Reportagem Comunidades

Longe da cidade, longe de tudo, mas perto da vida

Lucileide Tabajara (acima), em Poranga, e Maria José, em Baturité, falam do que gostariam de ver em seus lugares. Em nenhuma delas o desenho de ir embora
00:00 · 05.05.2018

O primeiro pensamento que pode vir a cada dificuldade para chegar aos destinos muito distantes e pouco acessíveis, até para quem mora longe da cidade e já no meio do caminho, é "por que tão longe?". Se antes de chegar pode ser tão rural quanto lá. Mas toda consideração de quem é alheio corre o risco de ser urbanocêntrica. Ter o umbigo na cidade. Até porque uma localidade é considerada distante tendo como marco zero o centro de sua sede política. Com todas as dificuldades sociais que possam existir, morar onde o vento faz a curva vai muito além.

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Maria José, em Baturité

Tem lugares que só integram um município por delimitação territorial. Por motivos nem sempre muito claros, pertencem a uma sede, e a ela deve cobrar os direitos. Mas a identidade com o território é outra coisa. E dona Graça não entende por que precisa ir até o posto de saúde longe da Cachoeira, município de Salitre, para pegar os remédios que controlam sua pressão arterial. Para ela, a cidade deveria vir lhe atender, não ela ir. Não é preguiça de andar, mas cansaço de reclamar "o que não vem": estrada, posto de saúde, escola. Tem dias de percorrer mais longe.

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Capinagem à beira da estrada na comunidade Belém, na Serra do Teixeira, em Choró

As comunidades de Cachoeira e Veneza fazem parte do território político de Salitre, mas numa confluência com os municípios de Araripe e Potengi, e não muito longe de Campos Sales, onde vez ou outra a dona de casa prefere ir.

"Aqui não é longe, longe é de onde você vem". Em uma frase cortante e esclarecedora, a agricultora Maria José, no Sítio Flores, em Baturité, resume que algo ali precisa ser desconstruído, enquanto vê que nosso carro ficou no caminho e o resto do caminho precisa ser percorrido a pé.

Subindo para os Inhamuns, portanto rumo ao norte do Estado, visitamos a aldeia Cajueiro, em Poranga. Território dos índios Tabajara, uma das várias etnias indígenas no Estado que desde os anos 1980 reclamam fortemente pelo reconhecimento de sua identidade. É a morada de dona Expedita da Silva e Elias Gomes. O casal comemora que o pior da briga por terras já passou - enquanto o povoado não era reconhecido no lugar como aldeia indígena, a localidade 42 km distante de Poranga era um fim do mundo que não poderia lhes pertencer. Hoje é a casa de ao menos 20 famílias.

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Casal Expedita e Elias, da etnia Tabajara, na aldeia Cajueiro, em Poranga

As duas horas de carro da cidade até o lugar são menos tempo do que se gasta no 'carro de linha', que vai passando nas comunidades e levando os compromissados. Tendo água, de tudo se planta na aldeia Cajueiro - leva o nome da árvore que faz sombra nas reuniões a assembleias dos povos indígenas. No quintal de Expedita tem horta, porcos e galinhas. Melancia colhida no chão é o refresco que se oferece no sol quente para morador e visitante. Desde que fundaram o aldeamento, 'Pedita' não quer outro lugar. Quando a família se percebeu índio, os pés reconheceram raízes.

Os filhos da mulher iam para a escola com uma pintura no rosto, adereço na cabeça, para zombaria dos colegas: "como pode índio loiro?".

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Dona de casa na comunidade de Veneza, em Salitre

O Brasil, que tem problemas em reconhecer sua miscigenação, tenta insistir numa raiz de cor - imagina quantas 'raças' diferentes para tantos tons de cor! Mas Aruena, a caçula, foi forte e insistiu em não se negar. Enquanto se defendia, a menina, hoje com 19 anos, dava aula gratuita sobre respeito, de um lado e formação étnica do povo ao redor dos que precisavam aprender e respeitar. Os meninos de Expedita e Elias aprenderam a lutar pelos direitos desde onde moram. Se Cajueiro é longe de Poranga, mais distante está o filho Jorge no Acampamento Terra Livre, em Brasília entre 23 e 27 de abril, com mais de mil representantes dos povos indígenas de todo o País.

"Foi a muito custo pra gente poder ficar aqui. Antes era muito mais difícil. Hoje mudou muito. Vem médico, vem remédio, a água melhorou".

Nos territórios que percorremos, "a léguas" até para quem é do mesmo município, problemas de acesso a serviço são relatados, mas as conversas pelo caminho não diziam de ir embora. Não importa se lá é o fim do mundo. O que muda tudo é: se ali é longe, resta dizer de quê. E de quem.

O mistério da pedra

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Detalhe de uma das rochas na Pedra do Convento, 40 km distante do centro de Salitre. Inscrição rupestre é motivo de visita dos curiosos com muitas perguntas e poucas respostas

Em cada pedaço de fim de mundo, se cascaviar, há mais perguntas do que respostas para encontrar nas trilhas entre os povoados. Seu Meton Gomes sabe muito de um tudo, em seus 82 anos de vida que vai à roça todos os dias. Conhece na palma da mão os mais de 80 hectares de suas terras no sítio Convento, em Salitre, extremo oeste mais ao sul do Ceará. Só não sabe das pedras, que chegaram lá antes dele.

Desenhos em alto relevo, parecendo pés de galinha, ou outros lembrando a pegada de uma onça. O empilhado dos monólitos faz silhueta com as cumeeiras das serras vizinhas. Por conta do período chuvoso, a vegetação esconde a única trilha até as misteriosas pedras, também chamadas de pedras do Convento.

Quase 100 anos atrás, o lugar era destino de fiéis peregrinos nesse pedaço do Cariri. "Até missa era realizada aqui. Mas não chegamos a pegar esse tempo. Isso é meu pai que conta, do que o povo mais antigo já dizia", explica Antônio Pereira, filho de Meton.

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Região serrana no município de Choró

As inscrições rupestres despertam a imaginação de quem vê. Pudera: tantos detalhes em alto relevo numa rocha com tanta solidez. "Escavada, eu acho que não foi", pensa Antônia.

As pedras, com empilhamento que forma uma caverna, foram registradas tecnicamente pela primeira vez em 2002 por engenheiros do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). A notícia se espalhou, e a administração municipal do período prometeu um trabalho de conservação, mas a palavra não combinou com o tempo.

"Vem gente de vários lugares do País só pra ver as pedras. Mas ninguém sabe dizer o que é. Se antes teve índio por aqui, ou (pensa duas vezes se diz) se foi algo fora dessa terra".

Outro mistério, no mesmo lugar, é a "pedra do sino". Quando é atingida por qualquer objeto, a rocha faz um barulho que reverbera nas outras e tem o som de um sino. "Isso aqui precisa ser estudado", diz Meton. "Vem gente de todo canto, mas ninguém diz nada. Por certo até os doutor de fora têm dúvida".

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