Reportagem DOC

Jogadores Esquecidos

00:00 · 05.08.2017 / atualizado às 17:47 · 05.04.2018 por João Bandeira Neto - Editor assistente

Fama, reconhecimento e grandes contas bancárias. Nem sempre a carreira de grandes jogadores de futebol é assim. Ao longo de várias décadas, passaram pelo futebol cearense diversos craques, que ajudaram a escrever a memória do futebol local. Porém, sem o devido reconhecimento do público e dos clubes, eles acabaram suas carreiras no ostracismo.

> Eles fundaram o futebol cearense
 
> Resenha das antigas: água no chopp do craque
 
> Memória  viva e que resiste
 
> Décadas de raça e talento
 
> Resenha: esperteza que valeu o gol
 
Casos como o de Vitório, Xixico e Juracy ilustram bem o que era ser jogador de futebol nas décadas anteriores, onde os ídolos eram lembrados de forma tímida e em que os próprios clubes não demonstravam interesse em manter suas lembranças vivas. Craques que já escreveram capítulos importantes no percurso de títulos dos times, morreram sem ter seu devido valor reconhecido.

"Temos um problema grave que é não reconhecer e se interessar pelo nosso passado. A memória não é passada para as gerações que se seguem. Em épocas que haviam mais divulgações, os ídolos são mais lembrados, mas os mais antigos, pouco se sabe deles", destaca o pesquisador Pedro Mapurunga Azevedo.

Ao longo das matérias seguintes, o Diário do Nordeste busca resgatar alguns desses nomes que passaram pelo futebol local e que deixaram seus legados importantes, seja com títulos e conquistas, seja com boas e divertidas histórias, que somente quem viveu essa época poderá confirmar sua veracidade.

Em anos que as informações são limitadas e muitas vezes imprecisas, contar um pouco da vida desses atletas é um desafio para quem se interessa pelo assunto. "Temos metade da história do Ceará que é pouco falada. O time é que é hoje pelo que foi feito no passado e isso tem que ser preservado", enfatiza Pedro.

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Popularidade em alta

Com o passar dos anos e com o esporte cada vez mais popular e querido pelas diferentes classes sociais, os clubes formaram elencos mais fortes. Nessas décadas, a artilharia dos campeonatos era motivo de rivalidade entre os mais diferentes clubes locais.

"Uma característica muito forte que ilustra bem esses antigos craques era a fidelidade do jogador a sua agremiação. Jogava-se por amor à camisa por anos a fio. Era comum ter jogadores que atuavam a carreira toda por um único clube", comenta Vicente Kléber, pesquisador. Nas diferentes décadas, nos mais alternativos times, uma coisa há em comum: o talento dos antigos jogadores nas mais diferentes posições. É hora de voltar no tempo.

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Eles fundaram o futebol cearense

Para os torcedores e amantes do futebol atual, lembrar de escalações das décadas de 60 e 70 é algo até fácil e natural. Basta se interessar pelo assunto que os nomes dos atletas que marcaram essas épocas surgem com naturalidade. Porém, existe um período do futebol cearense que poucos lembram e que raros registros são encontrados. Esse período vai desde o início do futebol no Estado, no início de 1915 até o fim da década de 40.

Os recortes de fotos, arquivos e matérias em jornais são raros e imprecisos. Talvez seja por isso que os craques que desfilaram pelos campos de terras da Capital sejam esquecidos das pesquisas e do conhecimento do grande público.

Com jogos realizados no Campo do Prado, onde hoje está localizado o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), e o Campo do Alagadiço, onde atualmente está a Igreja de São Gerardo, os atletas defendiam com muito vigor seus times e por eles criavam uma verdade identidade.

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Dentre esses nomes, um especial atuou pelo Ceará Sporting Club e foi vitorioso, porém, pouco lembrado. Aurélio Bento Teixeira, mais conhecido como Vitório. Esse apelido não foi em vão. Vitório passou 27 anos no Ceará, de 1921 a 1948, e, em todos os títulos que o Alvinegro faturou nesse período, o atleta teve participação direta neles. Foram 27 anos de dedicação ao clube, onde foi jogador, dirigente de futebol e treinador.

"Os títulos que o Ceará teve nessa época tiveram a colaboração de Vitório. Seu apelido foi dado justamente por essa fama de vitorioso que ele tinha quando veio do Paysandu para o Ceará", conta o pesquisador Pedro Mapurunga.

Segundo Pedro, além dessa dedicação ao time, existia uma questão moral dos jogadores mais antigos que se recusavam a receber dinheiro para jogar pelos clubes. "Isso é um fato inimaginável para os dias de hoje. Mas para a época, era algo que realmente era respeitado pelos atletas. Eles tinham outras ocupações e o futebol era considerado um lazer", destaca.

No período em que Vitório esteve no Ceará, o time foi campeão cearense oito vezes.

Seguindo na linha do tempo, os números mostram outro grande craque Alvinegro na década de 20. Walter Barroso é apontado como o primeiro grande goleador do Ceará Sporting Club. Com 14 gols no estadual de 1922, Walter só foi superado em número de gols pelo também atleta Alvinegro Pau Amarelo, em 1925, que marcou 16 vezes naquele certame.

"O Walter foi um dos que ajudaram na fundação do clube e figura como o primeiro matador do clube. Fez gols decisivos para as conquistas alvinegras", lembra Mapurunga.

Rivalidade

Com uma rivalidade ainda crescente com o Ceará, o Fortaleza também teve ídolos marcantes na década de 1920. Dentro de campo, quando o assunto era Clássico-Rei, os astros da época buscavam fazer seus nomes nos jogos. Pelo Campeonato Cearense de 1927, aconteceu a maior goleada no Clássico-Rei, o Fortaleza impôs 8 a 0 ao Ceará, com três gols de Hildebrando, dois de Pirão e um de Xixico, Humberto e Juracy.

E Juracy pode ser considerado o grande nome Tricolor na década de 20. Com gols decisivos nas conquistas dos estaduais de 21, 23 e 24, Juracy foi artilheiro do Campeonato Cearense nos anos de 1921, 22 e 24.

Apontado como o carrasco do Ceará, o atacante, que é pouco citado pela torcida, ainda continua com o recorde de maior número de gols no Clássico-Rei. Durante a década de 1920, Juracy balançou as redes do grande rival 25 vezes.

Na década de 30, nomes como Farnum, pelo Ceará e Bila, pelo Fortaleza, são logo lembrados nas pesquisas sobre o futebol. Porém, existiu no futebol cearense outro goleador que deixou sua marca na história dos estaduais: Mundico.

Artilheiro quatro vezes seguidas do Campeonato Cearense, Mundico fez um total de 57 gols entre os anos de 1935 e 1938. Atuando pelo América, Maguary e Fortaleza, o atacante chegou a marcar 28 gols em uma única edição do campeonato, atuando pelo Leão do Pici. Mas sem nunca receber seu devido reconhecimento, pouco se sabe da história do atacante Tricolor no ano de 1938.

Pelo lado Alvinegro, em 1941, o Ceará tinha um quinteto considerado um dos melhores do Brasil. Formado por João Brega, Idalino, França, Hermenegildo e Mitotônio.

"Mitotônio é sem dúvidas um dos melhores jogadores da história do Ceará. Com 151 gols com a camisa do Alvinegro, ele foi um grande jogador. Ele esteve na transição do esporte virar popular. Talvez por isso que não ganhou um status grande de ídolo", destaca o pesquisador.

Memória viva e que resiste

Futebol eficiente, disputado e popular. Essas características marcaram os jogadores que atuaram nas décadas de 50 e 60 no Estado. Com o esporte cada vez mais popular e querido pelas diferentes classes sociais, os clubes formaram elencos mais fortes e o futebol local teve um palco melhor e mais moderno para suas exibições: o recém-reformado Estádio Presidente Vargas.

Nessas décadas, a artilharia dos campeonatos era motivo de rivalidade entre os atletas do Ceará, Fortaleza e Ferroviário.

Craques como Pacoti, Haroldo Castelo Branco, Gildo, Luís Garapa, Mozart Gomes e Croinha ilustram a qualidade técnica que essa época representou no cenário local. O campeonato teve o privilégio de ter todos esses goleadores na sua história.

Um personagem dessa época ilustra como era prazeroso essa disputa. Com 24 gols marcados em uma única edição do campeonato, Francisco Nunes Rodrigues, o Pacoti, brilhou não apenas no cenário local mas teve seu talento reconhecido do Estádio do Maracanã aos gramados europeus.

Com uma memória precisa e risada fácil, Pacoti relembra o quanto era prazeroso as disputas entre os artilheiros. Nascido em Quixadá, o jogador chegou ao Ferroviário em 1955 para atuar pelos profissionais. Um ano depois, no estadual de 56, ele conseguiu a façanha de marcar 24 gols em um único certame.

"Essa foi uma época espetacular. Foi a era dos grandes goleadores. Nomes como Croinha, Ivan Carioca, Haroldo mostram o nível de disputa que existia. Atualmente, um atacante marca um gol em um jogo e só volta a fazer outro dois jogos depois. Na minha época era gol todo jogo. Eu olhava muito para a torcida e buscava inspiração. Naquele tempo havia uma amor profissional", conta Pacoti que atualmente tem 83 anos.

Essa ascensão meteórica lhe rendeu uma transferência para o Sport Recife. Em Pernambuco, sua carreira decolou mais ainda e ele tornou-se um dos maiores artilheiros daquele estado, com 36 gols em 18 jogos. Em 1958 foi a vez do talento cearense ir brilhar no principal palco esportivo do mundo: o Maracanã. Contratado pelo Vasco da Gama, Pacoti lembra que, quando chegou ao aeroporto, foi recebido por 11 fotógrafos, que queriam registrar a chegada dele no Rio.

"Cheguei no Vasco e assumi a titularidade em 1959. É muito marcante na minha memória jogar no Maracanã lotado com 160 mil torcedores em um Vasco e Flamengo", relembra.

Após dois anos no Vasco, foi a vez do atacante ser transferido para o Sporting de Lisboa, em Portugal. Mais uma vez protagonista, Pacoti disputou a artilharia do campeonato português com Eusébio, considerado um dos melhores jogadores do mundo.

Mesmo com pedidos para obter nacionalidade portuguesa, Pacoti resolveu voltar para o Brasil e, assim como planejou no início da carreira, o craque veio, em 1966, para encerrar sua carreira no Ferroviário.

"Eu sempre dizia que terminava a minha carreira aqui. Tudo que pedi, Deus me deu. Saí como profissional e voltei para parar no auge da minha carreira", conta com satisfação.

Saudosista pelo futebol jogado de antigamente, Pacoti relembra a rivalidade em clima amistoso que existia entre os craques da época. "Escutava dos marcadores provocações o jogo inteiro, quando a partida terminava e eu marcava dois ou três gols, respondia dizendo: agora leia o jornal amanhã que você vai ler os gols de hoje", rememora.

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Faro de gol

31 gols no Estadual de 1962. Essa é a incrível marca de Haroldo Castelo Branco. Foi jogando pelo Fortaleza que Haroldo conseguiu esta marca no estadual de 1962. O ex-jogador atuou nas décadas de 1950 e de 1960 no futebol cearense nas equipes do Fortaleza, Ceará e Gentilândia.

Integrante da Seleção Cearense de 1962, que acabou na terceira colocação do campeonato nacional de seleções, perdendo a semifinal para o Rio de Janeiro, o craque teve sua carreira interrompida muito precocemente.

"O azar do Haroldo é que no auge da sua carreira como jogador houve uma briga entre torcedores e o jogador Willian Pontes. Por ser militar, assim como Willian, o Exército Brasileiro proibiu que seus oficiais jogassem futebol, encerrando precocemente sua trajetória no futebol. Tenho certeza que se ele tivesse seguido, ele iria para os melhores times do Rio de Janeiro", conta o jornalista Tom Barros, amigo pessoal de Haroldo. Jogando como volante, um dos pontos fortes era a boa chegada ao ataque.

"A equipe da Seleção Cearense de 1962 marcou a história. Era de encher os olhos ver Haroldo, Carlito, Gildo, Mozart e Baíbe em ação", relembra Tom Barros. Os craques que passaram por essa época deixaram ainda mais rica a história dos goleadores locais.

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Décadas de raça e talento

Nas décadas de 70 e 80, o futebol cearense se notabilizou por duas características: jogadores com espírito de raça dentro de campo e talentos que despontaram nacionalmente. E os bons atletas refletiram em campeonatos acirrados, jejuns encerrados e artilharia com disputa gol a gol. Nomes como Luisinho das Arábias, Da Silva, Anselmo, Marciano marcaram esses anos com uma alternância ferrenha pela artilharia do campeonato.

Porém, se a linha de frente mostrava eficácia, as zagas dos times, pouco lembradas, também tinham seus valores. Entre eles está Wilkson, um zagueiro que atuou pelo Fortaleza na década de 70 e que se orgulha de ter tido a ousadia de marcar Gildo e outros atacantes famosos no início de sua carreira quando defendia o Messejana e posteriormente o Fortaleza.

"Tínhamos bons jogadores atuando nos ataques. Precisávamos ter muita atenção e chegar com vontade, pois os caras eram rápidos e chegavam com facilidade. Tive a honra de marcar grandes atacantes no futebol cearense, dentre eles Gildo, o maior ídolo da torcida do Ceará e um homem-gol. Hoje está mais fácil de jogar, principalmente como zagueiro, pois a proteção é maior. Antigamente existia o ataque com três homens. Onde você hoje vai encontrar atacantes como Gildo, Mozart? Na minha opinião, os melhores do futebol cearense de todas as épocas. Afora Amilton Melo, Lucinho, Paraíba, Erandyr, Zé Eduardo. Era uma infinidade de bons atletas", contou o zagueiro recentemente ao Diário do Nordeste, na série Arquivo de Chuteiras.

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Da Costa

E as recordações de quem viveu essa época também estão no meio de campo. Nesse período, dois irmãos cariocas passaram pelo futebol cearense e deixaram seus nomes marcados. Da Costa e seu irmão Jorge marcaram época no Alvinegro.

Bicampeão cearense em 71 e 72 e tricampeão em 75,76 e 77, Da Costa era querido pela torcida pela sua entrega dentro de campo e sua raça.

Mesmo com a imensa identificação com a torcida Alvinegra, Da Costa acabou indo para o Fortaleza em 77 e encerrou sua carreira em 1979 no Baraúnas, frustrado por não ter terminado no Ceará.

Hora de parar

É difícil para um jogador de futebol encerrar a carreira. E deve ser mais ainda ao constatar que a sua função dentro de campo também virou coisa do passado. Parar de jogar, voltar ao anonimato e perder as benesses que o status de jogador oferece. Essas foram algumas das preocupações dos craques que brilharam nos gramados cearenses.

"O futebol é uma profissão que o atleta quer sempre ficar na mídia. Você tem que pensar em algo para se fazer depois que encerrar a carreira. Os jogadores do passado que ainda são lembrados é porque estão na mídia e em contato com outros atletas. Na época, quem jogava futebol não se preparava para o futuro", conta Cícero Capacete, ex-goleiro do Fortaleza.

Cicero Soares Mattos, mais conhecido como Cícero Capacete, jogou na década de 70 e 80 como goleiro do Tricolor e foi campeão cearense pelo clube em 73 e 74. Além do Fortaleza ele jogou pelo América/RN 1976 e 1977, CSA/AL 1978, Ferroviário 1979 e Fortaleza em 1986.

Professor formado em Educação Física, Capacete, apelido dado pelo estilo do cabelo black power que tinha na década de 70, conseguiu dar rumo a sua vida sem o futebol. Porém, segundo ele, alguns dos atletas que jogaram na mesma época não tiveram o mesmo destino.

"O Croinha, do Fortaleza, quando parou de jogar futebol arrumaram um emprego para ele na Prefeitura. Para ele, era uma coisa terrível, um ídolo, goleador conhecido nacionalmente acabar como um guarda metropolitano", lembra.

Edson José de Souza, mais conhecido como Croinha, foi um dos principais nomes do Leão na conquista do Norte-Nordeste de 1970 e do vice da Taça Brasil de 1968.

"Para outros, o refúgio era a bebida e as drogas. A educação familiar pesava muito. Foi o meu caso. Eu sempre fui incentivado pelos meus pais para estudar e buscar uma formação", conta Cícero. Da sua geração de atletas, Capacete lembra também com orgulho de outros companheiros que conseguiram seguir outros caminhos.

"O anonimato era o grande problema desses ex-atletas, essa falta de reconhecimento pesou muito", finaliza.

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