Produtos fonográficos

Lojas especializadas difundem a cultura analógica

Lojas especializadas em produtos fonográficos se lançam como território de contato entre aficionados pela cultura analógica

Além de espaço dedicado ao comércio de discos e acessórios, a Jazigo Distro & Loja realiza ações o "Sábado do Vinil", capaz de reunir diferentes gerações de fã do metal
00:00 · 14.07.2018
Como forma de oferecer mais conforto aos amigos clientes, a expectativa para os próximo meses é expandir a área útil da Freelancer com um pequeno bar

Resumir a crescente popularidade dos dispositivos analógicos a um duelo contra o digital, é uma forma simplista de se perceber este fenômeno. Promover este bang bang, assim, seria um expediente ineficaz para elucidar a fetichização sobre as práticas ou objetos do passado. Ambas as observações ganham eco na pontual investigação contida no livro "A vingança dos Analógicos: Por que os objetos de verdade ainda são importantes", ensaio do jornalista canadense David Sax.

Se algo está conectado à internet, funciona com o auxílio de um software ou é acessado por um computador, é digital, define o repórter que já atuou na New York Magazine e Vanity Fair. O analógico, por sua vez, sempre existe no mundo físico em oposição ao mundo virtual. "É o yin yang do digital, o dia daquela noite", brinca.

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Munido de acontecimentos relativos a diferentes setores da economia norte-americana, Sax destila uma série de informações perspicazes sobre as muitas facetas deste momento. A reviravolta nos modos de consumo ilumina os estágios das vinganças perpetradas pelo vinil, papel (livros), filme (película fotográfica), jogos de tabuleiro, varejo, trabalho e escola. Como estas peças e serviços se adequam e seguem angariando (ou reconquistando) novos adeptos.

O comunicador esmiúça o universo analógico ressurgente e leva o leitor, por exemplo, para a United Record Pressing, uma fábrica de vinil situada na cidade de Nashville, no Tennessee, EUA, que produz atualmente cerva de 40 mil vinis por dia, com a ajuda de uma força de trabalho que triplicou no últimos seis anos.

Conhecemos o cotidiano de uma livraria indie e o Snakes & Lattes, um café de jogos de tabuleiro de Toronto, Canadá, onde os clientes podem se perder através de familiares jogos da infância, uma experiência decididamente mais social do que o mundo recluso de muitos jogadores de videogames.

A força da pesquisa construída pelo jornalista incide sobre focos de resistência em prol da interação humana, capaz de ampliar o sentimento de comunidade e pertencimento de um lugar. Quanto mais o mundo digital dos cliques, streaming e compras online inunda o dia a dia, certas pessoas começaram a reconhecer o valor das interações face-a-face. Até mesmo os espaços de trabalho voltados para tecnologia estão repensando posturas ao promover reuniões produtivas e intercâmbios casuais entre funcionários.

"Cercados pelo digital, nós agora ansiamos por experiências que sejam mais táteis e 'humanocêntricas'. Nós queremos interagir com bens e serviços com todos os nossos sentidos e muitos de nós preferem pagar mais para conseguir isso, mesmo que seja mais incômodo e custoso que seu equivalente digital", explicita Sax durante apresentação do tema.

Nesta realidade cada vez mais digital, o analógico se prontifica como uma opção de criar e possuir coisas reais e tangíveis. São sensações mediadas desde o som de uma caneta arranhando as páginas de um caderno, ao barulho de uma página de jornal sendo virada e dobrada, ou quando novo disco de vinil começa a tocar.

Romantizar

Uma tendência é olhar em direção ao futuro sem esquecer ou esmagar certas percepções do passado. Mesmo cercado de tantas observações sobre esta proximidade com os modos de expressão e objetos analógicos, Sax adverte sobre como a dualidade ou um pensamento binário miniaturiza qualquer observação mais precisa sobre o tema. O livro, adverte, está longe de ser um panfleto contra a tecnologia digital. Os casos observados pelo autor não se resumem a uma nostalgia sentimental por um passado pré-digital idealizado.

Sobre as iniciativas analisadas, conclui, "são incrivelmente progressistas e inovadores, e utilizam todas as ferramentas digitais disponíveis - financiamento coletivo online, mídias sociais, softwares de design, smartphones - para trazer bens e serviços analógicos para o mercado. Eles não estão jogando fora o mundo digital; estão trazendo o mundo analógico para mais perto e usando todas as vantagens para fazer isso dar certo".

Encontros

Buscar pistas de como se estabelecem essas relações é um expediente complexo. Duas lojas de rua de Fortaleza optaram por atuar longe de shoppings ou centros comerciais. Estão na rua e abrem as portas para o mergulho na vivência que é consumir um produto na presença de outros compradores, ou na possibilidade, por exemplo, de conversar sobre um disco ou artista.

No Benfica, a Jazigo Loja & Distro tem um cotidiano voltado para o público do metal extremo. CDs, camisetas, acessórios, cervejas importadas e uma opção de salgadinhos, cujos sabores variam de panelada à camarão, também são sucesso com a clientela. Maciel De Souza, idealizador da iniciativa detalha que a atuação da Jazigo tem raiz justamente na união de forças. Como uma boa parte dos fãs de metal, o proprietário assume ter preferência pelas mídias onde se pode tocar, ler e até presentear pessoalmente.

"Fazia pedidos de materiais pela internet e vi que reunir com outros amigos para fazer um pedido único era uma forma de diminuir os custos com frete. Daí em diante, comecei a fazer banquinhas em shows, até que surgiu o interesse por montar a loja física", conta.

Com o espaço montado em casa, Maciel explica que o contato direto com o cliente gera uma relação melhor. Tem dias, destaca, que a Jazigo só tem hora para abrir. O mundo virtual continua necessário no contato com outras distribuidoras e selos de outros países. A atividade da loja vai além da relação da venda em si e se une à cena de alguma forma.

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Seja vendendo ingressos de shows locais ou realizando eventos próprios da distro, o Alcoholic Vomit, "feito na cara e coragem", diz, a Jazigo permite o fluxo de mentes e fãs dometal. "A loja meio que trouxe essa galera", argumenta Maciel.

Comemorando um ano de atividades, a Freelancer Discos concentra-se no coração do bairro Quintino Cunha. Amistoso e receptivo, o espaço trata logo de cercar o visitante com uma farta quantidade de LPs (maioria, diga-se), CDs, DVDs e camisetas de rock. Muito dessa impressão é repassada pela alegria de Alex Aguiar em conversar sobre as motivações de investir numa loja de rua.

Isso, longe dos shoppings, do Centrão de Fortaleza e de uma opção bem viável dentro do ramo, a venda de discos pela internet. Colecionador ferrenho dos vinis, percebeu que era possível divertir-se com este mercado, ao mesmo passo onde estabelece com o filho a saudável construção de um momento em família. "Pra ele sair mais do videogame, o cara é fã de som".

Um trabalho, vale lembrar, mergulhado no consumo de muita boa música. O jovem filho, Alerandro Morrisson, observador e mais reservado, fica por detrás do balcão. Justifica-se, no momento do bate papo com Alex, dois clientes estão na loja garimpando entre os discos. A dinâmica dos compradores é responsável pela trilha que toca nas caixas de som do lugar.

Gabriel concentra-se na fileira dedicada ao jazz enquanto Luís Júnior presta atenção ao hard rock. O último, saca um dos quatro discos solo lançados pelos integrantes do Kiss em 1978 e pede para ouvir.

Conversamos sobre a qualidade do disco assinado pelo guitarrista Ace Frehley e Luís argumenta o quanto o registro do baixista era mais repleto de baladas e aponta "See You Tonite" como uma das melhores faixas do disco. "Pô, repete essa aí mais uma vez que ela merece. É linda demais", compartilha.

Alex divide que a inspiração para ampliar a dedicação pelo colecionismo, através de uma loja física, tem muita inspiração nas iniciativas de uma turma que resiste no negócio desde os anos 1990. Um território onde figuras do calibre de Botija e Augusto seguem atuantes. As ferramentas comunicativas das redes sociais também ajudam através da página da loja.

Mais informações:

Freelancer Discos (Av. Emília Gonçalves, 1344, Quintino Cunha) - Festa de aniversário de um ano com as bandas Higgs Boson, The Knickers e Outrora, sábado (21), ás 19h30 (Rua Tomás Rodrigues, 768, Antônio Bezerra)

Jazigo Loja & Distro (Rua Senador Catunda, 29b, Benfica) VIII Alcoholic Vomit Fest, 17/11, 16h30 Casarão Benfica ( Av. Carapinima, 1884, Benfica).

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