Reportagem Histórias sobre o papel

Livros vivos, recantos de afeto

00:00 · 08.04.2017 / atualizado às 02:30

Livro: do latim “liber”, algo como a cortiça das árvores. Em bom português e sob camadas de afeto, artefato capaz de preservar histórias, narrativas, causos e fatos de um cotidiano – o nosso cotidiano – em permanente fase de construção e desconstrução. Objeto, portanto, passível de mutações, embora apresente-se estático. É caixa impressa de saberes.

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Mas encará-lo apenas assim – como canastra brochurada, estampada com palavras – é tentar reduzir as dimensões que o livro pode adquirir mediante o alargamento das possibilidades de interpretação do que esse instrumento realmente seja. Um livro, afinal, pode ser/ter uma vida? Um livro pode ser amigo-irmão? E uma pessoa, o livro pode ser? São questões que ficam no limbo, exceto quando algumas iniciativas despertam para a consciência de que, sim, livros podem ser gente. Pessoas podem ser livros. E, reunidas, elas podem compor, sim, um acervo humano.

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A Cacique Pequena, de Aquiraz, uma das mestres da cultura títuladas pela Secult: ela e outras referências das tradições populares do Estado estarão presentes na programação da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará

Essa é a premissa principal que a 12ª edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará abraçou para compor o repertório oficial de atividades que, em breve – dos dias 14 a 23 de abril – chegará ao público. Ponto dos mais importantes, sobretudo para o aprimoramento de vieses quanto à proporção não apenas imagética, mas sumariamente humana, que obras literárias podem ter. É um exercício de lapidação do olhar, tarefa que se sobressai como engenhosa no evento. Afinal, quem ganha destaque não são apenas as laudas tipograficamente impressas, como o senso comum nos condiciona a associar em ações desse porte. Mas efetivamente seres humanos, eles também mantenedores de prosas sobre si mesmos e o mundo.

Entram em cena, então, neste momento, os Mestres da Cultura do Ceará. Gente que vem de todas as regiões do Estado para ensinar, nos dez dias de Bienal, que nem todos os conhecimentos a gente registra em papel, folha de celulose. Alguns – senão a maioria deles – andam a tiracolo conosco, são reminiscências pessoais e transferíveis.

Eles mesmos, portanto, não deixam de ser livros, rascunhos escritos com a tinta das experiências da vida. E é dessa forma que, pouco a pouco, desconstruímos conceitos e aprimoramos perspectivas com vistas a contemplar todas as formas de se ter, fazer e ser literatura, cultura, arte.

Transferência de esmeros

Em novembro de 2016, durante a décima edição do encontro Mestres do Mundo – ocorrido no município de Limoeiro do Norte, interior do Ceará – 66 preservadores dos costumes tradicionais do Estado receberam, pela Secretaria da Cultura (Secult), o título de Notório Saber em Cultura Popular. Um feito inédito no Brasil.

Passo importante que representou uma grande evolução no que toca aos caminhos que puderam ser abertos aos contemplados com a qualificação. É que, desta feita, eles têm a possibilidade de expressar seus conhecimentos em universidades e outros equipamentos cuja única expertise cobrada é o esmero em transferir saberes.

A Bienal configura-se, então, como uma das primeiras e maiores iniciativas póstitulação que vem para chancelar, na prática, a designação recebida por eles. Durante o período de realização do evento, nove rodas de conversa pautarão atividades e reflexões sobre ofícios dos mais diversos, frutos de imersão pelo que nos define enquanto cearenses.

Entram em discussão temáticas que vão do Reisado ao Bumba-meu-boi – praticados tanto no interior quanto na Capital – até ideias acerca do corpo, encarado, no debate, como texto, vida e alegria.

No mesmo rol, falas sobre o sertão, sobre mãos como apetrechos de propulsão da arte e sobre a nossa música devem soerguer como faróis: têm missão de levar luz aos desavisados que desconhecem ações cuja bandeira permanece alta a arvorar no Ceará. Um dos recortes de discussão, contudo, merece uma ênfase particular, necessariamente pela amplitude genuinamente imaterial que carrega consigo. Trata-se do intitulado “A alma é um encanto, a memória divina”, capitaneado pelos Mestres Cacique Pequena (Cultura Indígena, de Aquiraz), Pajé Luiz Caboclo Tremembé e Cacique João Venâncio (ambos do segmento Cultura indígena, de Itarema).

Mediado pelo coordenador de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secult, historiador Alênio Carlos Noronha Alencar, o encontro deve versar sobre aqueles que talvez sejam os bens mais íntimos que possuímos: nossa alma, os aprendizados que guardamos, os ensinamentos que conosco ficam. São como livros, caixas de memórias. E, como instância metafísica, são desconhecedores de fronteiras. Permitem o acesso ao diferente e ressignificam perspectivas.

É necessário manter

A partir do contato com o conteúdo apresentado pelos mestres, fica, então, o desafio maior para o público: o de comprometer-se com tudo aquilo que mantém nossa cultura viva. Um feito que sugere articulações para promover iniciativas de repasse dos saberes adquiridos mediante, por exemplo, a criação de novos canais de interlocução culturais.

Seja por meio de eventos de menor porte, oficinas, aulas ou colóquios de caráter informal, as atividades desenvolvidas pós-Bienal são relevantes porque necessárias. Apenas dessa forma podemos garantir, por um lado, que as políticas públicas se voltem com ainda mais afinco e comprometimento aos mestres e, por outro, que nos envolvamos conceitualmente e afetivamente com aquilo que nos foi repassado.

Posto que é assim que nos comportamos perante os livros que moram em nós: queremos indicá-los aos demais, fazer com que as histórias registradas naquelas páginas virem narrativas para além dos supor tes materiais. 

A partir de reflexões, que fique conosco também a tarefa de mantermos o gosto apurado por outros livros, aqueles que fazem parte de

uma biblioteca maior: a humana. E façamos o mesmo processo realizado com aqueles: deixemos que bradem, deixemos que nos ensinem e toquem. Para que essas obras vivas continuem como recantos de afetos. E nós, núcleos de amálgama de saberes. A Cacique Pequena, de Aquiraz, uma das mestres da cultura títuladas pela Secult: ela e outras referências das tradições populares do Estado estarão presentes na programação da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará

Serviço

XII Bienal Internacional do Livro do Ceará De 14 a 23 de abril, no Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 - Edson Queiroz). www.secult.ce.gov.br

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