Reportagem Dupla cidadania

Jorgiana Varejão: a vida com planos bem traçados

00:00 · 02.09.2017 / atualizado às 19:47

Quando decidiu morar na Europa, Jorgiana Varejão estava iniciando a carreira de designer de interiores em Fortaleza, tendo inclusive participado da Casa Cor Ceará. Contudo, tinha planos bem traçados ao lado do futuro marido português. Decidiram começar a vida a dois em Lisboa, onde ela poderia concluir o curso de Arquitetura e juntar dinheiro para morarem, em Fortaleza, no máximo, em cinco anos. Era outubro de 2007. O casamento durou quatro anos. Jorgiana até hoje reside na capital portuguesa e conquistou a dupla cidadania.

Afora não voltar para o Brasil, a cearense de 41 anos conseguiu realizar mais do que programou. Formou-se em Arquitetura e cursa mestrado na área. Há cinco anos, tem novo companheiro, o português Francisco Rolo, dono de uma casa de culinária alentejana. No Restaurante Rolo, instalado no sofisticado bairro Azul, ela trabalha como gerente e relações-públicas, no qual cumpre rotina repleta de compromissos. A ambientação aconchegante da casa, é claro, tem os traços e o bom gosto da arquiteta.

Durante nosso encontro, iniciado no Parque Eduardo VII, e finalizado no restaurante, revela-se feliz e bem adaptada à vida lisboeta. Até na maneira de falar. Lembra, porém, ter sido difícil a princípio. "Sempre fui muito apegada a minha família e aos amigos. Apesar de eu ter como características fácil adaptabilidade às novas situações, ser otimista e destemida, a família sempre veio em primeiro lugar. Já havia recusado a possibilidade de estudar-trabalhar em Barcelona e ir estudar em São Paulo. Se mudar de cidade no Brasil já é difícil, imagine de país", afirma Jorgiana, que tem pais e irmãos morando em Fortaleza.

"Falamos brasileiro"

A facilidade da língua pode mascarar, segundo ela, que a adaptação será fácil. "As dificuldades vão além disso. Todos aqui dizem que falamos brasileiro, portanto é notório que somos estrangeiros. E para alguns, que nós falamos um português errado", comenta com bom humor.

Ressalta que em todo lado há gente boa e má. E em Portugal não é diferente. "Na adolescência, a gente tem um problema comum que é querer ser aceito, na vida toda passamos por isso. Imigrar tem uma dose acrescida para sermos aceitos. O que senti é que o imigrante já vem com um rótulo. Mais uma coisa para se adaptar", afirma.

No início, conseguiu trabalho e começou a construir uma vida com novos amigos. "Fui muito bem acarinhada pelos que me receberam, os mais próximos. Mas, no dia a dia, senti-me 'agredida' por uma violência que chamo silenciosa. Um preconceito. Uma vez ou outra de forma direta. Porém, o mais comum é indireto, mas que dói na mesma".

Esse relato, costuma ouvir de brasileiros também residentes: "Muitos adoram, muitos não, mas continuam aqui. Os que adoram, geralmente, é por causa da violência no Brasil. De terem aqui uma vida mais tranquila para poder criar os filhos. Os que não gostam, na maioria das vezes, é porque sentem o preconceito, mas querem juntar dinheiro e voltar".

Para além desses pormenores, Jorgiana revela que fez amigos verdadeiros, daqueles "que levará para a vida inteira" e procura aproveitar tudo de bom que o país lhe oferece, da cultura ao turismo. "Vir morar aqui foi muito bom. Amadureci muito. De forma que não conseguiria no Brasil. Não por ser no Brasil, mas por ser meu lar. Está a viver em outro país faz com busquemos as nossas referências em constante e as valorizamos mais".

De que sente saudades além da família? "De tudo. Sou cearense. Amo. Minha essência está lá, minhas referências". Por isso, pensa algum dia cumprir mais uma etapa do planejamento inicial. Só não sabe ainda e quando poderá acontecer um possível retorno à terra natal.

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