Reportagem Praia de Almofala

Maria Liduína dos Santos: liberdade para viver e ensinar

00:00 · 07.10.2017 / atualizado às 10:23 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral/Fotos: Helene Santos e Cid Barbosa

Na adolescência, quando trabalhava como empregada doméstica em Fortaleza, Maria Liduína dos Santos, 39 anos, só sentia-se livre ao retornar à Praia de Almofala, em Itarema, no Litoral Oeste do Ceará. "Era como um passarinho que saía da gaiola", compara. Até que, aos 19 anos, voltou definitivamente para sua aldeia da etnia Tremembé. "Fiquei quatro anos em Fortaleza, só que meu mundo nunca foi lá. Minhas raízes estavam mesmo impregnadas aqui, onde sinto liberdade para viver".

Sensação traduzida na sua relação afetiva com o mar, as dunas, os rios e a terra. Na infância, estudava de manhã e, à tarde, aproveitava o que de melhor a natureza lhe oferecia. "Acordava às 4 da manhã para pegar o transporte escolar. Quando voltava da escola, por volta de uma hora, comia alguma coisa e logo ia pescar siri e camarão", relembra.

Mesmo pequena, tomava para si a responsabilidade de irmã mais velha para ajudar no sustento da família (pais e 12 filhos). Motivo que a levou também a trabalhar numa "casa de família" aos 15 anos em Fortaleza. "A dificuldade era tamanha que resolvi ir embora. Sempre tive esse intuito de ajudar a eles financeiramente até que um dia cansei e  vim embora".

O retorno para a aldeia representou mudança significativa na vida de Liduína. Casou-se com o pescador João, filho do cacique João Venâncio, com que teve Sabrina, 14 anos, e Tobias, 9 anos, e começou a trabalhar na Escola Diferenciada Indígena Tremembé de Ensino Fundamental e Médio Maria Venâncio.

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Liduína dos Santos ensina para alunos do 6º ao 9º ano na Escola Diferenciada Indígena Tremembé Maria Venâncio (Foto: Cid Barbosa)

"Foi tudo ao mesmo tempo, faz 17 anos. A gente se conheceu e não deu outra, casou. Então minha cunhada, Raimunda Marques, que iniciou a luta pela escola (liderança Tremembé, falecida há seis anos), me chamou para assumir esta responsabilidade e até hoje estou aqui".

"Assumir a responsabilidade" significa ser professora da escola, fundada em 1991 com o objetivo de disseminar a cultura da etnia. Para cumprir bem a missão, Liduína se aperfeiçoou. Cursou o ensino médio e se formou, em 2013, na primeira turma de Licenciatura Intercultural Indígena - Curso de Magistério Indígena Tremembé Superior (MITS), ofertado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pioneiro no Nordeste. "Foi um grande avanço. Posso dizer que estou feliz. Não foi fácil, foi uma caminhada muito árdua, mas muito gratificante. Amo minha profissão".

Professora com contrato temporário da Secretaria de Educação do Estado do Ceará, trabalha os dois períodos. Pela manhã, fica na biblioteca, quando dá assistência aos colegas e faz planos de aulas. À tarde, ministra  duas disciplinas do 6º ao 9º ano: história tremembé e geografia. Nas horas vagas, cuida da casa, caminha pela praia e, às vezes, vai ao mar pescar peixe numa canoa.

Na sala de aula, estimula a autoestima dos estudantes para que não percam a essência do que é ser Tremembé: "Quero que aonde forem não esqueçam de ser realmente quem são, que divulguem a história do nosso povo, não escondam, a gente já escondeu tanto". Tenta, por fim, repassar aquela responsabilidade que um dia Raimunda lhe deu. "Hoje, estou aqui, mas não sei o que pode acontecer amanhã".

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Liduína com o marido João, que também é  aluno na Escola Diferenciada Índígena Tremembé (Foto: Cid Barbosa)

Para os alunos do Ensino Médio, a proposta, segundo a professora, é que possam ficar na aldeia: "Não façam como eu, que não tinha esperança nenhuma. Agora, as portas estão se abrindo,  os nossos jovens são aqueles que futuramente vão seguir com nossa história, a nossa luta, a gente está preparando eles para isso, esses meninos vão ser formados, não voltados para o mercado de trabalho lá fora, mas para nós,  que cada um vá se encaixando nas oportunidades surgidas por aqui. Já temos, por exemplo, professores que foram nossos estudantes".

Entre os alunos de Liduína, estão a filha Sabrina e o marido João. "Quando casamos, João não conhecia letra nenhuma, mas tem muita sabedoria com a história do nosso povo. Aí eu incentivei". Os olhos também brilham quando fala sobre Sabrina: "Estou preparando minha filha para ser uma grande líder, vejo ela como uma potência muito forte, além de ser uma pessoa que me acompanha, muito esforçada, e também artesã igual a mim".

Sabrina retribui as palavras: "Eu espero que um dia seja como tia Raimunda e minha mãe, que é incrível.  Tento seguir seus passos. Eu vou seguir a luta, não deixar a história de nossos antepassados acabar, vou apresentar o torém (dança), não vou sair daqui nunca". 

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