Reportagem Projeto social

Maria das Graças de Sena Paiva: a graça de ter 150 "filhos"

00:00 · 07.10.2017 / atualizado às 10:40 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral/Fotos: Helene Santos e Cid Barbosa

Diante da vontade de desenvolver trabalho na área infantojuvenil, ela pegou um caderno, caneta e começou a escrever. Nas bem traçadas linhas, surgia um projeto social para abraçar crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos. Passada quase uma década, Maria das Graças de Sena Paiva, a dona Gracinha, 52 anos, continua firme no propósito de oferecer atividades para essa turminha que a considera como a segunda mãe.

"Eu tenho três filhos biológicos, mas aqui ganhei mais 150", comemora a coordenadora do Instituto Social Vidarte, implantado oficialmente em 2009 na Praia do Guajiru, em Trairi, no Litoral Oeste do Ceará. Entre as áreas desenvolvidas estão reforço escolar de forma lúdica, teatro, música, artes plásticas, artesanato e recreações.

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Dona Gracinha com as crianças participantes do Projeto (Foto: Cid Barbosa)

A ideia começou a sair do papel no final de 2008, quando o artista Pitu tornou-se o primeiro voluntário. Ensinava pintura em tela para 10 crianças na casa do filho mais velho de Gracinha, o escultor Natanael. "Logo, logo passou para 15 crianças, logo, logo para 20 crianças e outras diziam 'quero entrar, quero entrar'. Precisávamos, então de um espaço maior. Fomos para a casa da minha mãe, já com uns 40, e depois para a creche da associação dos moradores", relembra.

Desde 2013, o Vidarte ganhou sede própria, com três amplas salas e cozinha. Construída em terreno doado pela família de dona Gracinha, foi financiada pela antiga Tractbel, hoje Engie Brasil Energia, que também fornece verba para a manutenção do projeto. "Esse recurso vem por meio do Fundo da Criança e do Adolescente de Trairi. Ganhamos R$ 33 mil neste ano, agora em agosto. Então, só vamos trabalhar de setembro a dezembro. Com esse valor, pagamos quatro funcionários, compramos material didático e merenda". Do Governo do Estado do Ceará, também receberam o valor de R$ 20 mil, destinado ao ensino da música e do artesanato.

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Na recreação, meninos do projeto Vidarte jogam futebol (Foto: Cid Barbosa)

"Se a gente tivesse mais ajuda funcionava o ano todo", afirma Gracinha. Mesmo assim, diz ter muito o que agradecer. E não está sozinha nestes desafios. Ao lado do marido, Chico Abel, presidente do Vidarte, desenvolve trabalho social na comunidade há cerca de 30 anos, quando fundaram a Associação dos Moradores de Guajiru. Contudo, é o Instituto, atualmente, que lhe proporciona plena realização: "Faço de tudo um pouco, sou merendeira, ensino crochê e bordado e conto com apoio de uma ótima equipe".

Com ensino médio completo, a maior felicidade dela é ver muitos dos que passaram pelo Vidarte cursando a escola estadual de educação profissional: "Eles não têm dificuldade de serem aprovados na seleção dessa escola pública. Se eu tenho um filho que cursa Engenharia Mecânica, o Francisco Cássio, também quero ver esses meninos formados. Mas se não se formarem, que sigam suas profissões, como os meus dois outros filhos: Natanael, escultor, que consegue viver da sua arte, e Gutemberg, eletricista, já bem conhecido". Gracinha também planeja o próprio futuro: "se der certo, ainda vou fazer um dia faculdade, quero cursar Administração".

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