certeza de que o "sustento", por hoje, está garantido.

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