Reportagem Aquiraz

José Pereira de Oliveira: Mestre das jangadinhas

A delicadeza e a perfeição das jangadas em miniatura são marcas registradas do trabalho do mestre da cultura Zé Oliveira. Falecido em 2013, aos 88 anos, foi também pescador na Prainha (Aquiraz)
00:00 · 10.03.2018
Esse é um dos versos improvisados de seu Oliveira que traduz parte de sua história. Na pesca, ele tinha sorte e habilidade de pegar peixes grandes, muitas vezes nem cabiam na embarcação, mas foi no artesanato, produzindo as minijangadas de piúba, que seu José Pereira de Oliveira (1926-2013) foi nomeado Mestre da Cultura do Ceará, pelo Governo do Estado/Secult , em 2006.

A vida na pesca começou cedo. Aos 13 anos, o menino já acompanhava o pai no mar. No ano seguinte, o primogênito assumiu mais responsabilidades, ocasião em que seu pai perdera a visão. Para ajudar os irmãos menores, Zé Oliveira se fortaleceu. Desde então, ficou conhecido por sua valentia e bravura na pesca. “Era chamado de Lobo do Mar”, diz orgulhosa a filha Alexandra. Zé Oliveira faleceu aos 88 anos. Foi casado com Auristela, com quem teve 15 filhos, mas só oito estão vivos. A mulher, com quem viveu por 59 anos, também era artesã na almofada de bilro, herança deixada para as filhas, a exemplo de Alexandra. 

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Aos 47 anos, sofreu o primeiro AVC e, desde então, ficou impossibilitado de pescar. Foi quando ele aperfeiçoou a sua habilidade com as mãos, afinal, ainda criança, ele já fazia as jangadinhas para brincar. Mais tarde, quando começou a pescar, tornou-se mestre de jangada.

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A delicadeza e a perfeição das jangadas em miniatura são marcas registradas  do trabalho do mestre da cultura Zé Oliveira. Falecido em 2013, aos 88 anos, foi também pescador na Prainha (Aquiraz) 

Chegou a ensinar a técnica em dois cursos promovidos pelo Governo do Estado, mas nenhum dos alunos, pelo menos que se tenha o conhecimento, deu prosseguimento na arte. Somente um primo, o Chiquinho da Enedina (ver texto acima), também da Prainha, vem se dedicando à mesma tradição.

“Meu pai tinha muito prazer e orgulho de fazer as jangadinhas. Não usava nada de cola, era tudo feito com madeira. Ele ia pros matos pegar o cipó para fazer o cesto”, destaca a filha.

Em 2006, o jornalista e pesquisador da cultura popular, Gilmar de Carvalho, conheceu Zé Oliveira e se encantou pela singularidade e pelos significados do trabalho do artesão.

“Seu Oliveira me emocionou pela delicadeza com que reduzia as jangadas à condição de miniaturas. Curioso que não eram peças feitas em série, como parte de um artesanato pobre, decaído, que vigora em algumas localidades. Cada jangadinha dele tinha vida própria, era única e dialogava com o mar, os grandes embates, a luta dos nossos Ulysses, jangadeiros anônimos, heróis de lutas diárias”, comparou Gilmar.

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