Reportagem Sonho de ser jogador

Lionn Lucena: o dono da bola em Vila do Conde

00:00 · 02.09.2017 / atualizado às 19:52

A exemplo de outros tantos meninos, Lionn sonhou em se tornar um jogador de futebol famoso. O garoto, de origem humilde, que frequentava a escolinha do Ferroviário Atlético Clube, em Fortaleza, teve chance promissora aos 16 anos, quando atravessou o Oceano para jogar no juvenil do Benfica. A temporada em Portugal, no ano de 2005, terminou em 15 dias. A saudade de casa o fez encerrar o "contrato" antes do previsto.

Mas a trajetória de José Lionn Lucena com o futebol e o país-irmão estava apenas começando. Ele voltou ao País em 2008. Hoje, aos 28 anos, atua no time do Rio Ave Futebol Clube, em Vila do Conde, onde se sente realizado, tanto com a família que constituiu quanto com a atuação do time (além de disputar a Liga Europa, está em quarto lugar no atual campeonato português da primeira divisão, a apenas dois pontos do líder.

Do casamento com Mafalda, uma portuguesa apaixonada pelo Nordeste brasileiro, em especial pelo Ceará, nasceu Maria Clara, 4 anos. Falante, com sotaque meio brasileiro, meio português, parece ter dois corações, um pulsando cá, e outro lá. Seus olhos brilham ao lembrar das férias no Ceará, do sol, das praias e do carinho da família paterna.

É justamente o sol do Ceará que mais faz falta na rotina de Lionn, sem falar é claro da família: mãe, avó, parentes e amigos. "Se eu pudesse, traria o calor de lá pra cá", reforça o jogador ao lembrar das dificuldades de treinar durante o inverno em Vila Conde. Lá, mesmo no verão, os ventos não dão trégua.

As baixas temperaturas, entretanto, não esfriam os sonhos do lateral direito que continua suando a camisa para manter o seu espaço no futebol português. Com trajetória difícil, passou por vários clubes portugueses, sendo inclusive emprestado para o Cluj, um time da Liga 1 de futebol da Romênia, com origem na cidade de Cluj-Napoca: "Foi muito difícil a adaptação, principalmente por não falar a língua deles. A única coisa boa de lá é que a Mafalda engravidou, e, em seguida, voltamos para Portugal".

Incentivos

A atuação nos campos passou a se fortalecer, mas o caminho trilhado foi árduo. Além da desistência, aos 16 anos, e da experiência na Romênia, Lionn sofreu uma fratura na perna durante um jogo. Passou por cirurgia e enfrentou doloroso processo de recuperação. "Minha mãe veio pra cá cuidar de mim e, mais uma vez, me deu força para eu não desistir".

A mãe do jogador, Maria Oscilene, bem como a avó, Maria do Socorro, foram fundamentais na trajetória de Lionn. Mesmo criado sem a presença do pai, o menino teve a sorte de contar o apoio do avô, que também inspirou o garoto. Sim, seu avô, o Lucena, foi jogador de futebol pelo Ceará, nos anos 1960. Quando deixou os campos, trabalhou como motorista de táxi. Faleceu em 2004, antes de ver a evolução do neto nos campos europeus.

"Era a minha avó quem me levava aos treinos. A família pagava, com muito custo, a mensalidade da escolinha. Minha mãe passava o dia trabalhando como costureira numa fábrica", recorda. Mas diz ter vivido uma infância feliz, com direito a todas as brincadeiras de rua que criança aprecia. A escola, contudo, nunca foi o seu "esporte preferido", a bola sempre veio em primeiro lugar.

Desde então, a mãe e a avó o incentivavam. Graças a isso, hoje somado ao apoio de Mafalda, sabe que escolheu o caminho certo. Ainda sente saudade das origens, claro, mas vai compensando durante as férias em Fortaleza, ou quando recebe familiares em Portugal.

Assim que o campeonato termina, no dia seguinte Lionn já está viajando para o Ceará. "Gosto de ir para o meu estado, mas gosto de retornar para Portugal", explica. Revela ser uma pessoa caseira e aprecia viver na tranquila cidade de Póvoa de Varzim, vizinha a Vila do Conde (Região Metropolitana do Porto). Aspectos positivos na segurança, saúde e no ensino são suficientes para Lionn continuar vivendo e admirando o País.

Na memória, Lionn guarda os sabores do pastel de carne, do caldo de cana, do baião de dois, da tapioca e da rapadura. Contudo, já incorporou os hábitos portugueses, a exemplo do bacalhau, dos peixes e dos pães, em especial do croissant recheado, uma iguaria que ele conheceu em Guimarães, a cidade natal de Mafalda. Junto, o casal vai descobrindo e aprendendo a amar cada vez mais as suas origens.

LEIA AINDA:

> Velho mundo, novos sonhos para os cearenses em Portugal
> Claudia Souza: vida com saúde, segurança e humor
> Ângela Souza: calmaria à beira-mar
> Raimundo Neto e Racquel Chaves: cultura e estudos em família
> Jorgiana e Varejão: a vida com planos bem traçados
> Amanda Teixeira: a melhor amiga dos cães
> Helena de Freitas: para morar em um porto seguro
> Luiza Laura e a felicidade na casa alheia
> Claudiana e Marildo: descobertas e aventuras compartilhadas
> Brasileiros lideram estatísticas

Reportagens

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.