Reportagem 'Hermano'

Luciano García Bes: das montanhas argentinas ao litoral

Para o "hermano", os melhores elementos da Capital são as pessoas, receptivas, hospitaleiras e sempre dispostas a fornecer orientações. (Foto: Natinho Rodrigues)
00:00 · 20.01.2018

Na varanda, uma rede balança e enfeita "o melhor lugar da casa". Nas grades de ferro, fitilhos baianos do Senhor do Bonfim sacodem com o vento. Na cozinha, ímãs de geladeira denunciam pegadas deixadas no México, no Chile e no Peru. No rádio, homens invisíveis ecoam palavras rápidas de uma língua estrangeira, assim como o dono da casa. Luciano García Bes, 37, trocou a vista montanhosa da fria Salta, no noroeste argentino, pelos atributos litorâneos de Fortaleza há quase cinco anos - quando o plano original, na verdade, era ir embora logo após a Copa do Mundo de Futebol de 2014.

Na Argentina, ficaram os amigos e a família, únicos aspectos insubstituíveis na mudança. Para fazer-se presente, por mais paradoxal que seja, usa a tecnologia: tato em pixels, voz em áudio. Espera ansioso por notícias dos sobrinhos, mata a saudade escutando músicas na língua-mãe, de frente ao mesmo computador que utiliza para prestar serviços de freelancer em programação para uma empresa norte-americana. Para se sentir em Salta, minimamente, diz que só mesmo subindo a serra do município de Guaramiranga.

Contudo, Luciano também se contenta com a orla da Capital. De tanto morar na cidade, comendo espetinho, torresmo e tapioca (ainda que não esqueça as típicas empanadas e o locro argentino); noitando pelo Dragão do Mar, pela Rua dos Tabajaras ou por algum estabelecimento com forró pé de serra; de tanto tomar banho de mar, pegar sol e mastigar trejeitos do sotaque nordestino, com seus "machos", "arretado" e "se lascar", fundando um "cearunhol", reparou-se estrangeiro na própria terra natal. Já não pertence mais a Salta, como comprovou quando visitou a cidade pela última vez, no ano passado.

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Ainda em março de 2013, vivia situação semelhante: era turista em Fortaleza. Mas o receio do recém-chegado naufragou ao encontrar gente tão receptiva, calorosa, disposta a ajudar, desfazendo a impressão argentina de que o brasileiro é "mal educado e grosso". "Acho que o melhor daqui são as pessoas", constata. Admiração que só cresceu com a possibilidade de trabalhar como professor de informática no Banco Palmas, no Conjunto Palmeiras. "Percebi que as pessoas, mesmo em uma situação tão adversa, continuam lutando para mudar o destino delas", analisa.

Conhecendo a fundo a Fortaleza fora dos cartões-postais, descobriu que nem tudo é luminoso. "Quando cheguei, já saindo do Aeroporto, vi que a cidade não era toda praia. Você passa por favelas e bairros mais humildes", aponta. Tal desigualdade social somada à insegurança assustam o argentino. "Sim, isso acontece em todo o Brasil e em toda a América Latina, mas aqui é muito forte. Viver com esse medo, olhando por cima do ombro, não é vida" define. A violência, inclusive, é o principal motivo que o tem feito repensar sua estada na cidade.

Residindo próximo ao Estádio Presidente Vargas (PV), no Benfica - onde presenciou brigas armadas de membros de torcidas -, assim como morava perto de um estádio de Salta, Luciano também não tem como esquecer o futebol. Chegava a esperar duas horas para jogar outra partida quando seu time de pracinha perdia. No coração dividido entre Brasil e Argentina, apenas uma rivalidade se sobressai: "Nunca esqueça que Maradona é melhor que Pelé", avisa.

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