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Jaguaribeiras: o coração de um rio - edição I - O seco

Moradores de Santarém, em Orós, participam da ONG Realeza Nordestina e encenam "O Quinze", de Rachel de Queiroz
00:00 · 27.01.2018 por Textos: Melquíades Júnior / Fotos:Thiago gadelha

De tão importante, a água, e quase só ela, é vista na artéria que pulsa dentro do rio. Se está seco ou cheio, o manancial será lembrado pelo que transporta ou deixa de transportar. Em tempo de canais, eixões e cinturões, o caminho das águas tem perdido um pedaço em importância: as margens e os que nelas beiram, habitam.

A busca por um território flutuante (no caso, a água) encontra correnteza na resistência das identidades ribeirinhas.

O Jaguaribe, mais extenso rio do Ceará, é como um corredor de Sertão em plena metamorfose. Seus ribeirinhos não sabem se vão ou se ficam.

Os tempos são outros, de rios de cal e cimento - tão importantes quanto aguardados, como é o caso da transposição do São Francisco. A recomposição desses corredores afeta o território de suas margens? A chuva, sim: basta triscar água na planta que fica verde. E basta chover para o sertanejo, feito planta xerófita, renovar a esperança.

Os açudes são como um coágulo para essa artéria hídrica, ao ponto de perenizar boa parte, mas nem metade, dos 600 km de rio.

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As beiras, portanto, mudam para frente e para trás, conforme a água chega e vai embora. Esse movimento vai indicar onde plantar na vazante, ou fincar um poço profundo para tentar chupar água da terra.

Um outro movimento, este cultural e social, é o que define até quando o rio, com ou sem água, é importante em suas margens.

Em dezenas de comunidades entre alto, médio e baixo Jaguaribe, até onde nem açude faz passar uma gota, a menos que chova muito, o Jaguaribe é chamado pelo nome. São mais de 20 municípios-margens.

Em 2013, percorremos um traçado para identificar as memórias das águas. Desta vez, passado dá lugar ao presente e ao pressentimento. Se um rio não é banhado pelas mesmas águas, o que mudou na vida de seus habitantes?

Passamos pelas cidades de Fortim, Aracati, Jaguaruana, Russas, Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte, Jaguaribara, Jaguaribe, Orós, Icó, Cariús, Arneiroz e Tauá, sendo o curso do rio pretexto para encontrar pessoas.

Isabel Pereira, de 78 anos, só se aposentou no papel, pois acredita que se mantém viva por não parar com a lida na roça; em Orós, os moradores da comunidade de Santarém, ela toda beira, escapam da seca fazendo arte. Encenarão "O Quinze", de Rachel de Queiroz. A dona de casa Maria Creuza nunca entrou num teatro, mas vai estrear de cima do palco principal do Theatro José de Alencar, em Fortaleza.

Este DOC tem uma parte "seca", nesta edição, e outra "molhada", no fim de semana que vem. São pequenas gotas narrativas sobre quem se sente do rio, as pessoas jaguaribeiras.

Se o rio, tanto do imaginário quanto real, pulsa até onde não tem água, em outros lugares deve morar seu coração.

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