Gravidez precoce

Laboratório do Adolescente da Meac: muito além do pré-natal

No Ambulatório do Adolescente da Meac, jovens fazem acompanhamento pré-natal, participam de palestras e têm atendimento individualizado com equipe multidisciplinar
00:00 · 28.07.2018 / atualizado às 10:19 por Cristina Pioner e Thatiany Nascimento - repórteres

As visitas ao médico ao longo dos 9 meses de gestação fazem parte da rotina de toda futura mamãe. Com Tainá não está sendo diferente. Desde que descobriu a gravidez precoce, aos 16 anos, procurou o posto de saúde para fazer o pré-natal, contudo, logo foi encaminhada à Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (Meac), do Complexo Hospitalar da UFC/Ebserh, onde funciona o Ambulatório do Adolescente.

Aos oito meses e meio de gestação, Tainá se sente praticamente em casa de tantas vezes que esteve no hospital, seja para fazer as consultas do pré-natal ou participar do programa destinado às futuras mamães. São palestras, rodas de conversa, atendimento individualizado com a assistente social e, por fim, um tour pela maternidade para conhecer o banco de leite, a enfermaria e a sala de parto onde possivelmente elas darão à luz aos seus bebês: "Gosto daqui e já aprendi muitas coisas. Eu também consegui fazer todos os exames aqui".

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Quem também é atendida desde os três meses de gestação pelo Ambulatório é Aline, 16 anos,que namora um rapaz dois anos mais velho. "Vou cuidar da minha filha e continuar meus estudos. Pretendemos nos casar, mas só depois de terminar o colégio. Por enquanto, cada um mora com sua mãe". Às vésperas do parto, revelava-se ansiosa, mas estava sendo bem orientada para que tudo ocorresse bem.

É justamente para chamar a atenção das futuras mamães que o Ambulatório do Adolescente conta com uma equipe preparada. Segundo Eclésia Nogueira, enfermeira do local, é necessário abordar diversos assuntos, de preferência com uma linguagem simples em que elas consigam entender. Por exemplo: com um boneco nos braços e uma banheira, Eclésia fala com riqueza de detalhes o passo a passo do banho do recém-nascido, enquanto Tainá ouve com atenção e tira as últimas dúvidas antes da chegada de Iris.

Recursos lúdicos

Dentro dessa dinâmica, Eclésia também recorre à ludicidade como ferramenta atrativa na hora de repassar as informações, levando em conta a faixa etária das gestantes. Para falar sobre a importância da amamentação, a enfermeira utiliza duas mamas produzidas de crochê com riqueza nos detalhes, inclusive do leite saindo pelo bico. "O leite não é só nutrição, é afeto que o bebê vai adquirir enquanto estiver mamando", reforça a profissional.

Ao longo de três décadas de implantação do Ambulatório do Adolescente, referência nacional neste tipo de serviço, já foram realizadas 121.277 consultas de pré-natal e de ginecologia, com 44.275 atendimentos a meninas de até 18 anos. Afora a parte clínica, promove atividades sobre os cuidados com o recém-nascido (amamentação, higiene, afeto), além de orientação para a hora do parto, planejamento familiar e prevenção às infecções sexualmente transmissíveis.

Suporte multidisciplinar

As gestantes têm atendimento multidisciplinar com médico, enfermeiro, assistente social, psicólogo e nutricionista. Esse suporte vai contribuir muito no desenvolvimento destas adolescentes que estão deixando a infância para a vida adulta. "É um momento de transição, uma situação crítica e com chances de ter depressão materna", alerta a Dra. Maria Tereza Dias, chefe do Ambulatório da Criança e do Adolescente da Meac.

A psicóloga do Ambulatório Lorena Rodrigues Ferreira Guimarães reforça que a adolescência é sinônimo descobertas e mudanças e que hoje as instituições como as escolas e as unidades de saúde, por exemplo, cientes desses processos de experimentação, "atuam no sentido de favorecer o protagonismo e a autonomia do sujeito".

Questionada sobre o reforço dos discursos conservadores nos últimos anos, nas quais, muitas vezes, a abordagem de assunto ligados à afetividade e sexualidade são relacionadas equivocadamente às situações de incentivo a práticas sexuais, Lorena esclarece que o trato do tema não é sinônimo de "estímulo a determinadas experiências". Ela reitera que "o adolescente precisa ter acesso às informações, por meio das orientações das unidades nas quais são vinculados, como a escola e a família, assim como pelos canais buscados por si mesmos, como a internet e os amigos. O adolescente precisa viver experiências, construídas por meio da própria história e desejadas, necessitando de apoio para tal".

A gestação nessa faixa etária, portanto, não pode ser encarada apenas como um efeito direto da falta de informação. Em alguns casos, adolescentes grávidas reforçam que têm conhecimento sobre métodos contraceptivos e a gestação é desejada. Para a psicóloga Lorena Guimarães, isso está diretamente relacionado ao papel da mulher na sociedade, assim como à história de vida de cada adolescente. "Muitas meninas percebem a gestação como a oportunidade de formar a própria família e se libertar do espaço que não se sente protegida. Já outras a percebem como transformação para a vida adulta", analisa.

Entrevista com Lorena Rodrigues

"Duas grandes transformações ocorrendo ao mesmo tempo"

Corpos em transformação e afetos em descoberta. Apesar das diferenças entre épocas históricas, formação, origem, arranjos familiares, renda, dentre outras, é na adolescência que, em geral, iniciam-se as experiências afetivas e, posteriormente, as sexuais. Isso em um universo ainda permeado de tabus. Quando essas vivências resultam em gestações não planejadas, situações traumáticas podem ser ativadas tanto nas jovens-mães, como em quem as rodeia. Por isso, afeto, orientação e apoio são fundamentais nesse período, esclarece a psicóloga do Ambulatório do Adolescente da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand Lorena Guimarães. Nesta entrevista, ela fala sobre conflitos, implicações psicossociais e a necessidade do exercício da paternidade plena nos processos nos quais as maiores demandas historicamente e biologicamente recaem sobre as mulheres. (Thatiany Nascimento)

A gravidez na adolescência envolve múltiplas dimensões, desejos e causas. De modo geral, da perspectiva psicológica, é possível apontar as principais implicações das gestações precoces? Isso pode acelerar descobertas e gerar desequilíbrios e traumas?

A adolescência é um período peculiar do desenvolvimento humano, no qual uma série de situações são descobertas e vivenciadas. Abordando essa temática, não podemos generalizar como cada sujeito irá reagir, mas, em geral, as mudanças corporais, a abdicação da liberdade, as novas responsabilidades e os compromissos são as implicações mais presentes. Quando abordamos o termo "desequilíbrios e traumas", precisamos verificar o contexto da adolescente e da própria gestação, como: essa gravidez foi planejada? Essa adolescente tem rede de apoio? Ela tem maturidade de cuidado com si mesma e o bebê? Todas essas questões iniciais devem ser avaliadas quando trabalhamos com esse público.

A gravidez precoce pode gerar desestruturação nos núcleos familiares. Como famílias e instituições (escolas, saúde etc...) podem tratar da questão de modo a minimizar a desorientação e garantir possibilidades de vivências menos traumáticas para adolescentes que engravidam?

Na contemporaneidade, percebemos um movimento intenso no trabalho com orientação das instituições que atuam com adolescentes, assim como dos próprios responsáveis. As informações chegam, mas, em algumas situações, são distorcidas ou não internalizadas. É importante frisar a necessidade de manter um diálogo aberto e de troca de saberes. O adolescente precisa encontrar espaços onde possa falar sua linguagem e ser compreendido, ou seja, não julgado.

Esse tipo de gestação tem diferentes pressões a depender da classe social a qual pertence a adolescente. No aspecto psicológico, como essas diferentes pressões podem acentuar os dilemas das garotas de classes sociais distintas?

Há dilemas próprios vividos por adolescentes gestantes em classes sociais menos favorecidas e mais favorecidas, mas muitos são comuns, como a mudança corporal, a descoberta da gestação e a necessidade de informar as pessoas envolvidas, a abdicação de algumas tarefas do dia a dia e a rede de apoio familiar. A adolescência é um período peculiar da vida do sujeito, assim como a gestação é na vida da mulher. São duas grandes transformações ocorrendo ao mesmo tempo que necessitam de um olhar especial nas esferas de vivência dessa adolescente (saúde, escola, família, comunidade, amigos).

Os homens, muitas vezes, são vistos como meros acompanhantes das mulheres grávidas, se excluindo ou sendo excluídos da participação efetiva na vida dos filhos. No campo da psicologia, qual a orientação para fazer com que os pais assumam o papel necessário junto aos filhos, sendo também protagonistas no processo?

Historicamente e biologicamente, as mulheres estão mais envolvidas com a gestação do que os homens, o que não significa dizer que os mesmos não possam exercer a paternidade plena. O homem precisa compreender que sua participação efetiva faz diferença no desenvolvimento da criança. Percebemos um movimento de maior participação masculina no acompanhando das consultas de pré-natal das gestantes, no trabalho de parto, na importância de registrar o bebê. Todas essas pequenas mudanças são essenciais para que o homem perceba que há um espaço importante que deve ser ocupado na vida dessa criança. É um trabalho que deve ser realizado por todos os profissionais que atuam com a gestante, assim como pelas redes de apoio da mesma (familiares, amigos etc).

*Psicóloga do Ambulatório do Adolescente da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand

*Os nomes das adolescentes com menos de 18 anos citadas nesta reportagem são fictícios 

Serviço:

Ambulatório do Adolescente da MEAC

Endereço: Rua Coronel Nunes de Melo, S/N, Rodolfo Teófilo - 60430-270 Fortaleza - Ceará

Telefone: (85) 3366-8506

Dias e horário de funcionamento: segunda a sexta-feira

Como agendar atendimento: Os pacientes vêm encaminhados dos Postos de Saúde

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