Reportagem Destemida

Maria Salete Sena Veras: pescadora dos mares

00:00 · 30.09.2017 / atualizado às 12:15 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral / Fotos: Cid Barbosa e Helene Santos

Certa vez, ao término de mais um dia de pescaria em alto-mar, o apurado foi de nove peixes camurupim, cada um pesando cerca de 60 quilos. Parece até exagero de pescador, mas levando-se em conta que o relato é de Maria Salete Sena Veras, 46 anos, tudo é possível mesmo acontecer. Destemida, há mais de duas décadas, decidiu acompanhar o marido, Francisco Claudio, 53 .

Trabalham, atualmente, no paquete São Lucas, embarcação semelhante à jangada, sendo menor no tamanho. Salete domina todo o processo da pescaria. O tempo que passa no mar, depende do objetivo. Para o camurupim sai às 4 horas da madrugada e retorna por volta das 10. Já para outros tipos de peixe sai às 15 horas, voltando para casa às 22 horas. Às vezes, embarca nesses dois períodos e quase não tira folga. Por sorte, descansa em algum domingo.

Pescam vários peixes, a exemplo da cavala, serra, pargo, cioba, e também lagosta. Têm embarcação e equipamentos de pesca próprios, como as caçoeiras e manzuás. Tudo conquistado com muito esforço.

Do mar, o casal residente na Praia de Guajiru, em Trairi, Litoral Oeste do Ceará, tira o sustento da família. Alternam o comando do leme durante o trabalho assim como dividem o apurado e as tarefas em terra. "A gente se dá bem. Se eu estiver errada, ele fala mesmo, e eu também falo do mesmo jeito. O que é dele, eu participo, e o que é meu é dele. No fim, é tudo nosso mesmo", afirma Salete.

A mulher de corpo franzino, cabelos longos e pele queimada do sol é uma das raras pescadoras do mar em atividade no Ceará. Além dela, Salete só tem conhecimento de mais duas representantes do sexo feminino atuando no Estado: a jangadeira Maria Cabelão, da Praia do Mucuripe (Fortaleza), e Sidnéia Lusia da Silva, da Praia de Redonda (Icapuí), especializada em lagosta.

Quando casou, há mais de 30 anos, Salete era uma típica dona de casa, que pescava mariscos, colhia algas e fazia renda de bilros, mas a vontade mesmo era desbravar os mares, a exemplo do pai e do marido. Contudo, Claudio, pescador desde os 12 anos, temia que algo de ruim lhe acontecesse durante as travessias.

"Mas um dia o companheiro de trabalho dele adoeceu, e eu insisti tanto para ir que meu marido acabou concordando. Hoje, sou pescadora profissional de lagosta. Recebo até o seguro-defeso", orgulha-se. Ao mesmo tempo, fala com satisfação de terem conseguido, com a renda da pesca, criar os cinco filhos - três já são casados. Agora, ajudam também os sete netos.

Da rotina em alto mar, guarda boas e ruins recordações. O prazer de estar fazendo o que gosta é, sem dúvidas, a melhor delas. Porém já sofreu acidentes, alguns mais sérios outros nem tantos. De todos, conseguiu se salvar com maestria. "Logo na primeira vez, o barco virou e tivemos de voltar nadando até a praia. Ainda bem que não estava muito longe". Mesmo assim, pretende continuar até quando o corpo lhe permitir. O marido Claudio é só elogios: "Tenho ela melhor do que muito pescador daqui. Faz tudo o que um homem faz. Hoje, nós só leva o que há de melhor no pescado. E eu agradeço muito à determinação dela".

Mesmo sem quase ter frequentado a escola, Salete demonstra sabedoria invejável quando o assunto é a vida no oceano. Trajetória dignificante o bastante para ser revelada em encontros como o "Povos do Mar", realizado anualmente pelo Serviço Social do Comércio (Sesc-CE). "Gosto muito da natureza. Não tenho medo do mar, se pudesse tinha feito até minha casa nele. Quem sabe, um dia não moro em um navio?", brinca.

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