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Jaguaribeiras: o coração de um rio - edição II: no molhado

Caldeirão do Padre, como é chamado trecho do rio Jaguaribe onde está o açude Caldeirões, é o principal balneário de Saboeiro. Quando dá bom 'inverno', é um dos primeiros locais a ver o rio transbordar
00:00 · 03.02.2018 / atualizado às 00:47 por Melquíades Júnior - textos/ Thiago Gadelha - fotos

A água, originalmente, sem cheiro, cor e sabor é, no fim das contas, uma das maiores aguçadoras de todos os sentidos. Se as razões científicas revelam nossa existência neste mundo, razões outras querem explicar por que nos mantêm. O que é o rio além de artéria das águas? A mulher lava a roupa, o menino é batizado, a imagem da santa é banhada em procissão, o sexo dos apaixonados é lavado, a seiva bruta da planta se faz canudo a beber o que houver para florir. Ou basta um banho.

O Jaguaribe tem água, é rio; se não tem, é rio também. Cava um poço no leito seco a ver o que ainda sobe. A população se "acostuma" com um rio sem água, até cair chuva neste janeiro e o dito cujo recebe mais visita no leito e nas margens: água e gente. E os celulares a garantir que vai sair no Facebook - em Jucás, no Alto Jaguaribe, uma multidão correu em 28 de janeiro para ver a ligeireza das águas, e quem não foi assistiu "ao vivo".

A despeito de para onde vai o recurso hídrico, o rio molhado é cenário e sujeito. Pode ter algum significado para quem é visitante, mas tem todo sentido para quem é jaguaribeirinho. Depois de uma parte seca, revisitamos impressões de quem vive no perene, perto das barragens que estancam a pressa (quando há) das águas.

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Quando Elizomar Nogueira e Albernam Maia, ambos de 45 anos, decidiram se casar, o 'book' de noivos, ficou decidido, seria à margem do Jaguaribe. "A gente se conheceu ainda era dois meninos véi. Vinha pro beiço do rio com a turma e se banhava", explica Albernam.

Muitos anos depois estão os dois, a seco e de branco. Ele de blusa com manga dobrada muitas vezes ("se é pra subir, pra que usar manga longa?", reclamou) e ela de vestido com alças e rendas.

O álbum dos noivos foi no estilo "faça sua praia em um rio", no horário do pôr do sol para ficar na foto o azul da água com o amarelado do céu e o sorriso branco dos dois. Se a felicidade tem cores, nesse momento são essas para o casal.


O lugar escolhido para as fotografias foi a vila de Moita Verde, no município de Limoeiro do Norte, já divisa com Tabuleiro. Esse trecho do rio foi perenizado pelo açude Castanhão e só seca se o reservatório findar completamente.

A Moita Verde foi, por muitos anos, o "moitel" da juventude nas noites com ou sem lua. A chegada das drogas ilícitas e a territorialização do tráfico também transformaram a região perigosa para outros gozos noturnos. Durante o dia, contudo, continua o verdadeiro cartão-postal de casamento.

A comunidade reverencia Nossa Senhora Aparecida. Em outubro, a procissão sai da Capela, construída há 30 anos pelo Clube de Jovens, e segue 500 metros até as águas do rio, onde entram padre e fiéis para a coroação.

Os moradores acreditam que a fé perene é uma das responsáveis pela manutenção do rio.

Para este DOC Jaguaribeiras, em sua "Edição II - o molhado", buscamos reconhecer o rio de quem o tem como ferramenta de celebração, que não começa na água nem termina nas margens. Gente que cresce com o rio ou quer vê-lo crescer.

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