Reportagem Praia de Moitas

Josivânia Alves Barbosa: com alimentos e afetos

00:00 · 07.10.2017 / atualizado às 11:00 por Textos: Cristina Pioner e Germana Cabral/Fotos: Helene Santos e Cid Barbosa

Todos os dias, Josivânia Alves Barbosa cumpre um ritual após despertar: caminha na praia e agradece a Deus pelo dom da vida, de cozinhar e de tecer lindas rendas de bilros. Na Praia de Moitas, em Amontada, ela é conhecida por Jô, uma mulher de 45 anos que acolhe todos de maneira especial. Sejam os da própria família, da comunidade ou quem chega de longe, como os turistas nacionais e estrangeiros.

Na vila de pescador, onde mora bem pertinho do mar, tem rotina atribulada. Montou um pequeno "restaurante" informal, abriu a lojinha de artesanato, ajuda na capela de Nossa Senhora Aparecida e cozinha para hóspedes de uma pousada: "Minha vida é como se fosse corrida, né? Mas é um corrido que não me cansa, fico feliz em trabalhar. Além das tarefas de casa, cuido do meu sogro, tem meu pai que também mora pertinho, enfim, trabalho bastante para ajudar ao meu marido no sustento da família"..

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Peixe assado no forno é uma das sugestões do cardápio de Josivânia (Foto: Cid Barbosa)

Casada há 25 anos com o pescador Edinan, ela tem seis filhos: Ênio Luis, Joyce, Jhon Helder, Emerson, José e Aparecida Vivian. Era marisqueira profissional e fazia redes de pesca, quando recebeu o diagnóstico de um câncer no colo do útero em 2008. "Pra gente foi muito complicado, com seis filhos pequenos, só o Edinan vivendo da pesca, mas não fiquei muito abatida, não, porque sempre pensei positivo na vida. Passei dois meses e dois dias em Fortaleza me tratando, e, graças a Deus, estou curada", afirma, com voz embargada e olhos marejados.

Desde então, por recomendação médica, deixou de pescar mariscos e teve que se reinventar. "Na minha vida, só encontrei gente boa, graças a Deus. O Sylvain e sua mulher Val, o doutor Jaime e a dona Bia, do projeto Aprendendo a pescar, e a dona Cristina, uma francesa que tem casa aqui", exemplifica.

Sylvain, o francês dono da pousada Laculá, a incentivou cozinhar para os turistas antes mesmo de abrir o empreendimento. "Ele me deu oportunidade. Foi um trabalho que Deus me deu, praticamente dentro da minha casa, bem dizer, Sylvain pra mim é um amigo, um colega, um vizinho. No início da pousada, fazia um pouco de tudo, mas agora faço almoço e jantar programados com antecedência para os hóspedes. Às vezes, ajudo no café da manhã".

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Peixe assado no forno, arroz de coco e búzios compõem as receitas originais de Josivânia (Foto: Cid Barbosa)

Com receitas autorais, a mesa servida por Josivânia é bem diversificada: "Tem arroz de coco, purê de batata doce ou jerimum, mariscos. Preparo peixe com molho de maracujá ou de manga, peixada com caju azedo. Ah! Tem o 'vinagrete da Jô', que leva azeite de coco. Faço um baião de polvo que não tem em canto nenhum. Não copio nada da internet. Tudo é invenção minha". Nas sobremesas, destaca o doce de banana com abacaxi e a cocada.

A experiência foi tão bem-sucedida que há um ano decidiu também receber clientes na própria residência. Ou melhor, na mesinha, sob a árvore, na frente da casa: "Funciona assim: as pessoas encomendam com antecedência, dizem o que querem comer, e eu preparo o café, o almoço ou jantar". Em agosto passado, foi convidada para participar na área da gastronomia do VII Encontro Sesc Povos do Mar.

Além da culinária, o artesanato virou outra alternativa de fonte de renda. Jô, que cursou até o 6º ano, abriu até uma lojinha, a Landuá, vizinho a sua casa, onde vende artigos dela e de outras mulheres da comunidade.

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Detalhe da coleção de rendas de bilros "Raízes culturais", inspirada nas raízes dos manguezais (Foto: Cid Barbosa)

"Quando estava fazendo o tratamento em Fortaleza no Crio, aprendi o bordado vagonite, e me lembrei das rendas de bilros, que tinha aprendido aos 10 anos. Fui atrás da rendeira dona Chiquinha, que me ensinou. Depois, juntei umas meninas aqui que faziam renda e criamos o grupo Arte Moitas". Na almofada, o que gosta mais de fazer são as peças da coleção Raízes Culturais, desenvolvida durante um curso da Central de Artesanato do Ceará (Ceart). "É baseada nas raízes dos manguezais e mistura crochê e renda".

Para "alimentar a alma", ela também se dedica à única netinha, a Thaissa, de 4 anos. Aliás, as crianças têm lugar especial no coração de Jô: "Fiz uma promessa que, se eu sobrevivesse do câncer, enquanto vida tivesse, iria fazer todo ano uma festa de Natal para crianças daqui da praia. Começamos com 15 participantes, agora são cerca de 130. Conto com a colaboração de muitas pessoas. Não é para aparecer, é um compromisso com Deus".

Serviço:

Josivânia Barbosa (refeições e artesanato) - 88 98183.8801 

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