Reportagem DOC

Jornada de recomeços

Nesta caminhada de recomeços e guinadas, o jovem do Parque Santa Rosa fugiu das estatísticas negativas de uma Fortaleza tão desigual
00:00 · 04.03.2017 por Antonio Laudenir - Repórter

Cercado por uma profusão de fios, caixas e uma mesa abarrotada de anotações e outras coisas da labuta, Tiago Nascimento protagoniza mais um dia dentro de uma rotina bem definida. O técnico audiovisual da Vila das Artes recebe a reportagem com um sorriso no rosto. Mas avisa que se sente mais confortável atrás das câmeras.

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Estamos nos primeiros anos da década 2000 e um jovem morador do Bairro Parque Santa Rosa concentra forças nos estudos do Ensino Médio. Nos corredores do Instituto de Educação do Ceará, a ideia sobre qual destino tomar na vida ainda é nebulosa. A mãe até sonhava com um futuro médico. O filho até arriscou Odontologia no vestibular. Mesmo assim, nada feito. Valeu a tentativa.

Remando contra a maré de desigualdades tão comum à capital cearense, o estudante contou com uma chance até então inédita na vida. Era 2002, quando a Fábrica de Imagens abriu um curso de audiovisual voltado a alunos de escolas públicas.

Criada em 1998, a Organização Não Governamental traça e executa políticas de lutas para o enfrentamento de violações de direitos humanos, em especial as relacionadas a questões de gênero e sexualidade. A formação em audiovisual tinha como foco a propagação, também, de uma cultura de paz. Neste ambiente, Tiago encontraria os primeiros passos profissionais.

O contato com os estudos técnicos era combinado com uma formação humanística. Gênero, cidadania e a já citada cultura de paz passaram a ser temas discutidos e ampliados no dia a dia.

A perspectiva era de que os alunos, ao fim desta jornada, apresentassem os filmes em escolas públicas. Dar esse retorno para outros jovens constituiu uma experiência singular, revela o técnico.

Outras perspectivas despertaram ao olhar de Tiago. Relembrar essa fase da vida chega a ser emocionante para o profissional. "Foi bem bacana este primeiro ano. Tivemos aula com uma galera massa, que realiza audiovisual na cidade. Professores renomados como Valdo Siqueira, Micheline Helena, Armando Praça. Eu era um cara que quando terminava as aulas ficava por lá tirando dúvidas. Era muito instigado", descreve.

Mudanças

Todo esse cotidiano era mantido, agora, com trabalhos em filmagens e participações em produções locais. Registrar casamentos e festas era uma alternativa financeira viável. Tiago reforça que esses serviços eram totalmente diferentes das práticas pontuadas em sala. Mesmo assim, era uma forma de sustento e de se manter próximo da área. "A dinâmica era outra, o cinema tem sua característica hierárquica", assevera.

Em 2006, decidiu casar e a rotina de viagens e noites fora de casa por conta da labuta atrapalhavam estes planos.

A alternativa do então marido iniciante foi trabalhar na área gráfica, realidade totalmente díspar. Saem de cena as câmeras e os bastidores do audiovisual e surge uma rotina entre impressoras e máquinas fotocopiadoras. Contatos para outros trabalhos procuravam Tiago. Porém, o cotidiano entre as gráficas era mais rentável.

O aperto no coração era grande. A sensação de estar longe das câmeras incomodava. Em uma área em constante modificação, com a projeção cada vez maior de novos equipamentos. A distância era sentida com pesar. Foram exatos dois anos de trabalhos em gráficas. "Enchi o saco daquilo tudo e saí. Na semana da minha demissão, por uma feliz coincidência, o professor Valdo me telefonou. Eu já tinha até perdido seu contato. Ele falou que estava coordenando uma equipe e queria contar comigo".

Esse telefonema possibilitou que Tiago trabalhasse na Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).

A atitude corajosa de deixar um trabalho com renda certa para retomar ao mercado do audiovisual foi uma das decisões mais "acertadas" na vida. Em paralelo a este retorno, a sede de conhecimento do adulto o levou a conhecer os cursos ofertados pelo espaço Vila das Artes. Ali, conseguiria novo emprego.

"Quando criança não tinha muitas perspectivas. Hoje ainda moro no Parque Santa Rosa e lá também atuo nas comunidades eclesiásticas de base, que vejo como uma igreja mais pé no chão, e lá coordeno a pastoral do menor", conta.

"É uma comunidade muito carente, com crianças expostas e nós queremos oferecer a mínima possibilidade para que elas exerçam algum trabalho ou outra atividade. É muito lindo perceber que seu trabalho, teu processo criativo pode modificar a vida de alguém", detalha Tiago.

Dez anos depois de encerrar o ensino médio, veio outra decisão. Tiago priorizou a entrada em uma universidade. Pela Faculdade Cearense (FAC) concluiu com dificuldades e dedicação o Jornalismo - muito por conta dos horários como professor e técnico na Vila das Artes.

Números

O trabalho de conclusão de curso teve como objeto um documentário focado na vida do pintor cearense Descartes Gadelha. O homem, até então técnico, se sentia um "realizador" de agora em diante. A perspectiva é de lançar o filme nos festivais em 2017.

A música percussiva também é uma constante na vida de Tiago. Ao longo dos anos, explorou a área dos batuques com afinco e percorrer grupos locais como Maracatu Solar e Casa Caiada. Hoje, divide estes conhecimentos sonoros com outros jovens.

Com um estimativa de 12.790 habitantes, o Parque Santa Rosa ocupa a 36° colocação entre os bairros de Fortaleza com uma população que convive com a extrema pobreza.

Ou seja, são famílias que sobrevivem com uma renda inferior a R$ 70,00 por mês, segundo dados do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). Analisar os números friamente ainda é pouco para entender todo este contexto social em que estão inseridas estas pessoas.

"A falta de perspectiva, esta realidade, principalmente nos bairros de periferia, é gritante. Tenho amigos que são pais de família e trabalhadores; outros já não tiveram as mesmas oportunidades que eu. Esse caminho que fui traçando, ele foi muito importante para o que sou hoje. Infelizmente quando a gente está na periferia, se você não tiver uma cabeça boa, um caminho traçado e a mente ocupada, é muito fácil se envolver com o crime", lamenta.

Consciente da caminhada e do universo onde cresceu, Tiago compartilha conhecimentos e planta sementes pelo bairro. O técnico de audiovisual, jornalista, percussionista, marido, filho e amigo estão contidos no mesmo homem. Essa foi a forma de encarar os desafios. Durante toda esta trajetória, o encontro de Tiago com a arte foi uma bandeira de luta. Ah, sempre com um sorriso no rosto.

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