Reportagem Peixe-boi

Mamíferos grandes e frágeis ameaçados de extinção

Peixes-bois em reabilitação na sede da Aquasis (CE). A espécie está entre os mamíferos mais ameaçados de extinção (Foto: Amanda Vasconcelos/Acervo Aquasis)
00:00 · 26.05.2018 / atualizado às 09:06 · 27.05.2018 por Melquíades Júnior, repórter

Não é peixe nem boi, tampouco as duas coisas ao mesmo tempo. Um dos bichos marinhos mais ameaçados de extinção, o peixe-boi (Trichechus manatus) desaparece aos poucos da costa brasileira. Primeiro foi no Espírito Santo, depois Bahia e Sergipe, devido aos abates para comercializar a carne. O animal, que pode chegar a 300 kg e é exclusivamente herbívoro, não oferece risco nem mesmo aos bichos menores, mas está fragilmente submetido às mínimas mudanças ambientais.

Doce no salgado

No Ceará, que pontua no País como importante berçário, o grande vilão são as redes de pesca, que geram a captura acidental. Mas a interferência humana vai muito além. As mudanças ambientais nos estuários dos rios e a diminuição do encontro das águas têm causado desequilíbrio na rota desses mamíferos. Isso porque os peixes-bois bebem água doce, senão na foz, em zonas calmas do mar, chamadas pelos pescadores de "olheiros" com concentração de água doce.

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Em muitos casos, o filhote se perde da mãe logo após o nascimento, enquanto ambos procuram fontes de água doce. Os encalhes mais recentes no Ceará têm ocorrido de mamíferos recém-nascidos. É o caso de Gaia, a caçula dos 16 peixes-bois em reabilitação na Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. A 'bebê' foi resgatada no dia 23 de abril no município de Fortim, litoral leste do Estado, e recebe uma forma especial de leite sem lactose, enriquecido com gordura animal. Chegou bastante debilitada e ainda se recupera de uma pneumonia.

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Filhote de peixe-boi em reabilitação na Aquasis (Foto: Fabio Nunes/ Acervo Aquasis)

"É um dos mamíferos mais ameaçados de extinção. A caça diminuiu muito no Nordeste, é praticamente inexistente, com exceção do Maranhão, onde ainda acontece a caça de subsistência do peixe-boi da-amazônia (Trichechus inunguis)", explica a bióloga Carol Meireles, diretora da Aquasis. A Organização Não Governamental é mantida com patrocínio da Petrobras e do Serviço Social do Comércio (Sesc) e trabalha como uma das principais referências nacionais em conservação de mamíferos marinhos. Foi criada em 1994 por estudantes e professores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade Estadual do Ceará (Uece), que mantinham o grupo de estudo dos cetáceos, em que se incluem baleias e golfinhos.

"A gente atende todas as espécies de mamíferos marinhos que encalham no Ceará, mas o centro de reabilitação é mais para o peixe-boi marinho", explica Carol Meireles. Os cetáceos, como golfinho e baleia, têm um comportamento diferente e sofrem com o estresse de confinamento, podendo morrer por isso. "Evitamos confinar os cetáceos. A gente leva para uma lagoa costeira ou cabeça de rio para fazer alimentação", esclarece.

Dos cetáceos, a espécie que mais encalha, segundo a pesquisadora, é o boto-cinza (Sotalia guianensis). "Temos uma população residente em Fortaleza. São apenas 40 animais. O grande problema são as capturas acidentais em redes de pesca, mas tem a poluição. Estudos indicam alta concentração de metais pesados no tecido dos animais". Podem ser vistos diariamente no aterro da Praia de Iracema.

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Peixe-boi em reabilitação na Aquasis (Foto: Amanda Vasconcelos/Acervo Aquasis)

O vilão plástico

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Na Praia de Almofala, pesquisadores do Tamar encontraram 2kg de plástico no intestino de uma tartaruga  (Foto: Kleber Gonçalves)

Foi encontrada em janeiro deste ano, numa praia da Austrália, uma garrafa com mensagem jogada ao mar há 132 anos. Lançada de um navio alemão em 12 de junho de 1886, é a mais antiga que se tem notícia na história recente. Entretanto, sem qualquer mensagem dentro, todos os dias toneladas de garrafas são jogadas no mar junto aos mais diferentes tipos de resíduos sólidos e, quando vistas, da areia aos oceanos, trazem uma mensagem muito mais valiosa: o lixo que vai, volta.

Anualmente, cerca de 25 milhões de toneladas de resíduos sólidos são lançadas ao mar em todo o mundo. O plástico predomina. Conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), os polímeros representam de 60% a 80% de todo o lixo despejado. O levantamento foi coordenado pela Associação Internacional dos Resíduos Sólidos (Iswa).

A pesquisa teve a participação de mais de mil cientistas de todo o mundo. No Brasil, contou com o acompanhamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), e a constatação não foi nada boa: cerca de 8 milhões de toneladas podem parar no mar brasileiro - representa 8% do levantamento mundial. De acordo com a mesma Abrelpe, no Panorama dos Resíduos Sólidos (2016), 41% dos resíduos têm destinação inadequada.

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Golfinho da comunidade de mamíferos marinhos residentes em área próxima à orla de Fortaleza (Foto: Carol Meireles/Acervo Aquasis)

A maior parte da população brasileira vive distante até 100 km dos 7 mil km de zona costeira. A poluição deixou de parecer apenas ruim para os olhos e assustar pela diversidade de doenças que pode causar - e causa. A fauna marinha recebe primeiro toda a carga de poluição. Plástico e isopor são confundidos com alimentos.

Produtos químicos os mais diversos também cumprem seu papel poluidor, até voltarem, ironicamente, para o homem: estudo conjunto realizado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com as universidades de São Paulo (USP) e de Campinas (Unicamp) comprovou que as ostras podem carregar metais pesados, agrotóxicos e agentes como vírus, bactérias e protozoários causadores de doenças. As ostras são iguarias consumidas em todo o País, especialmente no Sul. São, no entanto, o problema menor.

Falso alimento

Esses animais acabam consumindo lixo por confundirem com alimento, ou por ficarem presos nos resíduos. "Quando uma tartaruga come o lixo, ela sente uma saciedade. O material não vai ser expelido. Ela para de se alimentar, emagrece muito e acaba encalhando. Muitas vezes, encalha viva, morrendo com um tempo após o resgate. Quando fazemos a necrópsia, percebemos que está cheia de lixo", explica Thereza Damasceno, coordenadora no Projeto Tamar em Almofala.

Nessa praia de Itarema, no Litoral Oeste cearense, pesquisadores do projeto encontraram 2kg de plástico no intestino de apenas uma tartaruga.

Número

25 milhões de toneladas De lixo são despejadas nos oceanos todos os anos, de acordo com o trabalho mais recente revisado pela Associação Internacional de Resíduos Sólidos (Iswa). Desse total, de 60% a 80% é plástico.

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